Desaceleração e conflitos internos marcam governo de Bachelet

Manuel Fuentes.

Santiago, 21 dez (EFE).- A desaceleração econômica que afeta o Chile há três anos e as severas divergências políticas dentro do governo esfriaram as expectativas de mudança impulsionadas por Michelle Bachelet em seu retorno ao Palácio de La Moneda e abrem a possibilidade da volta da direita ao poder.

O complicado panorama internacional e os baixos níveis de consumo e investimento estão fazendo a economia chilena crescer abaixo do previsto, embora o país siga acima da média da região.

Por outro lado, o clima é de desconfiança e o pessimismo entre os consumidores e a classe empresarial, esta última afetada pelos escândalos de corrupção e muito crítica em relação às reformas do governo.

Tal panorama levou o ministro da Fazenda, Rodrigo Valdés, a reduzir o gasto fiscal para manter as finanças públicas sob controle.

O Chile fecha o ano de 2016 com um horizonte sombrio: a Fitch rebaixou a perspectiva do rating do país para negativa. É a primeira vez que isso acontece desde que a agência de avaliação de risco começou a qualificar os instrumentos soberanos de dívida, em 1994.

Além disso, o Fundo Monetário Internacional projetou que o país fechará 2016 com um modesto crescimento de 1,7%, e advertiu sobre os riscos derivados de um "arrefecimento inesperado" de seus principais parceiros comerciais, Brasil e China.

Para o próximo ano, o FMI prevê em sua revisão da economia chilena uma recuperação "gradual" por causa do baixo crescimento dos salários, a pequena geração de emprego e a redução da confiança empresarial.

As projeções preocupam os agentes econômicos e inquietam o governo, que teme um eventual fracasso nas eleições presidenciais e legislativas, como já ocorreu nas municipais de outubro.

Na ocasião, as forças políticas que apoiam Michelle Bachelet sofreram uma pesada derrota para a coalizão opositora Chile Vamos, cujos candidatos arrebataram prefeituras emblemáticas da aliança da presidente, a Nova Maioria.

As eleições locais, realizadas pela quarta vez desde que a lei eleitoral foi reformada para estabelecer o voto voluntário, registraram uma participação de apenas 35% dos eleitores e foram precedidas por uma controvérsia sobre a validade do censo eleitoral e a ameaça da direita de impugnar os resultados.

O sistema eleitoral chileno, considerado um modelo de eficiência e confiabilidade, foi posto em xeque por um gigantesco e garrafal erro no censo que afetou dezenas de milhares de eleitores e que custou o cargo da ministra da Justiça, Javiera Blanco.

A baixa participação faz com que muitos duvidem que as eleições municipais sirvam para projetar os resultados nacionais do próximo ano, mas muitos acreditam que foi um bom trampolim político para os candidatos a governar o Chile a partir de 2018.

Dois pesos pesados da política chilena, os ex-presidentes Ricardo Lagos e Sebastián Piñera, e duas figuras emergentes que não militam em partidos, os senadores Alejandro Guillier e Manuel José Ossandón, despontam como candidatos presidenciais em 2017.

Alguns analistas e dirigentes políticos, a cúpula empresarial e um setor da opinião pública consideram que um duelo entre Lagos e Piñera é o melhor cenário eleitoral para superar a situação gerada pelo desgaste do governo de Michelle Bachelet e o descrédito na política como consequência dos casos de corrupção.

Mas também há quem pense que os problemas da sociedade chilena são difíceis de resolver com lideranças à moda antiga, já que a população está cada vez mais crítica e empoderada.

A Nova Maioria, aliança que governa o Chile desde março de 2014, corre o risco de se dissolver, dadas as reiteradas rebeliões internas de seus parlamentares nos últimos meses.

Herdeira da Concertação de Partidos pela Democracia, que governou o Chile entre 1990 e 2010, a Nova Maioria surgiu sob a liderança indiscutível de Michelle Bachelet às vésperas das eleições legislativas e presidenciais de 2013, e contou com o apoio adicional de comunistas e políticos independentes de esquerda.

Naquela época, Bachelet gozava de uma popularidade que beirava os 80% e todos os partidos aderiram a seu programa político, repleto de ambiciosos projetos, como uma reforma tributária, um novo modelo educativo e uma Constituição alinhada com o sistema democrático.

O cenário de hoje, no entanto, é muito diferente. O apoio às políticas do governo caiu abruptamente, a popularidade da presidente não passa dos 20% e a coesão dentro da Nova Maioria desapareceu.

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