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Análise: Quem é Moon Jae-in, o ousado intermediário do diálogo com a Coreia do Norte

10.fev.2018 - Moon Jae-in cumprimenta Kim Yo-jong, irmã de Kim Jong-un - AFP Photo
10.fev.2018 - Moon Jae-in cumprimenta Kim Yo-jong, irmã de Kim Jong-un Imagem: AFP Photo

Andrés Sánchez Braun.

Em Seul

26/04/2018 07h02

O presidente da Coreia do Sul, Moon  Jae-in, figura central no processo de reaproximação entre o país e a Coreia do Norte, participará nesta sexta-feira de um histórico encontro com Kim Jong-un graças a uma decidida aposta pelo diálogo, uma decisão bastante arriscada tomada logo no início de seu governo.

Desde que chegou ao poder em maio de 2017, Moon usou sua experiência como advogado defensor dos direitos humanos, deixando claro que a diplomacia era a única forma de diminuir as tensões na região provocadas pelos contínuos progressos do programa nuclear e de mísseis da Coreia do Norte.

Filho de norte-coreanos que fugiram para o outro lado da fronteira na Guerra da Coreia (1950-1953), o presidente pertence à geração que possui um dos últimos elos com a ideia de uma península unificada, um cenário cada vez mais rejeitado pelos mais jovens.

Católico praticante, Moon, de 65 anos, também fez parte de grupos que exigiram o fim das ditaduras que comandaram o país nas décadas de 1970 e 1980, sendo preso em várias ocasiões.

O idealismo não impediu Moon, ao contrário de seus antecessores Kim Dae-Jung e Roh  Moo-hyon, de defender também uma política de sanções firmes ao vizinho sempre que a Coreia do Norte insistiu em seguir com a busca pela bomba nuclear.

Ao longo da última campanha, o partido de Moon explorou bastante a experiência do presidente dentro das forças especiais da Coreia do Sul para mostrar que ele têm consciência de que os dois países ainda estão tecnicamente em guerra.

A capacidade de manter o equilíbrio entre o diálogo e a firmeza transformaram Moon até agora em um excelente mediador entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, um espaço aberto pelo afastamento da China, que endureceu as sanções contra o regime de Kim.

Moon sempre desejou usar os Jogos Olímpicos de Inverno, organizados pela Coreia do Sul em fevereiro, como palco para articular essa aproximação e convidou o vizinho do norte a participar do evento, aliviando as tensões geradas pelos repetidos testes de mísseis de Pyongyang e as ameaças trocadas entre Kim e o presidente dos EUA, Donald Trump.

Apesar de Kim ter demorado a aceitar o convite, os Jogos Olímpicos aceleraram o processo e deram aos diplomatas abertura para agir com rapidez, criando um cenário quase inédito na península.

No entanto, ainda são muitas as incógnitas. Em especial, ninguém sabe o que pode ocorrer no encontro entre Kim e Trump, previsto para ocorrer no fim de maio ou no início de junho.

O maior risco, segundo os analistas, é que ocorrerá quando EUA e Coreia do Norte colocarem as cartas sobre a mesa de negociação. Pode haver grande divergência sobre a ideia de desnuclearização da península ou sobre as condições para implementar esse desarmamento.

Neste caso, o desafio de Moon seria em manter a relação viva, mas frágil, com a Coreia do Norte e fazer com que os EUA sigam optando pelo diálogo, afastando a opção de um ataque estratégico contra Pyongyang, defendida por parte dos assessores de segurança recentemente nomeados por Trump, como John Bolton.

Após os fracassos das cúpulas entre as Coreias realizadas em 2000 e 2007, muitos acreditam que um revés de Moon poderia motivar ainda mais o desinteresse e a descrença já expressada por muitos sul-coreanos em relação ao país vizinho.

Além disso, as novas gerações de políticos sul-coreanos dificilmente teriam a visão e empatias próprias de Moon por estarem cada vez mais afastados da lembrança da guerra na península.

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