PUBLICIDADE
Topo

Internacional

Apesar de boicote, palestino decide concorrer a prefeito de Jerusalém

Reprodução / Facebook
Imagem: Reprodução / Facebook

27/07/2018 10h02

Um palestino está decidido a concorrer a prefeito de Jerusalém nas próximas eleições, que tradicionalmente são boicotadas pelos árabes que moram na cidade e não aceitam a ocupação israelense da parte leste.

Jerusalem for Jerusalemites (Jerusalém para os habitantes de Jerusalém, em tradução livre) é o nome de um novo partido, cujo pré-candidato é Ramadan Dabash​, 32. Ele tenta mudar a política da Cidade Santa e fazer com que os palestinos votem em 30 de outubro, quando a cidade ganhará um novo prefeito, já que o atual, Nir  Barkat, decidiu não concorrer à reeleição após dez anos no poder.

Jerusalém Leste não tem serviços suficientes. Quero fazer diferente, quero coisas melhores para meu povo. Ninguém nos ajudou nos últimos 51 anos. Escolas, parques... Não tem nada. É um deserto

Formado em Engenharia, ele mora em Tsur  Baher, um dos 28 bairros de Jerusalém oriental, e afirma que não é fácil uma pessoa decidir concorrer a esse cargo.

"As pessoas não estão muito dispostas a conversar e mudar o pensamento. Por isso eu tento e espero ter sucesso", explicou.

De acordo com o diretor da ONG Sociedade St.Yves, Raffoul Rofa, desde que Israel - que considera Jerusalém como sua capital indivisível e eterna - ocupou (em 1967) e anexou (1980) a parte Leste da cidade, a maioria dos palestinos se recusa a votar nas eleições municipais, porque isso representaria um reconhecimento dessa autoridade.

"Historicamente, existiu muita discriminação contra os palestinos na cidade, que não têm o mesmo tratamento que as pessoas que moram em Jerusalém Oeste ou nos assentamentos. Nessa parte, a coleta de lixo tem regularidade menor, as estradas são mal conservadas, e existe carência de escolas", explicou Rofa, que é advogado.

De acordo com dados divulgados em 2017 pela ONG israelense Ir Amim, que defende uma Jerusalém "equitativa e estável", 37% dos hierosolimitas (moradores de Jerusalém), ou 370 mil pessoas, são palestinos, mas só 15% de Jerusalém Leste e 8,5% da área total urbana estão divididas para o uso residencial, e a verba atribuída para esse trecho era de 10% do orçamento. Em um relatório de 2016, o defensor do povo de Israel, Joseph Shapira, apontou que Jerusalém não tinha um plano urbanístico válido e que os palestinos conseguiam apenas 15% das permissões de construção concedidas, número que o Ir Amim reduz a 8%.

A Prefeitura informou à Agência Efe que recebe um número "muito pequeno de pedidos para construir em regiões predominantemente árabes", mas assegurou que quando são apresentadas "têm taxa de aprovação particularmente alta".

De acordo com Rofa, a política israelense para a parte Leste "mudou " nos últimos anos. Ele deu como exemplo uma recente e grande injeção de verba para melhorar serviços, incluindo a educação, mas "ainda há uma brecha e o medo do abandono".

A Prefeitura disse que em 2017 injetou o equivalente a pouco mais de R$ 1 bilhão neste setor e nos últimos anos fez "investimentos e desenvolvimento sem precedentes em Jerusalém Leste, incluindo a abertura de novos parques, escolas, e espaços para atividades", dentro dos "muitos projetos que avançam nas partes orientais da cidade". Os orçamentos são distribuídos por áreas, e "são para o benefício de todos os moradores, conforme as suas necessidades".

Dabash insistiu que não quer "fazer política", mas atrair o maior número possível de eleitores para entrar e, uma vez dentro, "poder ajudar", apesar de já ter sido ameaçado e inclusive ter sofrido "uma tentativa de morte".

Além disso, existe a questão entre os religiosos. Ele acusou o Fatah (partido que controla a Autoridade Nacional a Palestina)" de "abandono", embora Israel não permita que ele tenha presença em Jerusalém. E, recentemente, o secretário-geral da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Saeb Erekat, pediu para renovar o boicote ao pleito.

Com essa tendência, na rua, muitos nem sabem que haverá um candidato palestino, e os que o sabem, preferem não falar sobre.

"Por que agora e não há dez anos?", questiona George, nome fictício de um dos poucos que se atrevem a opinar sobre o assunto nas imediações do Portão de Damasco, a principal entrada para a Cidade Velha, em território ocupado.

Desconfiado, ele disse não acreditar que a iniciativa de Dabash pode dar certo, embora goste da ideia. Para ele, Jerusalém não vai mudar.

"Aqui, a política sempre se impõe", lamentou.

Internacional