São Paulo vive alívio com fim da seca, mas riscos de falta d'água persistem

Por Caroline Stauffer

Em São Paulo

  • Nilton Cardin

    Represa Jaguari, do sistema Cantareira

    Represa Jaguari, do sistema Cantareira

Os níveis de água do principal reservatório de São Paulo mais do que dobraram desde que o El Niño pôs fim a uma seca de dois anos, mas setores industriais e ativistas alertam que novos episódios de falta d'água podem ser só uma questão de tempo.

As chuvas em quantidade suficiente desde o final do ano passado eliminaram os temores de um racionamento iminente, mas empresas e ativistas dizem que a região mais populosa do Brasil perdeu uma oportunidade de blindar a população de futuras secas deixando de conter o consumo e melhorar a eficiência do sistema.

A seca épica causou pânico na maior cidade sul-americana. O impacto na produção das indústrias e fazendas ameaçou uma economia já fragilizada, e os moradores que estocaram água da chuva estimularam um surto de dengue e possivelmente de zika, duas doenças transmitidas por mosquitos.

A Sabesp está extraindo água de outros reservatórios e mantendo a pressão das tubulações baixa de manhã, o que deixa alguns moradores com as torneiras secas. A estatal também cogita impostos mais altos para a indústria como forma de financiar investimentos em infraestrutura.

Mas o setor industrial, que consome 30% da água de São Paulo, está recorrendo a poços particulares, reciclando água e capturando água da chuva para evitar depender da rede, de acordo com Anicia Pio, chefe do departamento ambiental da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

"A indústria trabalha com o médio e o longo prazo... não acreditamos que as ações (da Sabesp) sejam suficientes para se obter a segurança hídrica", disse. "Isso é cíclico. Aconteceu em 2004, aconteceu em 2014. Não temos uma bola de cristal para saber quando pode acontecer de novo".

A companhia industrial química Rhodia, controlada pela belga Solvay, foi forçada a deter o trabalho em algumas fábricas em 2014 devido ao nível baixo dos rios. O racionamento no interior do Estado obrigou a JBS, maior processadora de carne bovina do mundo, a colocar 800 funcionários em licença.

As chuvas trouxeram alívio no final de 2015, e a água do sistema Cantareira, que é o maior reservatório de São Paulo e abastece quase 6 milhões de pessoas, ficou acima do nível de bombeamento pela primeira vez em um ano e meio. Assim, a Sabesp não precisa mais recorrer a volume morto para suprir o coração comercial da América do Sul.

As restrições à irrigação foram suspensas em novembro, e safras recordes de cana-de-açúcar e de café estão previstas para este ano.

Como choveu acima da média em janeiro, os níveis da Cantareira mais que duplicaram -- de 20 por cento no dia 1 de dezembro passado para 48,6 por cento nesta quinta-feira.

Secas mais prováveis

Mas o Estado que representa um terço da economia brasileira continua vulnerável a uma nova crise por causa de vários fatores. O racionamento de água ou de energia é visto como um risco de longo prazo em um país que depende sobretudo de hidrelétricas para a geração de energia.

São Paulo foi criticada por especialistas da ONU (Organização das Nações Unidas) por perder 31% de sua água tratada devido a vazamentos e roubos.

A Sabesp afirmou que as 34 medidas que adotou durante a crise, da melhoria na capacidade de bombeamento à adição de novos rios para o suprimento, ajudaram São Paulo a escapar do racionamento.

Agora, especialistas do clima afirmam que secas e outros eventos climáticos extremos são mais prováveis por causa da mudança climática, da poluição e do desmatamento das florestas tropicais.

"Precisamos nos preparar para situações mais drásticas", disse Samuel Barreto, gerente de estratégia de água do grupo The Nature Conservancy, em São Paulo. "Temos que aprender a usar a água de forma mais racional, inteligente."

Falta de água faz moradores mudar hábitos

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