Com viagens de 36h, venezuelanos inundam a fronteira com o Brasil para comprar comida

Brian Ellsworth

Em Pacaraima

  • William Urdaneta/Reuters

O funcionário público José Lara usou parte de suas férias neste mês para fazer uma grande viagem de ônibus passando pelo sul da Venezuela. Mas a viagem não foi feita a lazer: ele embarcou durante a noite e atravessou a fronteira para o Brasil em uma caminhonete em uma viagem de mais de 36 horas para comprar alimentos básicos, que são cada vez mais escassos na Venezuela em crise.

"Agora os trabalhadores não podem desfrutar de suas férias. Olha onde estou. Comprando comida para os meus filhos", disse Lara, 40, enquanto se preparava para carregar pacotes de 30 quilos de arroz e farinha para o ônibus.

Venezuelanos em busca de formas de escapar de sua economia socialista disfuncional estão inundando a remota cidade brasileira de Pacaraima, em Roraima, à procura de produtos básicos que são proibitivamente caros em casa ou que só estão disponíveis depois de horas de espera em longas filas.

William Urdaneta/Reuters

Os compradores fazem o trajeto há meses, especialmente até a cidade industrial de Puerto Ordaz –uma viagem de ônibus de 12 horas--, mas ultimamente são provenientes até de regiões mais remotas.

Cada vez mais venezuelanos se queixam de que a escassez e as longas filas os proíbem de fazer três refeições diárias.

Os baixos preços do petróleo deixaram o país sem dinheiro suficiente para importar mercadorias, enquanto os controles de preços e moeda prejudicam e paralisam a indústria local.

Enquanto a oposição culpa o presidente Nicolás Maduro pela crise e tenta derrubá-lo através de um referendo, ele afirma que é vítima de uma "guerra econômica" liderada pelos Estados Unidos.

Compras em Roraima

William Urdaneta/Reuters

Pressionadas por moradores após Maduro ordenar o fechamento da fronteira oeste com a Colômbia no ano passado, as autoridades venezuelanas permitiram a passagem temporária de centenas de milhares de pessoas, mas Bogotá diz que não iria permitir novas reaberturas depois de uma avalanche de mais de 100.000 compradores que buscaram produtos nas cidades colombianas.

A fronteira com o Brasil, entretanto, nunca foi fechada.

Em Pacaraima, cidade do outro lado da fronteira, mercearias -e até mesmo lojas de peças de automóveis e de animais— agora estão inundadas com pilhas de sacos de arroz, açúcar e farinha.

Vídeo retrata a saga de venezuelanos em busca de comida no Brasil

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"É um bom negócio, mas o preço de tudo está subindo em Boa Vista", disse Mauricio Macedo, 26, referindo-se à capital do Estado de Roraima.

Macedo trabalha em um negócio familiar vendendo decoração artesanal, mas há meses tem focado principalmente na venda de alimentos.

A legislação venezuelana exige que os produtos básicos sejam vendidos a um preço muito baixo. Por exemplo, um quilo de arroz custa o equivalente a US$ 0,12 centavos (cerca de R$ 0,38). Por causa do baixo preço, estes produtos são os mais escassos e revendidos no mercado negro em valores mais caros. O mesmo arroz pode custar US$ 2,20 (cerca de R$ 6,90).

William Urdaneta/Reuters

Em Pacaraima, o açúcar e o arroz são vendidos por até 45% menos do que o valor cobrado no mercado negro da Venezuela, por isso a viagem vale a pena.

"Estamos em uma crise econômica e tenho que vir a outro país para comprar comida", disse Juan Sansonetti, 31, que levava um saco de farinha sobre os ombros sob um sol escaldante em Pacaraima. "Não há mais nada a dizer, certo?".

Venezuelanos correm para a fronteira com o Brasil em busca de alimentos

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