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Volta às aulas deve priorizar alunos vulneráveis para reduzir desigualdade, diz diretor da OCDE

Dezenas de países seguem com suas escolas fechadas meses após o início da pandemia - Divulgação/Governo do Pará
Dezenas de países seguem com suas escolas fechadas meses após o início da pandemia Imagem: Divulgação/Governo do Pará

07/08/2020 14h12

Desde o início da pandemia da covid-19, mais de um bilhão de estudantes em todo o mundo tiveram suas aulas interrompidas. A ONU alerta para o risco do aumento da evasão escolar e da desigualdade educacional entre mais ricos e mais pobres.

Para o diretor de educação da OCDE, a volta às aulas em condições de segurança deve ser prioridade dos países, sobretudo para alunos de contextos sociais mais vulneráveis.

Apesar de boa parte dos sistemas de educação ter tentado se adaptar à situação oferecendo aulas virtuais, pela televisão ou mesmo pelas rádios, dezenas de países seguem com suas escolas fechadas meses após o início da pandemia. Os meses longe da escola devem aumentar a desigualdade entre alunos com mais e menos oportunidades.

"Há um grande risco de que toda uma geração de jovens seja deixada para trás, particularmente estudantes de contextos sociais desfavorecidos que às vezes não têm apoio dos pais, não têm acesso à tecnologia ou mesmo não têm experiência para aprender de maneira autônoma. Esses alunos têm sido abandonados. Por isso é tão importante restabelecer as aulas o mais rápido possível", avalia Andreas Schleicher.

"Países como o Brasil, que já tem alto nível de desigualdade, deveriam começar a reabrir as escolas pelos alunos que precisam mais, para ajudá-los", destaca o pai do exame internacional PISA, que mede os conhecimentos de alunos de 15 anos em diferentes países.

A preocupação é especial com as crianças pequenas e alunos de ensino médio, etapa que já sofre com grandes taxas de evasão escolar. "O ambiente escolar é particularmente importante para as crianças mais novas, para seu convívio social. O aprendizado a distância ou virtual não funciona bem com essa idade", afirma.

Estratégias de retorno

Começar pelos mais novos e com distanciamento foi a estratégia usada em lugares como a França. O país foi gravemente atingido pela pandemia em março e fechou suas escolas poucos dias antes de decretar lockdown. Em maio, quando o número de casos de contágio já era baixo e o país começou a aliviar as medidas de isolamento, as escolas foram uma das primeiras coisas a reabrir.

As pré-escolas e unidades de ensino fundamental foram as primeiras a receberem alunos, com rodízio de estudantes ao longo da semana para reduzir o número de alunos por sala e garantir a distância entre as carteiras. Nesse momento, a merenda era servida dentro da sala de aula, para evitar o contato entre alunos de diferentes classes.

Aos poucos, voltaram os alunos dos anos finais do ensino fundamental e do médio. A máscara foi adotada como material obrigatório para os estudantes a partir dos 11 anos e todos os professores.

Neste primeiro momento, algumas escolas chegaram a fechar após casos de covid serem identificados entre pessoas da comunidade escolar, como estudantes, professores ou autoridades que tiveram contato com as escolas. A medida faz parte da estratégia de testagem e isolamento.

Em setembro, quando começa o novo ano letivo francês, os estudantes devem continuar a usar máscaras, mas já poderão encontrar todos os colegas no mesmo dia e usar as quadras esportivas.

As regras foram sendo alteradas conforme o número de casos caía, seguindo a orientação do Ministério da Saúde e da pasta da Educação Nacional.

Falta de coordenação atrapalha educação no Brasil

Para Claudia Costin, pesquisadora da FGV (Fundação Getulio Vargas) e ex-diretora de educação do Banco Mundial, no caso brasileiro, a falta de coordenação central prejudicou a educação. A maior parte das escolas no Brasil fecharam suas portas em março, mas por decisão de municípios e estados.

"O Ministério da Educação foi o grande ausente na coordenação nacional da resposta educacional à covid. Eles não apoiaram esse processo de aprendizagem em casa diferentemente do que fizeram outras repúblicas federativas, como o caso da Alemanha e até da Argentina, aqui perto", diz a pesquisadora.

No início da pandemia, o Ministério da Educação da Argentina criou uma plataforma digital com os conteúdos que deveriam ser trabalhados para cada série escolar e ofereceu para os governos locais, garantindo assim o ensino à distância mesmo para regiões com menos recursos para investir na adaptação. Além disso, apostilas feitas pelo governo central foram oferecidas para serem entregues na casa dos alunos.

Em agosto, o país de 44 milhões de habitantes se prepara para dar início a volta às aulas nas províncias com menos casos de covid-19. O modelo escolhido prevê medição de temperatura na escola e metade dos alunos por classe. Os primeiros a voltarem às aulas na província de Santiago del Estero serão os alunos em final de ciclo escolar.

Costin considera que ainda falta ação do governo nacional para indicar medidas sanitárias e pedagógicas: "Aqui no Brasil isso não aconteceu, e tampouco vem acontecendo um apoio do Ministério da Educação e do Ministério da Saúde para o estabelecimento de protocolos sanitários para preparar a volta às aulas".

Nesta semana, o MEC, em resposta à Câmara dos Deputados, assumiu não saber quantos alunos da educação básica tem acompanhado aulas virtuais. A reportagem da RFI tentou entrar em contato com a Pasta, que não respondeu aos pedidos.

Estados devem reabrir conforme onda epidêmica

Diante da falta de ação do MEC, os governos estaduais e municipais se coordenaram para criar protocolos e trocar experiências. O Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação) publicou em julho um protocolo de retorno às aulas baseado nas experiências de outros países.

O protocolo prevê a volta progressiva das ações presenciais, respeitando o momento da onda epidêmica em cada lugar do país. A Fiocruz também publicou um manual de orientação que vai na mesma linha.

"A epidemia no Amazonas está terminando, Mato Grosso do Sul está começando. Então é lógico que o Amazonas vai começar antes. Agora dentro do Estado, entre ele e seus municípios, a gente tem feito um esforço para que comece junto", explica Cecília Motta, secretaria de Educação do Mato Grosso do Sul e presidente do Consed.

Para Claudia Costin, o fato de alguns lugares terem permitido a volta às aulas antes do momento epidemiológico adequado, como foi o caso de Manaus e Rio de Janeiro, aumentou a desconfiança de pais e professores.

"Ainda não era a hora, é necessário que esteja em um platô mais baixo de casos para voltar com segurança. Mas há lugares em que pode ser o caso, e temos experiências de vários países para mostrar que é possível", analisa.

Schleicher, da OCDE, lembra que será necessário um investimento para garantir a segurança de alunos e professores e para criar oportunidades de recuperação do tempo perdido para os alunos que não conseguiram acompanhar o ensino remoto. "É muito mais caro para a sociedade a perda desses alunos."

Segurança virá com medidas adequadas

Sobre o medo de pais e professores em voltar à sala de aula enquanto não há vacina, Cecília considera que as pessoas se sentirão mais seguras se souberem que a decisão foi tomada seguindo os conselhos médicos, com os protocolos adequados e participação da sociedade civil.

"Quanto tiver estabilidade. A escola já estiver organizada com medidor de temperatura, entradas diferentes, metade da sala de aula, álcool-gel, máscara para os alunos, aí ela pode começar. É como quando vamos ao mercado, vai com luva, vai com máscara, passa álcool gel e vai."

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