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Bolsonaro vai à Argentina para reunião com Fernández, mas a tensão entre os dois pode aumentar

Primeira reunião presencial entre Bolsonaro e Fernández poderia supor o fim das diferenças políticas, mas pode gerar novas tensões - Marcos Corrêa/PR e Juan Mabromata - Pool/Getty Images
Primeira reunião presencial entre Bolsonaro e Fernández poderia supor o fim das diferenças políticas, mas pode gerar novas tensões Imagem: Marcos Corrêa/PR e Juan Mabromata - Pool/Getty Images

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

05/03/2021 07h28

Depois de 21 meses de farpas, ironias e ataques mútuos, os presidentes de Brasil e Argentina terão finalmente a sua primeira reunião bilateral presencial, apesar dos dois países serem sócios estratégicos e formarem o eixo da integração regional. O presidente Jair Bolsonaro confirmou que virá à Argentina em 26 de março, por ocasião dos 30 anos do Mercosul, bloco formado também por Uruguai e Paraguai.

"Vou estar agora... Está previsto, no dia 26 de março, estar em Buenos Aires, a nossa querida Argentina. Estaremos lá celebrando 30 anos da criação do Mercosul", anunciou o presidente, na noite desta quinta-feira, durante a sua transmissão ao vivo pelo Facebook.

Bolsonaro explicou que, no âmbito da celebração do bloco, terá um encontro reservado com o presidente argentino, Alberto Fernández.

"Será a primeira vez que vamos conversar com o presidente da Argentina. Logicamente, (caso) ele queira -e eu quero- uma conversa reservada (entre) nós dois num canto e, publicamente, vamos tratar das questões econômicas dos nossos países", acrescentou Bolsonaro, que também disse que "torce para a Argentina nas negociações com o FMI".

"A covid-19 causou dificuldades econômicas em todo o mundo. Nós torcemos para que a Argentina tenha sucesso nas suas negociações com o FMI porque a situação financeira da Argentina está bastante complicada. E o êxito econômico de países aqui na América do Sul, entre eles a Argentina, é interessante para todos nós da América do Sul, e o Brasil, obviamente, é um dos grandes interessados", sublinhou Bolsonaro.

O pedido de apoio do Brasil à Argentina nas negociações com o Fundo Monetário Internacional, conforme a RFI apurou, foi feito pelo embaixador argentino no Brasil, Daniel Scioli.

A reunião pelos 30 anos do Mercosul vai acontecer em Buenos Aires, apesar de se ter trabalhado com a possibilidade de Puerto Iguazú, na fronteira com o Brasil e com o Paraguai. Também vão participar os presidentes do Uruguai e do Paraguai, membros fundadores, e do Chile e Bolívia, membros associados.

Jair Bolsonaro destacou que um dos assuntos a serem abordados será a construção de um gasoduto para levar ao sul do Brasil o gás da reserva de Vaca Muerta, na Patagônia, uma das maiores do mundo.

Segundo a RFI apurou, outros temas a serem abordados são a cooperação na indústria naval, a compra argentina de tanques de combate brasileiros e a integração futura da rede de tecnologia 5G.

Novas diferenças à vista

Mas a primeira reunião presencial entre Bolsonaro e Fernández que poderia supor o fim das diferenças políticas pode, na verdade, ser o ponto de partida para uma tensão muito mais estrutural dentro do Mercosul.

O Brasil quer flexibilizar o bloco comercial para poder negociar, com mais dinamismo e de forma individual, acordos com outros blocos e países. Uruguai e Paraguai compartilham dessa posição. Porém, a Argentina se nega a flexibilizar as atuais regras do Mercosul que exigem decisões por consenso.

O Mercosul nasceu há 30 anos como Zona de Livre Comércio estabelecida pelo Tratado de Assunção. Porém, a União Alfandegária, estabelecida a partir de 1995, impõe que todos os países tenham a mesma Tarifa Externa para países de fora do bloco.

Outro ponto de discórdia entre Brasil e Argentina pode vir pelo lado do meio-ambiente. O presidente Alberto Fernández tem levantado a bandeira ambiental como um tema preponderante na agenda regional.

Nas videoconferências que realizou recentemente com os líderes de França, Emmanuel Macron, da Alemanha, Angela Merkel, e de Portugal, António Costa, que exerce a atual Presidência da União Europeia, Alberto Fernández destacou a defesa do meio-ambiente em clara oposição à postura do atual governo brasileiro.

O assunto foi também colocado por Alberto Fernández na videoconferência que manteve com Jair Bolsonaro no dia 30 de novembro passado, quando os dois presidentes mantiveram pela primeira vez um diálogo virtual. Bolsonaro, na ocasião, ignorou o assunto.

Guerra ideológica

Bolsonaro e Fernández representam pólos opostos em matéria ideológica. As profundas diferenças pessoais e políticas entre os dois começaram em junho de 2019, durante a campanha eleitoral argentina. Bolsonaro começou a fazer campanha a favor da reeleição do ex-presidente Mauricio Macri e alertou para o risco de Alberto Fernández transformar a Argentina em uma nova Venezuela.

No mês seguinte, Alberto Fernández visitou Lula da Silva na prisão e depois, em outubro, durante o seu discurso de vitória, pediu a liberdade de Lula, maior inimigo político de Bolsonaro.

"O Brasil votou no Bolsonaro, e esse é o seu direito, assim como o meu é defender o Lula. Por outro lado, Brasil e Argentina são sócios estratégicos e isso não deve mudar", alegou Fernández no mês passado, quando participou de uma videoconferência em comemoração pelos 41 anos do Partido dos Trabalhadores.

Na reunião virtual, o presidente argentino defendeu a inocência de Lula e disse "ter plena confiança" de que, em 2022, a esquerda vai vencer as eleições, "revertendo tudo o que está acontecendo no Brasil".

Bolsonaro nunca cumprimentou Fernández pela vitória nas urnas nem mesmo foi à sua posse em 10 de dezembro de 2019, rompendo uma tradição entre Brasil e Argentina cuja união tem sido a plataforma de inserção dos dois países no mundo.

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