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Quem é Otoniel, ex-guerrilheiro que se tornou o maior traficante colombiano desde Escobar

Líder do tráfico, Dairo Antonio Usuga, foi capturado no município de Necoclí, próximo da fronteira com o Panamá - Handout/Exército colombiano/AFP
Líder do tráfico, Dairo Antonio Usuga, foi capturado no município de Necoclí, próximo da fronteira com o Panamá Imagem: Handout/Exército colombiano/AFP

24/10/2021 09h14Atualizada em 24/10/2021 09h54

Dairo Antonio Úsuga, conhecido como "Otoniel", cuja captura foi anunciada neste sábado (23) na Colômbia, foi um camponês que passou de guerrilheiro da esquerda a paramilitar de extrema direita, antes de se consolidar como o chefe do narcotráfico mais procurado no país e pelos Estados Unidos. O presidente colombiano, Iván Duque, comparou sua detenção à queda de Pablo Escobar, o grande barão da cocaína, morto pela polícia colombiana em 1993.

"É o golpe mais duro desferido contra o narcotráfico neste século no nosso país", disse Duque, em uma declaração pública.

Imagens divulgadas pelo governo mostraram o homem de 50 anos, algemado e cercado por militares com armamento pesado. "Estávamos atrás dele há sete anos", detalhou o general Fernando Navarro, comandante das Forças Militares.

'Otoniel' lidera o Clã do Golfo, a principal quadrilha criminosa da Colômbia. Não era procurado apenas pelas autoridades locais: os Estados Unidos ofereciam até US$ 5 milhões por informações sobre seu paradeiro ou que permitissem sua captura.

Dairo nasceu em 15 de setembro de 1971 no município de Necoclí, em uma estratégica região do noroeste da Colômbia, muito próxima da fronteira com o Panamá, mas também do Pacífico e do Caribe. Foi de lá que ele passou a liderar o Clã do Golfo após a morte do seu irmão, Juan de Dios, "Giovanni", em confronto com a polícia em 2012.

Da extrema esquerda à extrema direita

O criminoso é o sétimo dos nove filhos de Ana Celsa David e Juan de Dios Úsuga, um casal que diz ganhar a vida com a venda de porcos, galinhas e gado no departamento de Antioquia (noroeste). Aos 18 anos, uniu-se ao Exército de Libertação Popular (EPL), uma guerrilha marxista desmobilizada em 1991. "Não era revolucionário, era o que tinha e foi embora com eles", contou sua mãe em uma entrevista ao jornal colombiano El Tiempo em 2015.

Úsuga não fez parte do processo de paz que pôs fim a 26 anos de luta armada deste grupo rebelde. Entre 1993 e 1994, uniu-se às Autodefesas Camponesas de Córdoba e Urabá (ACCU), uma organização paramilitar de extrema direita, criada para combater as guerrilhas e com ligações com o narcotráfico. "Era um camponês não muito ideologizado", afirmou à AFP o especialista em segurança Ariel Ávila.

A ACCU fez parte das Autodefesas Unidas da Colômbia, que se desmobilizaram em 2006 por iniciativa do governo de Álvaro Uribe (2002-2010). Mas, segundo o analista, "Otoniel" se sentiu "desapontado" com o processo de submissão à justiça e decidiu se manter na ilegalidade.

Rede espalhada pelo país

Dario Úsuga montou um aparato criminoso com a participação em quase 300 dos 1.102 municípios do país, principalmente no Pacífico, um local estratégico para o envio de cargas de drogas, segundo o centro de estudos independente Indepaz. "Ele tem um portfólio amplo de atividades criminosas, que incluem garimpo ilegal e a passagem de imigrantes para o Panamá", explicou Ávila.

Segundo o centro de investigação do crime organizado InSight Crime, o Clã do Golfo também atua na contratação de gangues de rua locais para realizar em seu nome atividades de microtráfico, extorsão e pistolagem.

O narcotraficante viajava sozinho, a pé ou em mula, e nunca dormia duas noites seguidas no mesmo lugar, relataram as autoridades colombianas. Nos últimos dias da perseguição, adentrou na mata virgem da região de Urabá, de onde é originário, e se desfez de seus telefones, substituindo-os por correios humanos.

A justiça americana o acusa de liderar uma organização "fortemente armada, extremamente violenta", que "usa a violência e a intimidação" para controlar as rotas do tráfico de drogas e laboratórios de processamento de cocaína.

Megaoperação de perseguição e captura

Para capturá-lo, a polícia colombiana antecipou "um trabalho por satélite contra ele com agências dos Estados Unidos e do Reino Unido", explicou o diretor da instituição, general Jorge Vargas. Cerca de 500 militares, apoiados por 22 helicópteros, participaram da operação, que resultou na morte de um policial.

Uma transmissão ao vivo da polícia nas redes sociais mostrou o momento do desembarque do narcotraficante em Bogotá, algemado e cercado por vários agentes. Ele foi levado para um edifício da instituição em meio a grandes medidas de segurança.

Nas últimas semanas, 'Otoniel' "não chegava a ter nenhuma casa, dormindo em condições de chuva sem se aproximar de residências", detalhou o diretor da polícia.

A queda do líder da maior quadrilha de traficantes da Colômbia é o principal êxito do governo do presidente conservador no combate ao crime organizado no país que mais exporta cocaína no mundo. "Sobre este delinquente há ordens de extradição e trabalharemos com as autoridades para cumprir também esta missão", antecipou o presidente.

Otoniel, denunciado pela justiça americana em 2009, é requisitado por tráfico de drogas pela corte do Distrito Sul de Nova York. Já o governo colombiano aponta o grupo dele como um dos responsáveis pela onda de violência que assola o país, a pior desde a assinatura de um acordo de paz com a guerrilha das Farc, em 2016.

Com informações da AFP

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