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China: Xi Jinping defende política do 'Covid zero' e aposta em terceiro mandato

O Presidente da China, Xi Jinping - Carlos Rawlins/Reuters
O Presidente da China, Xi Jinping Imagem: Carlos Rawlins/Reuters

06/05/2022 15h48

Stéphane Lagarde, correspondente da RFI em Pequim

O presidente chinês, Xi Jinping, defendeu publicamente nesta sexta-feira (6) sua política do "Covid zero", que visa impedir, usando medidas drásticas, a propagação do SARS-CoV-2 no país. A estratégia de Pequim, que associa lockdowns frequentes e campanhas massivas de teste, tem um custo extremamente elevado.

Esta é a segunda vez em menos de dois meses que Xi Jinping aborda o assunto. Em 17 de março, o presidente chinês reconheceu que a política de intolerância total com o vírus deveria ser adaptada para proteger a economia, mas, desta vez, ele mudou o discurso.

Apesar das reclamações dos habitantes de Xangai que estão em lockdown, o chefe de Estado não cedeu e pediu aos sete membros do comitê permanente do Politburo, a mais alta instância do Partido Comunista, que mantivessem as medidas apesar das críticas.

A estratégia chinesa "resistirá ao tempo", declarou o presidente à TV estatal. "Temos que manter a cabeça fria e aderir à política do 'Covid Zero'", reiterou. "Devemos lutar contra os discursos e os atos que deformam, questionam ou rejeitam as diretivas e a política de nosso país", acrescenta o comunicado citado pelo jornal China Morning Post.

Adotar uma estratégia que equivale a se "entregar" à ômicron, como fazem alguns países ocidentais, não é uma opção para a China, lembrou Liang Wannian, um dos representantes da política anti-epidêmica chinesa. As mídias estatais citam com frequências as "vidas salvas" graças à política chinesa. No país, segundo dados oficiais, a Covid-19 deixou menos de 5 mil mortos ? um número impossível de ser verificado.

Abandonar estratégia pode custar caro

De acordo com o epidemiologista Zhang Boli, deixar de lado essa política teria um custo muito alto. "A China deve manter sua estratégia "Covid zero" para preservar os resultados obtidos durante a epidemia", defendeu, em abril, o diretor da Comissão Nacional da Saúde, Ma Xiaowei. A política de lockdown adotada em Xangai é uma "batalha política para Xi Jinping", diz Alex Payette, especialista em política chinesa.

Renunciar a essa estratégia seria, para o chefe de Estado chinês, equivalente a perder a guerra contra o vírus, e correr o risco de não conseguir emendar um terceiro mandato, que ele tanto almeja. Por isso, as contas das redes sociais de médicos, epidemiologistas e economistas que ousam questionar as decisões de Xi Jinping em relação à Covid-19 foram censuradas.

Há um mês, os 25 milhões de habitantes de Xangai estão confinados. Os lockdowns penalizam a economia e caso a política de realização de testes a cada 48 horas se generalize por todo o país ? como já fazem algumas cidades ?, isso poderia custar à China até 2,3% de crescimento este ano, segundo o banco Nomura.

Moradores de Pequim voltam para home-office

Vários distritos de Pequim pediram aos moradores que trabalhem de casa nesta quinta-feira (5), no primeiro dia útil desde o feriado de 1º de maio, para evitar a propagação da Covid na capital da China. Os distritos de Chaoyang, o mais populoso de Pequim, com quase 3,5 milhões de moradores, e Tongzhou, solicitaram que os habitantes adotem o home-office após o feriado prolongado no país.

Apesar do número de contágios relativamente pequeno ? apenas 50 novos casos registrados em 24 horas ?, a capital chinesa segue a estratégia "Covid zero" e adotou várias restrições para conter as infecções. As autoridades fecharam dezenas de estações de metrô, proibiram comer dentro dos restaurantes e suspenderam as atividades nas academias.

Quarenta cidades na China estão aplicando confinamento total ou parcial, ou medidas de restrição aos deslocamentos. Além disso, metrópoles como Hangzhou ou Pequim ordenaram testes em larga escala da população. Algumas medidas, no entanto, estão sendo flexibilizadas. As autoridades anunciaram na quarta-feira a redução da quarentena para passageiros de voos internacionais de 21 para 10 dias em uma instalação do governo e sete dias em casa.

China perde atratividade

Na área econômica, a política de luta contra a Covid fez a China perder "grande parte da atratividade" para várias empresas europeias, afetadas pela ruptura nas cadeias de abastecimento e o freio na atividade econômica, afirma um estudo.

Os confinamentos em dezenas de cidades chinesas provocaram "grandes problemas", afirma um relatório da Câmara de Comércio da União Europeia na China. "A guerra (na Ucrânia) teve impacto nas empresas europeias presentes na China, mas a Covid-19 representa um desafio muito mais imediato e provocou uma queda considerável na confiança empresarial", acrescenta o estudo, que ouviu mais de 370 membros da Câmara no fim de abril.

Quase 25% das pessoas entrevistadas cogitam um deslocamento dos investimentos, em curso ou programados, da China para outros mercados, número que dobrou em dois meses. Quase 60% reduziram as previsões de faturamento para o ano. A maioria das empresas também registra impacto nas cadeias de suprimentos, com dificuldades na aquisição de matérias-primas e componentes, ou para receber produtos.

"O mercado chinês perdeu muito da sua atratividade para várias pessoas entrevistadas", destaca a Câmara de Comércio europeia. De acordo com dados independentes do grupo Caixin, a atividade do setor de serviços da China caiu em abril ao segundo pior nível no registro histórico.

(RFI e AFP)