Haiti vive uma situação de "pós-guerra", afirma militar brasileiro

Thiago Chaves-Scarelli
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Durante as três semanas seguintes ao terremoto de 12 de janeiro, o brigadeiro médico José Maria Lins Calheiros foi ao Haiti para comandar o hospital de campanha montado pelo Brasil na capital Porto Príncipe em caráter emergencial.

Seis meses depois, o militar relembra em entrevista exclusiva ao UOL Notícias como foi a experiência, e afirma que a situação atual do Haiti pode ser comparada à de um país que foi vítima de um ataque militar.

UOL Notícias: Como foi a decisão de enviar um hospital de campanha para o Haiti?

Brigadeiro Calheiros: Isso aconteceu rapidamente, em menos de 48 horas depois do terremoto.

UOL Notícias: E por que isso foi responsabilidade da Força Aérea?

Brigadeiro Calheiros: Cada força tem seu hospital de campanha, isso faz parte da doutrina de uma campanha de guerra real, e a FAB tem uma expertise já muito antiga nesse tema. Eu mesmo participei do terremoto de 1985 no México e 1986 em El Salvador, já com o hospital de campanha da Força Aérea. Aproveitando essa grande flexibilidade e mobilidade que a Força Aérea tem, a gente consegue chegar rapidamente no local e começar a intervenção.

UOL Notícias: Quais eram os casos mais frequentes tratados no hospital?

Brigadeiro Calheiros: As consequências dos traumas provocados pelo próprio terremoto. Um terremoto é como se fosse um bombardeamento, então você tem queda, desmoronamento das estruturas, edificações. Então a gente encontrou muito fratura exposta, esmagamento de membros, amputação traumática, lesões de trauma propriamente dito.

UOL Notícias: Que dificuldades vocês enfrentaram?

Brigadeiro Calheiros: A principal dificuldade foi na chegada. Primeiro a dificuldade de pousar em Porto Príncipe, ficamos em São Domingos esperando uma janela para pousar, o controle do aeroporto [no Haiti] estava sendo feito pelos americanos e inclusive ficamos circulando sobre Porto Príncipe mais de duas horas durante a noite até conseguir realmente pousar. Lá chegando, o hospital foi apoiado pelo batalhão do Exército que existe lá, que um batalhão da força de paz de ONU que é responsável pela segurança do Haiti, uma coisa que é de extrema importância lá.

UOL Notícias: O acampamento foi instalado próximo do batalhão?

Brigadeiro Calheiros: Foi do lado do batalhão. Era um terreno particular, que foi cedido, e onde fizemos adaptações com apoio da equipe de engenharia que está lá. O acampamento é montado rapidamente, em quatro ou cinco horas a gente já deixa ele praticamente operacional. Só que antes de montar, você precisa compactar o terreno, trazer água, instalar os geradores, o que demorou umas 24 horas. A água é muito importante, não posso começar nenhum procedimento médico sem ter água, e esse local era um terreno vazio, tivemos que montar toda a estrutura para o funcionamento do hospital.

E quando chegamos lá, já encontramos pessoas aguardando atendimento. Porque muitas pessoas, durante o evento, não sabiam o que fazer com as vítimas, não tinham onde deixar as vítimas, então deixavam na porta do batalhão, isso já do dia do terremoto, mesmo antes da nossa chegada. Eles avaliavam que tinha ali algum tipo de atendimento médico e deixavam as vítimas na porta, e o batalhão teve que começar a acolher esse pessoal, improvisando na garagem, colocando colchonetes, e começaram a fazer o atendimento clínico, porque não havia capacidade cirúrgica. Por isso quando nós chegamos já encontramos acima de 50 casos cirúrgicos, entre fraturas expostas, traumatismos, cirurgias de face. E começamos atendendo essas pessoal, por causa do risco que eles tinham, de infecção, por exemplo.

UOL Notícias: E como é o cotidiano em um hospital desse tipo?

Brigadeiro Calheiros: A gente se instala sempre próximo de um aeródromo, para poder fazer a evacuação do paciente logo depois do atendimento, do suporte inicial de vida, para transferi-lo para um hospital fixo, 48 ou 72 horas depois. Como eu dizia, o hospital de campanha é eminentemente cirúrgico e precisa ter um fluxo de evacuação grande, porque o número de leitos é restrito e se não houver fluxo, o centro cirúrgico tem que parar. Então a rotina é essa.

UOL Notícias: Quando se decidiu que o acampamento poderia ser desmontado?

Brigadeiro Calheiros: Rapidamente fiz minhas projeções de que em quatro semanas já não haveria mais atendimento relacionado diretamente com o terremoto. Mas devido à carência extrema de um país muito pobre como o Haiti, o hospital de campanha foi permanecendo [até final de maio], para dar um apoio às pessoas que ficaram desabrigadas, e com riscos de outras doenças, indiretamente relacionadas ao terremoto.

UOL Notícias: E seis meses depois, como está a situação no Haiti?

Brigadeiro Calheiros: A situação agora é de reconstrução. Foram muitos mortos, uma quantidade incalculável, já que o controle desse número lá é muito difícil, faltam certidões de nascimento, um quadro muito complicado. Então acho que a situação agora é uma situação pós-guerra, é como um país que foi bombardeado e precisa se reconstruir.

Seis meses depois, Haiti ainda sente efeitos do terremoto

 

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