Seis meses depois do terremoto, Haiti se prepara para tempestades e eleições

Thiago Chaves-Scarelli
Do UOL Notícias
Em São Paulo

No último dia 12 de janeiro, o país mais pobre do continente americano foi vítima de um terremoto de magnitude 7 na escala Richter, um tremor severo o bastante para atingir diretamente uma em cada quatro pessoas no país, entre mortos, feridos e desabrigados. Hoje, exatamente seis meses depois, centenas de milhares de haitianos ainda vivem em acampamentos provisórios, onde aguardam chegada da temporada de furacões, das eleições nacionais e das promessas de recomeço.

“Fizemos muito, mas há muito por ser feito aqui. Primeiro porque Haiti era muito frágil e muito pobre antes do terremoto. E também porque estamos nos aproximando do pico da temporada de furacões. De forma que precisamos trabalhar em duas frentes: temos que responder às emergências atuais – por exemplo, temos que redistribuir lonas para os acampamentos, porque elas estão se desgastando. Mas também temos que preparar as pessoas para a temporada dos furacões dos próximos meses”, diz Claire Doole, porta-voz da Federação Internacional da Cruz Vermelha no Haiti.

Seis meses depois, Haiti ainda sente efeitos do terremoto

“Na melhor das hipóteses, nenhum furacão atingiria o Haiti. Porto Príncipe é protegido por montanhas, nunca foi atingido por furacões, mas Gonaïve, no norte do país, é bastante vulnerável. De qualquer forma, o impacto na capital seriam as enchentes. Por isso, a pior hipótese seria que as enchentes causadas pelas tempestades provocassem epidemias nos acampamentos. Nos últimos seis meses, não houve surto de malária, diarreia, tifóide, essas doenças puderam ser controladas, mas poderiam ser favorecidas pelos alagamentos”, explica.

Eleições

Além da temporada de furacões, outro evento decisivo que se aproxima para os haitianos nos próximos meses são as eleições. Adiadas em função do terremoto, as votações para escolher o próximo presidente devem acontecer no dia 28 de novembro.

O coronel Rêgo Barros, comandante das tropas brasileiras que participam da missão de paz da ONU no Haiti (Minustah). explica que as tropas brasileiras estarão comprometidas com a garantia de segurança para a corrida eleitoral, e destaca que a as eleições têm extrema importância no cenário pós terremoto, inclusive para que os haitianos sintam que existe uma volta à normalidade, com participação e movimentação política no país.

O próprio secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, comemorou o agendamento das eleições para novembro como um marco na normalização do país.

Em uma mensagem encaminhada por seu porta-voz, Ban pediu que o Conselho Eleitoral Provisório e a classe política do Haiti garantam que a transparência e credibilidade das votações, e “reforcem as instituições democráticas do Haiti à medida em que o país luta para se recuperar da pior crise humanitária em sua história”.

Até 230 mil mortos

“Um inferno, um desespero permanente”, descreve o tenente jornalista Luiz Claudio Ferreira, que esteve no Haiti durante duas semanas após os tremores. “Todas as pessoas com as quais conversei tinham perdido alguém próximo no terremoto”.

O governo estima algo entre 217 mil e 230 mil o número de mortos no desastre. Não existem números consolidados, porque parte da população não tem nenhum tipo de documento, e centenas de corpos foram enterrados em valas coletivas, anônimas.

“Depois de um tempo, todo mundo que estava no Haiti se perguntava como isso pode ter acontecido”, acrescenta. “É um cenário de pesadelo. Quem foi até lá não vai esquecer nunca o que viu”.

Outras 300 mil pessoas ficaram feridas, milhares delas com amputações de partes do corpo em decorrência dos desabamentos. Nos dias seguintes ao terremoto, cerca de dois milhões de pessoas, de uma população nacional de 10 milhões, teve as casas completa ou parcialmente destruída pelos tremores.

“Até 15 ou 20 dias depois do terremoto, havia pessoas dormindo no meio da rua. Era complicado inclusive circular com carros militares de noite, você precisava se certificar de que não havia ninguém deitado naquela rua, porque eles tinham – e até hoje alguns ainda têm – medo de voltar para uma casa, ficar embaixo de um teto, por temor que esse teto caia sobre eles”, relembra o coronel Barros.

Depois que ficaram desalojadas, parte dessas pessoas deixou a capital, Porto Príncipe, para morar com parentes no interior do Haiti. Outra parcela abandonou o país, de alguma forma. Milhares delas, que não tinham a quem recorrer, ainda moram nos acampamentos coletivo mantidos por ONGs e pelas forças militares estrangeira em operação no Haiti. De acordo com as fontes consultadas pelo UOL Notícias, o número de desalojados morando em acampamentos hoje está entre 380 mil e 1,5 milhão.

Nestes locais, formados principalmente por um conjunto de tendas, a infraestrutura sanitária se resume a banheiros químicos e outras instalações provisórias. Em grande parte deles, a Cruz Vermelha fornece água potável. Na região da capital, parte dos mantimentos de primeira necessidade são fornecidos com apoio das tropas brasileiras na Minustah. 

Militares brasileiros no Haiti

Grande parte de Porto Príncipe, uma das regiões mais atingida pelos tremores, é responsabilidade das tropas brasileiras na divisão geográfica feita entre os corpos militares internacionais a serviço da ONU que atuam na estabilização do Haiti desde 2004.

O coronel Barros lembra que, um dia antes do terremoto, parte de seu batalhão desembarcou no Haiti, com a perspectiva de assegurar a realização das eleições que estavam agendadas para algumas semanas depois. Com os tremores – que causaram inclusive mortes entre o contingente brasileiro – os militares imediatamente assumiram outras responsabilidades, entre as quais o fornecimento de comida em caráter emergencial, além de água, barracas e medicamentos.

A partir de março, a ONU decidiu iniciar os chamados “projetos de impacto rápido”, entre os quais estão os chamados “cash for work”, os contratos de curto prazo para empregar cidadãos locais em tarefas como limpeza e remoção de entulho, com pagamento no final do dia, para estimular o renascimento das trocas monetárias para aquecer a economia.

Tais projetos, além de tarefas vinculadas à manutenção dos acampamentos, também têm apoio do Exército brasileiro em sua execução, de acordo com o coronel Barros. Porém, com a estabilização da situação pós-terremoto, a principal tarefa das tropas voltou a ser a missão original da Minustah no país, ou seja, a manutenção da segurança.

“Os desafios hoje, do ponto de vista de segurança, são os mesmos que nós tínhamos antes do terremoto. Ou seja, que a população tenha a percepção de que o ambiente está seguro, e consiga viver seu dia-a-dia, adquirir um emprego, desse emprego ganhar dinheiro, com esse dinheiro construir sua casa, comprar sua comida, esse é o grande objetivo para as tropas da ONU”, afirma o coronel Barros.

“Alguns supermercados e restaurantes já voltaram a funcionar. Em algumas regiões, já se nota falta de cimento e areia, o que é um indício do aquecimento da economia, existem paredes sendo levantadas no Haiti”, acrescenta. 

Avanços

Claire Doole também relata que houve avanços desde a situação crítica vivida logo após os tremores.

“Nos primeiros dias, as necessidades eram imensas. Havia milhares de casas destruídas, a Cruz Vermelha ofereceu primeiros socorros para milhões de pessoas. Seis meses depois, não existe ninguém nas ruas sem uma tenda ou uma lona para se abrigar”, compara Doole.

“Claro, não é de forma alguma ideal viver nessas condições, mas as pessoas hoje têm algum tipo de abrigo [nos acampamentos], há água corrente, há banheiros, não houve nenhuma epidemia, os remédios são fornecidos de graça, ou seja, houve conquistas”, relata a representante da Cruz Vermelha em Porto Príncipe, segundo a qual a ação no Haiti foi a maior resposta a um desastre natural já feita na história da instituição.

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