Debate político na Índia é contaminado por falsas imagens contra ativistas

Raghu Karnad*

Em Nova Déli (Índia)

  • Efe

    Narendra Modi (à dir.), premiê indiano, durante encontro com o primeiro-ministro do Paquistão, Nawaz Sharif

    Narendra Modi (à dir.), premiê indiano, durante encontro com o primeiro-ministro do Paquistão, Nawaz Sharif

Imagens distorcidas são usadas para incitar o ódio contra estudantes ativistas provocadores

Na noite de 20 de fevereiro, por volta de 20h40, enquanto o estudante universitário Kanhaiya Kumar era trancado na prisão de Tihar, acusado de insurreição, sua foto no perfil do Facebook era alterada. A nova imagem, que mostrava um grupo de soldados fincando uma bandeira sobre um morro devastado, parecia conhecida, exceto por um detalhe: em vez das estrelas e listras tremulando ao vento da foto original de Joe Rosenthal, de Iwo Jima em 1945, uma bandeira indiana esvoaçava com orgulho.

É provável que a conta de Kumar tenha sido invadida e sua foto substituída para indicar que o pensamento subversivo sempre será dominado por nacionalistas, como o foi aquele cume pelos valentes guerreiros.

A mesma foto modificada tinha sido exposta recentemente na TV em horário nobre por Sambit Patra, um porta-voz do partido governante, o Bharatiya Janata (BJP, na sigla em inglês). "Vejam nossos soldados indianos", ele declarou. "Soldados indianos morrendo, mas segurando a tricolor na fronteira."

O governo tem sido ágil no uso de imagens como munição política, sem dar importância à sua veracidade. O BJP conquistou sua maioria histórica em 2014 graças, em parte, à manipulação magistral da óptica. Narendra Modi, que se tornaria o primeiro-ministro, muitas vezes fez campanha por meio de hologramas e até ganhou um lugar no Livro dos Recordes Guinness pelo maior número de aparições virtuais. Mas em seu segundo ano no poder, com a mídia televisiva agindo como facilitadora, um BJP viciado em imagens corre o risco de perder o controle técnico e ético do que mostra ao país.

Durante algum tempo, a veiculação de visuais manipulados, geralmente enaltecendo Modi, não pareceram comprometer o governo propriamente dito. Em dezembro, o Departamento de Informação à Imprensa publicou uma fotografia do primeiro-ministro sentado à janela de um avião, observando a cidade inundada de Chennai. Na verdade, a vista da enchente tinha sido recortada e colada no lugar da janela. Os céticos perceberam, mas o público riu da manipulação relativamente inocente: a observação aérea de Modi era real, mesmo que a foto não fosse.

Mas poucas pessoas riram de uma gravação recém-transmitida na televisão nacional, que supostamente mostrava estudantes radicais entoando slogans separatistas na Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Déli. Em 12 de janeiro, a polícia acusou Kumar, o presidente da união estudantil, com base na lei de subversão da era colonial. As principais redes de notícias apoiaram o governo, criticando os estudantes e seus defensores "antinacionalistas". Imagens duvidosas de ativistas online alimentaram a histeria.

Uma foto divulgada por líderes estudantis de direita e partidários no Facebook e no Twitter mostrava Kumar discursando na frente de um mapa da Índia dividida, no qual os Estados de Caxemira e Gujarat tinham sido anexados ao Paquistão. Foi a ilustração perfeita de sua alta traição, exceto que havia sido modificada com o software Photoshop. Na foto original, não há nada atrás de Kumar além de um fundo neutro, possivelmente uma parede de lona.

Na semana seguinte ao protesto, as redes de notícias divulgaram repetidamente um vídeo que parecia captar Kumar gritando slogans pela independência da Caxemira e sustentariam a tese do Estado de que ele é pessoalmente culpado de discurso subversivo. Certa noite, no programa de debate político The Newshour, Patra, do BJP, mais uma vez sacou um iPad e anunciou: "Kanhaiya Kumar, naquele dia fatídico, também gritou slogans contra a Índia. Eu tenho o vídeo.". O apresentador pediu: "Mostre-o." A câmera se aproximou para o golpe final. Lá estava Kumar, em velocidade reduzida, pedindo "azadi", ou liberdade.

Agora parece que esse vídeo também foi uma fraude. Especialistas forenses disseram que ele junta áudio de slogans separatistas com imagens de um discurso feito por Kumar em que ele pedia a libertação da fome, do feudalismo, do capitalismo e das castas. Esta fraude foi contida, mas não antes que importantes jornalistas e um porta-voz do partido governante entrassem em cena. O espetáculo primeiro, as perguntas depois. O dano estava feito.

A Índia já teve inúmeras provas de que imagens enganosas podem ser usadas para envenenar o debate nacional e instigar a violência. Em 2012, um levante em Mumbai foi desencadeado em parte por imagens no Facebook que supostamente mostravam muçulmanos sendo chacinados no Estado de Assam. Afinal era um mosaico de cenas horríveis de toda a Ásia.

Agora, imagens distorcidas estão sendo usadas para incitar um frenesi de ódio contra ativistas estudantis.

Apagar uma foto manipulada é fácil, corrigir uma opinião manipulada não é. As imagens alteradas podem ser denunciadas, e o foram, mas cada uma deixa uma marca permanente na mente do público. Elas desgastam a confiança dos indianos no que o Estado e a mídia lhes apresentam. E nos afastam do terreno comum do fato confiável para as trincheiras opostas da convicção radical.

(*Raghu Karnad é editor-colaborador de theWire.in e autor de "Farthest Field: An Indian Story of the Second World War".)

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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