Para os cariocas, legado olímpico será viver com a água imunda por muitas décadas

Jules Boykoff*

No Rio de Janeiro

  • Ricardo Moraes/Reuters

Assim que eu saí do Aeroporto Internacional do Galeão, o mau cheiro me atingiu. Não o fedor da corrupção política --embora o Brasil tenha muito disso--, mas um cheiro ruim como um esgoto aberto.

E na verdade a baía de Guanabara é isso. Garrafas verdes de refrigerante, sacolas plásticas e carcaças de ratos flutuam na água marrom e viscosa. Por baixo há um coquetel tóxico de vírus e bactérias resistentes a medicamentos. Vários locais de eventos aquáticos da Olimpíada estão invadidos por esgotos: todos os dias, cerca de 639 milhões de litros de dejetos humanos não tratados fluem para a baía, onde ocorrerão as provas de vela e windsurfe.

Com o aproximar dos Jogos, tem-se dado atenção a como a água poluída pode afetar os atletas olímpicos. Isto não leva em conta o mal imposto diariamente aos moradores da cidade. Para os cariocas, a água é uma catástrofe de saúde em longo prazo.

Não precisava ser assim. O Rio se gaba de uma antiga história de ambientalismo e hospedou a Cúpula da Terra da ONU em 1992 e a conferência Rio+20 em 2012. A aposta olímpica da cidade elevou as expectativas do público, e os organizadores prometeram entregar grandes melhoras na qualidade do ar e da água.

Mas o abismo entre aspiração e realidade é enorme. Os documentos da proposta olímpica implicavam que mais de 80% do esgoto da baía de Guanabara seriam coletados e tratados até 2016. Mas as autoridades estaduais recentemente empurraram o prazo da limpeza para 2035. Um relatório investigativo da agência Associated Press e do virologista Fernando Spilki, da Universidade Feevale, no Rio Grande do Sul, descobriram que os locais aquáticos da Olimpíada estão muito contaminados. Ingerir apenas três colheres de chá dessa água significa uma probabilidade de 99% de infecção por vírus (mas devido aos níveis variados de imunidade na população nem todo mundo ficaria doente).

Os velejadores, nadadores e remadores estariam suscetíveis a "doenças respiratórias e digestivas, incluindo a exposição a diarreia e vômitos", o que poderia resultar em doenças agudas do cérebro e do coração, disse o relatório. Os atletas também enfrentariam o risco de contrair hepatite A.

Perguntei a Brad Brooks, o ex-chefe da sucursal da Associated Press no Rio, que nota ele daria aos esforços de limpeza da água. "Eu daria F", disse ele, sem hesitação. "O que está acontecendo aqui é um crime ambiental. E eles estão realizando a Olimpíada nele."

Esse crime afetará os cariocas muito depois que os heróis olímpicos deixarem a cidade. Ao contrário dos atletas que competirão na água com todo tipo de proteção de alta tecnologia disponível, os moradores da cidade usam essas águas diariamente sem tais salvaguardas.

As consequências são duras. Em curto prazo, problemas gastrointestinais, infecções de pele persistentes e até problemas cardíacos sérios são comuns. Os médicos nas favelas do Rio, ou dos bairros pobres, calculam que até 40% dos males de seus pacientes resultam do contato com esgoto não tratado.

O problema do subinvestimento em tratamento de água e esgoto é nacional: em todo o Brasil, aproximadamente dois terços das hospitalizações são atribuídas a doenças transmitidas pela água. Crianças pequenas são especialmente vulneráveis até que seus organismos desenvolvam anticorpos suficientes. A revista médica "The Lancet" relatou que para crianças brasileiras de menos de 5 anos a diarreia é a segunda principal causa de morte, matando mais crianças por dia que a Aids, a malária e a rubéola juntas.

Em longo prazo, as doenças crônicas induzidas pela água resultam em dias perdidos de escola, o que por sua vez faz os estudantes ficarem atrasados em sua educação e seu desenvolvimento intelectual. Um pesquisador sediado no Brasil relata que as crianças que crescem sem um sistema de esgoto adequado ganham cerca de 10% menos que seus pares de um ambiente socioeconômico semelhante que têm saneamento básico.

Depois há as "superbactérias", patógenos oportunistas que podem irromper como infecções no sangue, nos pulmões, intestinos e trato urinário. Segundo os CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA), essas bactérias resistentes a antibióticos podem levar à morte em até a metade dos casos de infecção. Até Ipanema e Leblon --duas das praias turísticas mais famosas do Rio-- deram positivo em testes de supermicróbios pelo menos na metade das vezes.

A Olimpíada deveria mudar tudo isso. E um programa chamado Morar Carioca deveria ser o meio para se alcançar essa mudança. O plano envolvia modernizar as favelas com sistemas de esgoto, água confiável, ruas pavimentadas e iluminação de rua melhor.

Eduardo Paes, o prefeito do Rio, que fala inglês e será a face política dos Jogos Olímpicos no mês que vem, inicialmente elogiou o programa. Em 2010, ele disse que graças à "inspiração olímpica", o Morar Carioca seria um legado chave dos Jogos. Em uma palestra TED, ele prometeu "urbanizar completamente" todas as favelas até 2020.

Mas depois que Paes foi reeleito em 2012 ele cancelou o compromisso do Morar Carioca de consultar as comunidades locais e inexplicavelmente anulou os contratos com firmas de arquitetura. Sem fundos, o programa cambaleia. Em 2014, Paes afirmou que o Morar Carioca nem sequer faz parte do legado olímpico, o que reforçou a opinião dos críticos de que seu antigo apoio ao projeto tinha sido apenas uma trama eleitoral.

Com a cerimônia de abertura dos Jogos do Rio daqui a poucos dias, é hora de reviver o espírito original, cooperativo, do plano Morar Carioca. Paes se gaba de que o Rio está em boa forma financeira, apesar dos gastos preparatórios para a Olimpíada, mas o Estado do Rio de Janeiro, que é responsável pela limpeza da água, declarou recentemente "estado de calamidade pública" na tentativa de extrair dinheiro do governo federal.

O prefeito chama o fracasso em limpar a baía de Guanabara de "uma oportunidade perdida". Mas se o legado da Olimpíada do Rio significar alguma coisa deve beneficiar o povo da cidade anfitriã, que fez grandes sacrifícios para encenar um luxuoso festival esportivo para os maiores atletas do mundo. O time da casa também merece uma vitória.

*Jules Boykoff, professor de ciência política na Universidade do Pacífico, é o autor, mais recentemente, de "Power Games: A Political History of the Olympics".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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