Opinião: O que Hillary e Merkel têm em comum?

Anna Sauerbrey

Em Berlim (Alemanha)

  • Frank Augstein/AP

    5.dez.2011 - A então secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton (esq), cumprimenta a chanceler (premiê) alemã, Angela Merkel, no Parlamento alemão

    5.dez.2011 - A então secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton (esq), cumprimenta a chanceler (premiê) alemã, Angela Merkel, no Parlamento alemão

Ambas são mulheres que abrem caminho na política mas não conseguem obter o respeito que merecem

Como alemã, acho que não é da minha conta, mas, mesmo assim, estou empolgada com Hillary Clinton. Como mulher, sinto que ela está lá também por mim. Se tudo correr bem, pela primeira vez na história, uma mulher, uma de nós, governará o mundo. Vamos, Hillary! Consiga o cargo por nós!

Mas aparentemente minha empolgação não é compartilhada por muitas de minhas contemporâneas, americanas ou alemãs. Com certeza, Hillary aumentou sua vantagem entre as mulheres eleitoras desde que se tornaram públicos os comentários sexistas de Donald J. Trump e as acusações contra ele de assédio sexual.

Mesmo assim, as pesquisas também mostram que falta um entusiasmo real. Muitas mulheres dizem nas pesquisas que é ótimo que uma mulher em breve será presidente, mas por que tem de ser essa mulher?

A reação delas me recorda 2005, quando Angela Merkel se tornou a primeira mulher chanceler da Alemanha. Após sua vitória eleitoral, expressões imaculadas de entusiasmo por parte das mulheres foram raras.

Alice Schwarzer, a feminista mais conhecida da Alemanha, foi basicamente a única a considerar o fato "um verdadeiro sinal para as mulheres na Alemanha", um momento histórico comparável a "uma pessoa negra na Casa Branca".

Acho que ela estava certa, mas muitas outras mulheres apontaram para o retrospecto ambíguo de Merkel como ministra das mulheres e da juventude nos anos 1990, sua falta de uma agenda feminista e sua postura "desapaixonada".

Essas críticas pareciam injustas. O que há de errado em ser uma mulher e fria e refletida? Mas não houve tempo para discutir isso, porque os alemães rapidamente passaram ao debate histérico sobre o fracasso do marido da nova chanceler em acompanhá-la em sua primeira viagem ao exterior e aos possíveis danos que a falta de uma primeira-dama (me perdoem, primeiro-cavalheiro) poderiam causar na política externa da Alemanha. (A primeira visita de Merkel foi ao presidente francês na época, Jacques Chirac, que, a propósito, beijou galantemente a mão dela, o que também desconcertou algumas pessoas.)

Há dois motivos para essa falta de entusiasmo e se aplicam tanto a Merkel quanto a Hillary Clinton. Muitas mulheres ainda sentem que mulheres poderosas de alguma forma não são "uma de nós".

Merkel ascendeu ao poder superando os homens ao seu redor. Ela assumiu o comando da União Democrata Cristã ao marginalizar seu mentor, o ex-chanceler Helmut Kohl (que costumava chamá-la de "mein Mädchen", minha garota). Em 2005, ela derrotou o macho chanceler Gerhard Schroeder, um homem conhecido por considerar a emancipação das mulheres como "Gedöns", baboseiras.

Merkel o fez aplicando sua habitual inteligência política assim como o velho maquiavelismo, que levou uma autora de políticas do Partido Verde a reclamar, após a primeira eleição de Merkel, que a nova chanceler era "o melhor homem dos democratas cristãos".

A decepção com Angela Merkel e Hillary Clinton ecoa aquela estranha ideia dos primórdios do feminismo, a de que se mulheres governassem, sendo aquelas que dão à luz e portanto naturalmente boas e protetoras, o mundo seria um lugar melhor e diferente.

A forma como as mulheres foram criadas, mesmo na minha geração, instila em nós uma desconfiança da ação estratégica. Nós achamos que precisamos ser sempre "autênticas", nossas ações estejam em união com nossos corações o tempo todo, e que o destino nos tratará com justiça se assim formos.

Mas vamos superar isso. É hora de percebermos que as Merkels e Hillarys do mundo realmente são "uma de nós" e que muitas de nós poderiam ser elas.

O segundo motivo para nosso fracasso em abraçar o momento é nossa deprimente falta de solidariedade.

Nos últimos meses, Berlim foi sacudida por um escândalo no partido de Merkel. Uma mulher jovem, representante de um dos conselhos distritais de Berlim, publicou uma carta aberta na qual descrevia o sexismo que enfrentou durante sua breve carreira política, sendo chamada de "camundonga bonitinha" por um senador de Berlim e tendo que suportar fofoca constante a respeito de com quem ela estaria dormindo para poder avançar.

Apesar de ninguém ter contestado os fatos básicos de seu relato, não demorou muito para ser questionada sua motivação e caráter, principalmente por outras mulheres. Como resultado, perdemos a oportunidade de ter uma verdadeira conversa sobre ser uma mulher na política alemã.

A solidariedade feminina é frágil, na melhor hipótese. Isso não significa que nunca cooperamos. Há muitas redes femininas na política e nos negócios na Alemanha, principalmente em Berlim, e foram importantes, por exemplo, no estabelecimento de cotas obrigatórias de mulheres nos conselhos diretores de grandes empresas de capital aberto.

Mas com frequência carecemos de uma verdadeira lealdade no campo de batalha político umas com as outras, a causa comum que supera as rivalidades mesquinhas, os ciúmes e desacordos. É o destino que recai sobre as gerações que surgem nas fases posteriores de uma revolução. Há uma falsa sensação de que podemos nos dar ao luxo de nos dividirmos.

As restrições que acompanham ser uma mulher parecem menos existenciais hoje do que quando Hillary Clinton e Angela Merkel eram jovens. Mas ainda há muito o que fazer, de remuneração igual a verdadeira escolha, e persiste o risco de retrocesso.

E Merkel fez a diferença. Apesar de ter sido inteligente em não concorrer com uma agenda feminista (o partido dela já tinha dificuldade o bastante em aceitar uma mulher; uma feminista teria feito os conservadores saírem correndo), ela apoiou várias ministras feministas com fortes agendas feministas ao longo dos anos, e seus gabinetes promoveram importantes mudanças nas políticas para mulheres e homens, como melhorias na licença maternidade e paternidade.

É ainda mais importante reconhecermos e entendermos os momentos de vitória que nos unem e celebrar grandes líderes. Assim, se nada der errado em 8 de novembro, estourem champanhe, irmãs, e demonstrem algum orgulho!

*Anna Sauerbrey é editora da página de opinião do jornal "Der Tagesspiegel"
 

De primeira-dama às urnas: veja trajetória política de Hillary Clinton

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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