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Perto de deixar secretaria no RJ, Beltrame diz que paz não é UPP

O secretário José Mariano Beltrame - Carlos Moraes - 30.nov.2014/Ag. O Dia/Estadão Conteúdo
O secretário José Mariano Beltrame Imagem: Carlos Moraes - 30.nov.2014/Ag. O Dia/Estadão Conteúdo

Do UOL, em São Paulo

14/10/2016 17h07

Prestes a deixar o cargo, o secretário estadual de segurança do Rio, José Mariano Beltrame, contestou nesta sexta-feira (14) a ideia de que a implantação de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) é suficiente para resolver a questão da violência no Estado.

“Paz não é UPP”, afirmou em entrevista ao programa “Estúdio i”, da GloboNews. “Essa história de que a polícia pacificadora vai trazer a paz é um entendimento muito primário.”

As UPPs são um símbolo da gestão de Beltrame. Elas começaram a ser implantadas a partir de 2008 e hoje são 38 no Estado. No entanto, com o governo do Estado do Rio de Janeiro em crise financeira, desde 2014 nenhuma UPP foi inaugurada -- apesar de o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) ter prometido, em sua campanha para a reeleição, que 50 novas UPPs seriam instaladas. 

Segundo Beltrame, a maioria da população das favelas com UPPs aprova o programa. O secretário voltou a criticar o poder público por não ter entrado nas favelas com unidades de pacificação para executar medidas além das de segurança pública. Para ele, faltou “vontade”.

“O que a UPP fez foi desafiar o Estado e mostrar lugares onde há uma série de problemas de cidadania. A verdade é que hoje a Polícia Militar e a Polícia Civil se veem remando sozinhas”, disse o secretário. “Por que não bota esgoto na [favela da] Rocinha? Por que você não limita o crescimento desordenado?”

O secretário deixa o cargo na segunda (17) após quase dez anos à frente da segurança no Estado. O substituto será Roberto Sá, atual subsecretário de Planejamento e Integração Operacional.

‘O Paraguai é deles’, diz Beltrame sobre facções

Beltrame também demonstrou insatisfação com decisões do Poder Judiciário e disse que um bandido da favela Pavão-Pavãozinho, na zona sul -- onde houve intenso tiroteio na segunda (10) -- foi preso e recebeu indulto recentemente para visitar a mãe, o que permitiu que os criminosos da comunidade se mobilizassem para contrabandear armas importadas.

Segundo o secretário, seu trabalho à frente da secretaria não teve como foco o combate às drogas, mas o combate às armas. Para Beltrame, a legalização de drogas deve ocorrer se contribuir para conter o uso de armamento por criminosos.

“Nosso foco nunca era a droga. A nossa questão são as armas”, disse. “Se a gente descriminalizar ou liberar drogas, isso vai debelar armas? Se debelar, OK.”

De acordo com Beltrame, atualmente as facções criminosas não têm mais intermediários para o contrabando de armas.

“O Comando Vermelho e o PCC [Primeiro Comando da Capital], o Paraguai é deles hoje, principalmente a fronteira. Hoje, não tem intermediários. É brasileiro trazendo do Paraguai armas para São Paulo e Rio.”

Crise e legado

O secretário ainda negou ter tomado a decisão de deixar o governo devido à crise financeira vivida pelo Estado do Rio, onde os salários para policiais e demais servidores estaduais têm sofrido constantes atrasos. Beltrame disse que sua saída já estava “predeterminada, mas sem dúvida a crise cansa”, e afirmou que não pretende entrar para a política.

“Eu queria ter deixado um Rio de Janeiro melhor do que está, mas sem dúvida está infinitamente melhor do que há dez anos”, afirmou. “A segurança pública é um jogo que você nunca vai ganhar. Você vai mitigar e trazer índices de criminalidade para baixo. Agora, essa é uma luta invencível.”