Após 40 anos, revolução continua a provocar sentimentos desencontrados

Adrián Espallargas.

Lisboa, 23 abr (EFE).- Liberdade, oportunidade perdida ou processo fracassado são alguns dos termos usados pelos portugueses para definir a Revolução dos Cravos, o golpe militar que acabou com a ditadura e que, 40 anos depois, continua sem deixar ninguém indiferente.

Naquele 25 de abril de 1974, um grupo de militares se rebelou contra o regime, um marco incontestável que, apesar de ter sido essencial para a chegada da democracia, desperta opiniões e sentimentos desencontrados entre os cidadãos do país.

"O golpe de Estado tinha como objetivo acabar com a Guerra colonial na África e não foi para trazer a democracia, como pensam muitos", argumentou o analista político e escritor Sant'Ana de Castro, que assina sob pseudônimo, em entrevista à Agência Efe

De Castro, de 77 anos e professor universitário durante mais de quatro décadas, considera o movimento como uma revolução "fracassada", porque não foi seguida de uma revolução cultural que permitisse aflorar o "livre pensamento".

Para o analista político, o maior problema do Portugal nascido da revolução é que, apesar de o país ter conseguido liberdade de expressão, seus dirigentes não escutaram as opiniões do povo.

"Antes, não se podia expressar com liberdade, e agora podemos falar e dizer o que quisermos, mas ninguém nos escuta", lamentou De Castro, que vê nos anos posteriores ao 25 de abril uma oportunidade "perdida" para fazer o país prosperar.

Para outros portugueses, a data é motivo de orgulho, porque marcou o começo da participação da sociedade civil na política, ganhos em liberdade e melhora nas condições de vida em Portugal.

É o caso de Isabel, uma lisboeta de 57 anos que, após a Revolução dos Cravos, se alistou imediatamente no Partido Socialista, dirigido então pelo histórico político Mário Soares e que ganhou as primeiras eleições democráticas em 1976.

"Fui educada em uma sociedade na qual não se podia falar nem dizer o que realmente se queria", afirmou a portuguesa, que ainda lembra como nos anos da ditadura seu tio e seu pai ouviam clandestinamente a comunista "Rádio Moscou".

Quando olha para trás, Isabel lembra com emoção o movimento de abril porque acredita que mudou a mentalidade dos portugueses e permitiu a plena integração do país à União Europeia (UE).

"Os militares fizeram muito bem porque acabaram com a ditadura, mas não gostei do que aconteceu nos dois anos seguintes", comentou o taxista Francisco Manuel, de 56 anos, que trabalha em Lisboa.

Ele se refere a dois dos eventos mais controversos da história recente do país: a descolonização dos territórios de ultramar (principalmente Angola e Moçambique) e a invasão de campos e de fábricas por simpatizantes do Partido Comunista entre os anos de 1974 e 1975.

"Acho que as coisas podiam ter sido melhor feitas porque há muitas pessoas que em poucos dias perderam tudo para os comunistas", declarou Manuel.

"A maioria dos jovens não compartilhamos a versão oficial de que os coroneis nos presentearam a democracia, não acreditamos nisso", disse Tiago, um jovem de 24 anos que estudou História da Arte e que há dois anos vive na Suíça.

Quando fala sobre o 25 de abril, ele sente uma mistura de sensações. Por um lado, tem orgulho do fim da ditadura e do começo dos movimentos de participação popular, por outro, desencanto porque, segundo afirmou, o Portugal de hoje é consequência do que o que ocorreu em 1974.

Com uma elevada taxa de desemprego entre os jovens e baixos salários, muitos portugueses com menos de 30 anos veem na popular Revolução dos Cravos "a causa" de todos os males que sofrem hoje em dia.

"Foi uma oportunidade de mudar as coisas, e as pessoas da minha geração acreditam menos na democracia representativa do que a geração dos meus pais. Consequência da crise econômica, suponho", alegou.

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