Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
A vida imita a arte: 'The Boys' e a intolerância política no Brasil
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Este artigo contém um spoiler de "The Boys". Mas, sobretudo, serve como reflexão sobre o momento de violência política que o Brasil vem enfrentando. Aliás, se você acompanha a série, esse spoiler não é, de modo algum, inesperado. Pelo contrário: ele é previsível. E isso explica muito sobre a previsibilidade dos fatos recentes de nosso país.
No último episódio da terceira temporada, Homelander (Capitão Pátria, na versão brasileira) assassina, na frente de uma multidão de apoiadores, um militante político de oposição pelo simples fato de ter criticado seu modo de pensar. Curiosamente, as pessoas que estavam no comício, em vez de repreenderem a postura do líder, vibram e batem palmas, como se o time de futebol do coração tivesse marcado um gol.
O assassinato foi o ato final de uma temporada embalada pela polarização, pela desinformação e pelo negacionismo. Portanto, o contexto foi crucial para que o assassinato fosse aclamado. Mas que contexto é esse em que vivemos que legitima a morte daquele que pensa diferente?
Em uma daquelas situações em que a vida imita a arte, dias após a transmissão do último episódio da série no Brasil, um militante da ala conservadora assassinou Marcelo Arruda, tesoureiro do Partido dos Trabalhadores. Naquela mesma semana, outros episódios de violência política vieram à tona.
Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores do livro "Como as democracias morrem", defendem que alguma polarização é saudável para a democracia. Quando as sociedades se dividem tão profundamente, com grupos apresentando visões políticas excludentes, porém, as rivalidades partidárias dão lugar a percepções de ameaça mútua. Assim, o outro deixa de ser visto como alguém diferente e passa a ser encarado como alguém que deve ser eliminado.
Portanto, o contexto que legitima a morte do opositor político é aquele em que o debate de ideias é minado gradativamente, deixando de lado a preocupação com o verdadeiro espírito democrático.
A solução para o que se enfrenta, na realidade e na ficção, é o resgate da crença na tolerância mútua e na dignidade intrínseca a cada um de nós. Democracia pressupõe não apenas eleições periódicas e justas, mas também — e talvez principalmente — o respeito ao outro.
* Anna Paula Mendes é professora de pós-graduação em Direito Eleitoral do IDP e da UERJ. É autora do livro 'O abuso do poder no direito eleitoral: uma necessária revisitação ao instituto' e membro da Abradep (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político).
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