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Alberto Bombig

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

PSDB escolhe Tebet e coloca questão moral para a senadora: ser ou não ser?

A senadora Simone Tebet, pré-candidata a presidente pelo MDB - Reprodução
A senadora Simone Tebet, pré-candidata a presidente pelo MDB Imagem: Reprodução
Alberto Bombig

Alberto Bombig é jornalista com passagens pela Folha de S. Paulo, revista Época e O Estado de S. Paulo.

Colunista do UOL

20/05/2022 10h07Atualizada em 20/05/2022 10h50

A escolha do candidato da chamada terceira via se transformou em um drama shakespeariano digno de vilões como Ricardo III, o rei sem escrúpulos. Nessa trama que se desenrola aos olhos dos eleitores e nos bastidores da política, a senadora Simone Tebet (MDB-MS) está diante de um enorme desafio, talvez o maior de sua bem sucedida carreira pública até aqui: aceitará ou não disputar o Planalto representando um partido, o PSDB, que não respeitou o resultado de suas prévias e jogou ao mar seu pré-candidato, João Doria, antes mesmo de ele ter começado a viajar pelo País em busca de apoios e de reconhecimento?

Se a resposta for "sim", como tudo leva a crer que será, é evidente que Simone Tebet jamais poderá reclamar se, no futuro, for ela própria a abandonada pelo PSDB. Mas há, antes de tudo, uma questão moral. Se aceitar, ela será candidata ao Planalto beneficiada por um processo repleto de rasteiras e puxadas de tapete, uma síntese do que há de mais ardiloso na política, universo tão bem retratado nas peças históricas e nas tragédias de William Shakespeare. Como ensina a obra do dramaturgo inglês, os meios para se atingir um fim quase sempre acabam determinando o próprio fim.

Não se trata de discutir a legitimidade ou não da pré-candidatura de João Doria. Há bons argumentos para todos os lados nessa questão. Também não se trata de investigar se Simone Tebet está diretamente envolvida nas conspirações e maquinações da terceira via. Há tantos personagens maquiavélicos e tantas raposas atuando nesse enredo que, muito provavelmente, a senadora esteja, conscientemente, sendo mantida e mantendo-se à distância dele. Em outras palavras, não cabem especulações sobre a moral da pré-candidata, mas, sim, sobre a moralidade das articulações.

Ou seja, o que está em jogo é a natureza das relações estabelecidas dentro do grupo, formado por tucanos, pelo MDB e pelo Cidadania. Nesse sentido, é evidente que elas ainda não são sólidas para escorar um projeto presidencial capaz de confrontar Jair Bolsonaro (PL) ou Lula (PT). É evidente também que essa relação, ao menos por ora, está desprovida da "pureza de intenções" que esse grupo se arvora quando ataca os dois líderes das pesquisas.

Em outros termos, haverá união em torno de uma eventual candidatura de Simone Tebet? Ou, antes disso, haverá a candidatura Simone Tebet? Quem garante que a senadora não será rifada em junho ou julho, a exemplo do que está sendo feito com Doria? Haverá argumentos suficientes para convencer o eleitor de que todos os ardis dos vilões shakespearianos da terceira via foram empregados contra Doria apenas pelo bem do Brasil? Que uma eventual candidatura Tebet é legítima e natural do ponto de vista da ética na política?

Simone Tebet sempre contou com o apoio irrestrito da direção do MDB, diferentemente da situação de Doria no PSDB. A senadora esteve muito próxima da União Brasil, como mostrou a coluna. Teve tudo na mão para deixar os tucanos de lado e seguir seu rumo. Mas trocou a segurança dessa candidatura pelos acenos dos tucanos e seus simpatizantes na sociedade civil, talvez seduzida pelo que ainda resta de glamouroso na decadência do PSDB, como jantares com banqueiros e economistas.

Agora, a jovem senadora pode estar diante do maior dos dilemas shakespearianos, a pergunta imortal feita pelo príncipe Hamlet na peça que leva o dele: ser ou não ser? Para quem não conhece ou não tem familiaridade com o texto imortal, Hamlet, imbuído das melhores intenções, escolheu o caminho da ação. Promoveu uma carnificina no Reino da Dinamarca.

Talvez ainda haja tempo de construir uma saída que não deixe uma impressão de "carnificina" na terceira via. Para isso, será necessária uma explicação clara e direta dos motivos para a troca de um nome com 4% ou 3% nas pesquisas por outro com 2% ou 3%. Sem ela, como ensina a obra do dramaturgo inglês, os meios para se atingir um fim quase sempre acabam determinando o próprio fim. Eis a questão para Simone Tebet.