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Amaury Ribeiro Jr

Pai alcoólatra, sonho de ser promotor: a vida de Adélio segundo o próprio

Adelio Bispo de Oliveira tem obsessão com a maçonaria, e relatou sua infância a psiquiatras na prisão em Campo Grande. Na foto, ele participa de protesto contra o então presidente Temer - Reprodução
Adelio Bispo de Oliveira tem obsessão com a maçonaria, e relatou sua infância a psiquiatras na prisão em Campo Grande. Na foto, ele participa de protesto contra o então presidente Temer Imagem: Reprodução
Amaury Ribeiro Jr

Natural de Londrina (PR), Amaury Ribeiro Jr é jornalista, escritor e compositor. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, trabalhou como repórter especial dos jornais O Globo, JB, Correio Brazilense. Trabalhou também como editor da revista IstoÉ e produtor executivo da Rede Record. Em trinta anos, ganhou os principais prêmios de jornalismo: Esso (três), Embratel (dois), Líbero Badaró (dois), Vladimir Herzog (quatro), Rei da Espanha entre outros. É autor dos livros "Privataria Tucana", "O Lado Sujo do Futebol" (junto om Luiz Carlos Azenha e Leandro Cipoloni) e "Poderosos Pedófilos".

13/11/2020 04h03

Adélio Bispo, o homem que tentou matar Jair Bolsonaro com uma facada, sonhava em ser promotor de Justiça. Ao menos foi o que afirmou a psiquiatras que o avaliaram na prisão federal de Campo Grande, segundo documentação obtida pelo UOL.

Os médicos assinam o laudo psiquiátrico forense que atesta que o detento sofre de uma doença mental denominada Transtorno Delirante Permanente (paranoia acentuada).

Segundo os psiquiatras, Adélio em nenhum momento demonstrou arrependimento por ter esfaqueado, no dia 6 de setembro de 2018, o então candidato do PSL a presidente em uma rua no centro de Juiz de Fora (MG).

Na mesma conversa, ele demonstra delírios relacionados à maçonaria e conta também o que seriam detalhes de sua infância e juventude.

O detento contou aos peritos que era muito apegado à mãe. Ela morreu quando ele tinha 13 anos.

Ele afirma que sofreu muito na infância. De acordo com o relato de Adélio, o pai era alcoólatra e "maltratava muito da mãe".

"Achei ruim a morte dela, mas me conformei porque estava sofrendo muito", disse.

Órfão aos 26

A exemplo de outras crianças pobres da região de Montes Claros, no norte de Minas Gerais, Adélio começou a trabalhar como auxiliar e vendedor de picolé aos oitos anos de idade.

Entrou na escola e completou o primeiro grau sem repetência.

Com a morte da mãe, a vida do menino mudou para muito pior. O pai, que trabalhava como gari na prefeitura de Montes Claros, passou a levar mulheres, "todas alcoólatras", para casa, segundo o depoimento ao qual a coluna teve acesso.

O pai morreu 13 anos depois de um infarto fulminante, quando Adélio tinha 26 anos. Apesar de estar morando em uma cidade próxima, Adélio não compareceu ao enterro.

Mais de 30 empregos

Aos 18 de idade, abandonou a casa e partiu junto com um grupo de amigos para vender livros em Santa Catarina. "A sua história a partir daí segue sem afeto. Vende livro, trabalha, sem citar amigos", diz o laudo psiquiátrico.

Depois de concluir o ensino médio no estado, Adélio pretendia fazer o curso de direito e realizar seu grande sonho: se tornar promotor ou procurador de Justiça. "Mas não tive dinheiro para pagar o curso", alegou.

Os psiquiatras ficaram impressionados com a grande quantidade de empregos que Adélio teve ao longo da vida — mais de 30 — nas mais variadas áreas: auxiliar de pedreiro, garçom, auxiliar de telemarketing, vendedor de livros, entre outros.

"Mudava de empregos porque não concordava com o sistema", argumentou Adélio.

"Pedia demissão por se sentir inferiorizado", avaliam os psiquiatras.

Adélio Bispo logo após ser detido ao tentar matar o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro, em Juiz de Fora (MG), em 6 de setembro de 2018 - Guilherme Leite/Folhapress - Guilherme Leite/Folhapress
Adélio Bispo logo após ser detido ao tentar matar o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro, em Juiz de Fora (MG), em 6 de setembro de 2018
Imagem: Guilherme Leite/Folhapress

Maçonaria, uma obsessão

O laudo psiquiátrico forense destaca o interesse de Adélio sobre a maçonaria, algo que parece nutrir sua paranoia. Passou a estudar também numerologia, que faria parte do "dogma maçom".

Visões sobre a maçonaria marcaram os dias anteriores à tentativa do assassinato de Bolsonaro em Juiz de Fora (MG).

Em seu depoimento, Adélio afirmou que via símbolos maçons em prédios perto do hotel onde o candidato estava hospedado. Por exemplo, os arcos laterais em branco da logomarca do banco Bradesco, na visão do detento, simbolizam os dois aviões que derrubaram as torres gêmeas, do World Trade Center no atentado terrorista em Nova York em 2001. Para Adélio, os bancos são ligados à maçonaria.

Os peritos avaliaram que a doença de Adélio, que tem uma raiz genética, foi piorando aos poucos a partir dos 20 anos de idade, quando passou a ter alucinações auditivas.

"Essa alucinações, de cunho místico-religioso, exerceram influência na formação de ideias, pensamento e interpretações delirantes, os quais foram se estruturando e modificando o comportamento e o contexto de vida do periciado até atingir seu ápice no momento do delito", avaliam os psiquiatras, sendo o "delito" o atentado ao hoje presidente da República.

Para os peritos, um complexo de inferioridade, provocado por traumas na infância, faz com que Adélio tente sempre estar no foco das atenções e busque a constante glória, o que lhe garante um sentimento de superioridade.

"O ato em si da facada no meio da multidão seria visto por todos, [ele] seria preso, mas lhe daria glória", diz o laudo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.