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Amaury Ribeiro Jr

Casa dos Anjos: esquema com menores tem esportista e empresário suspeitos

Fachada do endereço da Loucos por Aventura, empresa de Rodrigo Fiuza, preso em ação contra "Casa dos Anjos", local onde a polícia suspeita que houvesse exploração sexual de menores - Reprodução/Google Street View
Fachada do endereço da Loucos por Aventura, empresa de Rodrigo Fiuza, preso em ação contra "Casa dos Anjos", local onde a polícia suspeita que houvesse exploração sexual de menores Imagem: Reprodução/Google Street View
Amaury Ribeiro Jr

Natural de Londrina (PR), Amaury Ribeiro Jr é jornalista, escritor e compositor. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, trabalhou como repórter especial dos jornais O Globo, JB, Correio Brazilense. Trabalhou também como editor da revista IstoÉ e produtor executivo da Rede Record. Em trinta anos, ganhou os principais prêmios de jornalismo: Esso (três), Embratel (dois), Líbero Badaró (dois), Vladimir Herzog (quatro), Rei da Espanha entre outros. É autor dos livros "Privataria Tucana", "O Lado Sujo do Futebol" (junto om Luiz Carlos Azenha e Leandro Cipoloni) e "Poderosos Pedófilos".

11/12/2020 04h04

O atleta e influenciador digital Rodrigo Fiuza, 43, conhecido por ter percorrido 62 países e quatro continentes com sua moto (o que lhe valeu dois recordes mundiais), foi preso pela Polícia Civil com outras duas pessoas, todos suspeitos de fazer parte de uma organização que explorava menores sexualmente em uma casa no Bairro Pampulha, em Belo Horizonte.

Candidato derrotado nas eleições deste ano para o cargo de vereador pelo PSB, Fiuza foi preso no último dia 18. Os detidos pela polícia estão em prisão temporária.

O UOL tentou contato com Fiuza por telefone e pessoalmente no endereço informado pelo site da empresa dele. Mas, segundo o porteiro, a empresa não funcionava no local. A polícia, sob o argumento de que o inquérito corre sob sigilo, também não informou o contato do advogado do esportista.

No final da semana passada, a polícia prendeu um quarto suspeito: Leonardo Rodrigues Zambrana, genro do desembargador aposentado e advogado em Belo Horizonte, Irmar Ferreira Campos.

A exemplo de Rodrigo, Zambrana é suspeito de aliciar adolescentes, por meio de L.S., 20, que também está presa. Por não ter feito contato com a defesa de L.S., a reportagem optou por omitir seu nome.

O UOL chegou ao nome de Rodrigo por meio de familiares das vítimas e de movimentos ativistas feministas.

Mãe de vítima viu foto da filha e acionou a polícia

Chamado de "Casa dos Anjos", o endereço na Pampulha é investigado pela polícia como central do suposto esquema de exploração sexual.

As investigações da delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente da Polícia Civil de Belo Horizonte apontam que durante a pandemia Fiuza alugou uma casa na rua Xangrilá no Bairro Pampulha, com a logomarca de sua agência, Loucos por Aventura. Nesse local, meninas de 13 a 15 anos teriam sido drogadas e aliciadas para fazer sexo com empresários e outros moradores da cidade.

Segundo as investigações e parentes das vítimas, as meninas eram fotografadas nuas e o material pornográfico, explorado em sites na internet.
O fotógrafo que registrava essas cenas, cujo nome está sendo mantido em sigilo, também está sob investigação. Uma das fotos foi acessada pela mãe de uma das vítimas, uma menina de 13 anos, que denunciou o caso à Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente de BH.

Viagens em troca de sexo com menores

Pelos menos outras 13 adolescentes teriam relações sexuais em troca de dinheiro ou viagens oferecidas pela agência de Fiuza. Uma delas, uma menina de 14 anos, acaba de ter um filho, apurou a coluna.

No escritório onde Zambrana trabalhava no bairro Nova Granada, a polícia encontrou grande quantidade de material pornográfico. "São fotos horríveis", disse a advogada Renata Ribeiro em entrevista coletiva em que o nome de nenhum preso foi divulgado. Mas, como estava foragido, o nome e a foto de Zambrana tornaram-se públicos em cartaz em que ele aparece como procurado pela lei.

"Eu não sabia que isso era crime", afirma vítima

A quebra de sigilo telefônico das vítimas permitiu à polícia chegar ao nome de Zambrana, de um outro influenciador preso, cujo nome ainda não foi divulgado, e de clientes das festas promovidas por Fiuza.

O UOL localizou uma das vítimas, R, que hoje tem cerca de 20 anos (idade não especificada para proteção da vítima). Ela disse ter sido aliciada pelo esportista quando tinha 15 anos e passou a trabalhar como recepcionista na agência "Loucos por Aventura". Afirmou ainda que muitas meninas eram levadas para viagens da firma em troca de sexo.

"Eu não sabia que isso era crime. Só fiquei sabendo pela delegada depois", disse R. Ela não acredita que as fotos apreendidas no escritório de Leonardo Zambrana tenham sido fornecidas por Fiuza.

O movimento ativista feminista "Vítimas Unidas" protocolou uma representação na PF (Polícia Federal) de Minas Gerais para pedir uma investigação federal sobre o braço, na internet, do suposto esquema de prostituição infantil.

"Como tem muita gente poderosa, é claro que existe um movimento para tentar abafar o caso", disse Maria do Carmo dos Santos, presidente do "Vítimas Unidas". A PF respondeu que estuda a possibilidade de entrar no caso a fim de investigar a divulgação de pedofilia pela internet.

Família de Zambrana prefere não dar declarações

A mulher de Zambrana, Christiane Freitas Campos, trabalha com o pai em escritório de advocacia de Belo Horizonte.

O UOL tentou, até quarta-feira (9), contato com o sogro e com a mulher de Leonardo. Foram dois telefonemas, um email dirigido ao escritório de advocacia e duas visitas ao endereço. No último contato, a secretária do escritório informou que todos os advogados estavam viajando.

A coluna procurou endereço de mais uma empresa de Leonardo na região da Gameleira, onde, segundo um vizinho, morariam os pais dele, mas ninguém quis dar informações.

No escritório da irmã de Leonardo, Karina Zambrana, que é advogada criminalista, o UOL recebeu a mesma resposta. "Não tenho nada para dizer", disse Karina.

Fiuza construiu carreira nos esportes de aventura

Conhecido atleta e influenciador digital, Rodrigo Fiuza é praticante de diversos esportes radicais, entrevistado em programas de TV como os comandados por Jô Soares, Ana Maria Braga e Fausto Silva, entre outros.

Fiuza, que foi escolhido para representar o país na Olimpíada de Esportes Radicais no México no ano de 2000, tornou-se uma celebridade ao aparecer em revistas sociais e de esportes e ao proferir palestras promovidas por grandes empresas do país com o tema "Gestão dos Sonhos".

A fama levou Fiuza, que passou a trabalhar também como apresentador de programas e documentários esportivos, a receber várias homenagens e a contar com o financiamento de empresas para seus projetos radicais. Com mais de 90 mil seguidores no Instagram, Fiuza fundou sua própria agência de turismo, especializada em esportes, que tem o nome fantasia de Loucos por Aventura.