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Balaio do Kotscho

Quem entregaria as chaves da cidade para o desconhecido Ricardo Nunes?

Menos de cinco meses após a posse de Bruno Covas, poucos conheciam o vice Ricardo Nunes, que ficará no cargo de prefeito até o final de 2024  - Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Menos de cinco meses após a posse de Bruno Covas, poucos conheciam o vice Ricardo Nunes, que ficará no cargo de prefeito até o final de 2024 Imagem: Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

24/05/2021 16h18

Bruno Covas deixou de herança para São Paulo seu vice Ricardo Nunes, um obscuro ex-vereador e empresário, encrencado com negócios suspeitos.

Dele só se sabia que já foi denunciado por violência doméstica, mas depois a mulher retirou a queixa, um caso muito explorado pelos adversários durante a campanha eleitoral do ano passado.

Mas os problemas do encrencado Nunes, que agora estão aos poucos estão vindo a público, são bem maiores.

Na semana passada, o site "De Olho nos Ruralistas" revelou que o novo prefeito da maior cidade do país chegou a alegar hipossuficiência, o popular "atestado de pobreza", para obter imóveis rurais no município mineiro de Três Marias, onde é dono de nove fazendas, que somam pelo menos 1.347 hectares, onde ele cria gado e arrenda terras para o plantio de eucaliptos.

Em reportagem de Alceu Luís Castilho e Leonardo Fuhrmann, ficamos sabendo que ele se valeu de subterfúgios jurídicos para se apossar de terras, um recurso geralmente utilizado no campo por pequenos posseiros pobres, que produzem apenas para a subsistência, o que não é o seu caso.

As decisões da Justiça mineira favoráveis a Ricardo Nunes foram tomadas em junho do ano passado, quando seu nome começou a ser cogitado pelo MDB para compor a chapa com Bruno Covas.

No intervalo de três dias, em junho do ano passado, a juíza Silvia Maria Paula Nascimento julgou dois processos por usucapião iniciados em 2014. Na primeira sentença, de 5 de junho, a juíza deu a Nunes a propriedade da Fazenda Pedras, com 373,26 hectares, adquirida através de Escritura Pública de Cessão de direitos possessórios, com a anuência da prefeitura local, no dia 25 de novembro de 2010.

Segundo o texto da decisão, Nunes juntou no processo um comprovante de hipossuficiência, como se fosse um pobre agricultor.

Apenas três dias após esta decisão, saiu a outra sentença por usucapião favorável a Nunes, referente à Fazenda Chiqueiro, no mesmo distrito de Pedras, com 130,51 hectares.

A reportagem informa que o primeiro imóvel não aparece nas suas declarações ao TSE entregues entre 2012 e 2020. O segundo aparece nas declarações de 2014 e 2016, avaliado em R$ 50 mil, mas na de 2020 não há nenhum imóvel registrado com esse valor. Nos registros do TSE, todos os imóveis aparecem como "terra nua".

Em vídeo divulgado no Youtube da Fazenda Bebedouro, em 2009, antes de ser eleito vereador, Ricardo Nunes mostra as plantações até chegar à sede da propriedade, centro do seu latifúndio agropecuário em Minas.

Nesta segunda-feira, o Estadão publica reportagem de Bruno Ribeiro sobre uma investigação da Polícia Civil em que o novo prefeito paulistano aparece como suspeito de um esquema de lavagem de dinheiro desviado da Prefeitura de São Paulo quando ele ainda era vereador.

As suspeitas foram levantadas pelo Conselho de Controle de Atividades financeiras (Coaf) a partir de dois depósitos em espécie no valor total de R$ 150 mil em conta de uma empresa da família Nunes.

O Coaf mapeou movimentações financeiras suspeitas de entidades comandadas por ex-funcionários do prefeito que comandavam creches na cidade. Parte dos recursos recebidos pela Prefeitura foi parar em contas de seus próprios gestores, depois de passar por contas de empresas, que a polícia considera de fachada.

Para prevenir lavagem de dinheiro, o Coaf emite alertas sobre transação em espécie de valores elevados com depósitos considerados atípicos.

Questionado pelo Estadão, Nunes afirmou, por meio de nota, que "não há depósitos sem origem" na conta da sua empresa, mas não informou quem fez os pagamentos que levaram o Coaf a emitir o alerta, diz a reportagem.

Nunes já foi alvo de um processo na Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social de São Paulo por suspeitas sobre o seu envolvimento com a "Máfia das Creches", mas numa primeira apuração, de cunho civil não foram encontrados indícios contra ele.

O processo, que teve início em dezembro de 2020, está em segredo de Justiça e o Ministério Público já se manifestou a favor da continuidade do inquérito.

Ricardo Nunes assumiu o cargo de prefeito em definitivo na semana passada, após a morte de Bruno Covas. Antes, foi vereador por dois mandatos, de 2012 a 2020, e é sobre os últimos dois anos que a Polícia Civil está fazendo a investigação.

Poucos paulistanos sabiam quem era o novo prefeito. E quem conhecia seu passado provavelmente não lhe entregaria as chaves da cidade.

Sempre é bom se informar melhor sobre os vices antes de votar.

Vida que segue.

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