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Sérgio Ricardo avisou: 'Olho aberto, ouvido atento e a cabeça no lugar'

Sérgio Ricardo, compositor, cantor, artista plástico e cineasta - Ana Resende/Divulgação
Sérgio Ricardo, compositor, cantor, artista plástico e cineasta Imagem: Ana Resende/Divulgação
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

24/07/2020 11h27

Estive uma única vez com Sérgio Ricardo. Foi numa modesta recepção, acho que por ocasião dos 40 anos da morte de Alexandre Vannucchi Leme, em março de 2013. Naquele dia, o cantor, já octogenário, viajou do Rio de Janeiro para São Paulo para ir a uma missa na Sé.

O rito rememorou o ato comandado por Dom Paulo Evaristo Arns em intenção do jovem estudante de geologia, assassinado aos 22 anos no DOI-Codi. Na madrugada de 17 de março de 1973, Alexandre fora torturado até a morte sob a supervisão de Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos ídolos do presidente Jair Bolsonaro.

Ao convocar a missa para a Catedral, Dom Paulo promoveu um dos primeiros grandes atos de oposição à ditadura militar após o AI-5. Sérgio Ricardo esteve lá e, do púlpito, entoou para 5 mil pessoas os versos de Calabouço, canção inspirada na morte de outro estudante, o carioca Edson Luís de Lima Souto, alvejado pela polícia durante um protesto no restaurante universitário Calabouço, no centro do Rio. Agora, Sérgio Ricardo voltava ao local do ato, quatro décadas depois, para repetir a homenagem.

Olho aberto, ouvido atento
E a cabeça no lugar.
Cala a boca, moço.
Cala a boca, moço.
Do canto da boca escorre
Metade do meu cantar.
Cala a boca, moço.
Cala a boca, moço.

Pouco conversamos naquela noite. Ele contou que estava envolvido na produção de um filme novo. Desatento, custei a entender que ele não se referia à trilha sonora, mas a um filme dirigido por ele. Fazia 39 anos que Sérgio Ricardo não lançava um filme. O projeto, no entanto, parecia emperrado: Bandeira de retalhos foi lançado apenas em 2018.

Por um instante, fiquei pensando se Sérgio Ricardo comporia a trilha do próprio filme ou se ele contrataria um músico para isso. Será que pegaria muito mal se eu me candidatasse a (tentar) pôr letra em alguma faixa? Me contive. Deveria ter bebido um pouco mais.

Sérgio Ricardo foi um grande compositor, e um grande compositor de trilhas. Em meados da minha adolescência, descobri Deus e o Diabo na Terra do Sol e não demorou para que alguns versos da trilha fixassem como chiclete.

-- Se entrega, Corisco!
-- Eu não me entrego, não.

Que eu não sou passarinho
Pra viver lá na prisão.
-- Se entrega, Corisco!
-- Eu não me entrego, não.
Não me entrego a tenente,
Não me entrego a capitão,
Eu me entrego só na morte,
De parabelo na mão.

Na voz de Sérgio Ricardo, aqueles versos eram literatura e cangaço. Mas eram também guerrilha, resistência, liberdade.

Até aquele encontro repentino, Sérgio Ricardo era uma espécie de lenda para mim. Era ele o compositor das músicas dos filmes do Glauber. Era ele o autor de Calabouço, uma precursora de Cálice, apresentada dois meses antes da canção de Chico Buarque e Gilberto Gil. Era ele o poeta que, contemporâneo de Carlos Lyra e Nara Leão, havia atuado para aproximar a bossa nova do morro, da quebrada, das favelas. Todo o morro entendeu quando Zelão chorou. Mas acorrentado ninguém pode amar.

Sobretudo, era ele o cara que tinha quebrado o violão e atirado os pedaços à plateia, fustigado por uma vaia que o impedira de cantar. "Que maluco", pensei por muitos anos. "Ele poderia ter machucado alguém".

O gesto impulsivo ficou marcado para sempre em sua biografia. Quando alguém se propõe a contar a história do Festival da Record de 1977, pode deixar de lado várias informações relevantes, pode se esquecer de mencionar que Caetano e Gil inauguraram ali o que viria a ser a Tropicália, ou que Roberto Carlos também se apresentou. Pode até sonegar o resultado do júri, que premiou Ponteio, de Edu Lobo e Capinam, deixando para trás Alegria, Alegria, Roda Viva e Domingo no Parque. Mas certamente não deixará de falar que, ao tentar cantar Beto Bom de Bola, Sérgio Ricardo sucumbiu diante das vaias. "A música vai se chamar Beto Bom de Vaia", brincou, deixando a plateia ainda mais arisca. Quando viu que a zoeira encobria o retorno e que seria em vão lutar contra ela numa discreta formação banquinho-e-violão, perdeu as estribeiras: "Vocês ganharam, vocês ganharam", repetiu, aos berros, antes de estraçalhar o instrumento e se retirar.

No contexto dos festivais de música, em que cada artista tinha sua claque e cada canção sua torcida, vaiar era uma tradição. No Festival Internacional da Canção do ano seguinte, Caetano faria um discurso que ficou famoso, um manifesto sonoro contra a intolerância e a patrulha ideológica de uma "juventude que diz que quer tomar o poder". — Vocês não estão entendendo nada, nada, absolutamente nada.

Sérgio Ricardo foi um dos grandes de sua geração. E não só de sua geração. Bom de bola, um dos maiores craques da história, de quem parte da nação se esqueceu. Glória não perdura.

Estive num único show dele, se não me engano, ainda nos anos 1990. Deveria ter ido a outros, muitos outros, e ficado mais atento. Fazia anos que não ouvia notícias de Sérgio Ricardo. Soube do filme temporão, de 2018, apenas por acaso e sem nenhum destaque. Apenas em junho, por ocasião de seu aniversário de 88 anos, soube, também por acaso, que ele estava internado. Amigos, artistas e admiradores postaram mensagens em vídeo nas redes sociais mandando seu abraço, suas estimas de pronta recuperação, seu agradecimento. Guinga, Alceu Valença, Ítala Nandi, Roberto Bonfim, Miltinho e Aquiles do MPB-4, muitos outros.

Até o ano passado, aos 87, Sérgio Ricardo costumava alimentar também um perfil pessoal no Facebook. Escrevia pouco, compartilhava muito. Defendeu a liberdade do ex-presidente Lula, criticava o governo Bolsonaro, preocupava-se com a Amazônia e os povos indígenas em tempos de desmatamento. Não sei se chegou a ler ou ouvir sobre os planos oficiais de fazer passar a boiada. Nem se acompanhou a performance do "mito" em tempos de pandemia. Nunca se entregou ao tenente - nem ao capitão.

Em agosto de 2019, postou uma letra de sua autoria, de 1979:

Sei que é difícil mudar
Quando o rumo é o de nossa vida

E bem pior é se a gente vê
Que não tem mais saída

Saí buscando não sei se o vento
Ou se o rumor das águas
Falando dos caminhos
Brotou em minha mão
Fonte nascente
E se avolumou
Sem que eu percebesse
Ocupou todo o espaço
E o nó desatou do laço

Quando eu me vi sem amarras,
Saí agitando os braços
Virei o rio que rompe barragem
Que sai lambendo a terra,
A mata, o leito, a margem
Só sei que lá fui eu
Do lago à cachoeira.

Sérgio Ricardo rompeu barragem, lambeu a terra e virou cachoeira. Cumpriu a jornada repetindo o alerta que gravou em vinil quase 50 anos atrás: "Olho aberto, ouvido atento e a cabeça no lugar".

Camilo Vannuchi