PUBLICIDADE
Topo

Mafalda, Libelu e o repúdio ao autoritarismo

A personagem Mafalda - Reprodução
A personagem Mafalda Imagem: Reprodução
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

02/10/2020 01h00

"Basta!" O grito de Mafalda ainda nos inspira. Hoje cinquentona, a menina mais indignada e contestadora dos quadrinhos continua presente nas prateleiras e nas redes sociais, conhecida e admirada por quatro gerações. Meus filhos, de 8 e 6 anos, a conhecem. Os pais dos meus pais foram contemporâneos do pai da Mafalda, Joaquín Salvador Lavado Tejón, o Quino, morto nesta semana aos 88 anos.

A popularidade de Mafalda em 2020 pode ser interpretada como um termômetro triste do atual estado de coisas. De certa forma, a anti-heroína dos quadrinhos argentinos se tornou uma espécie de alterego de todos nós. A destruição do planeta, a censura à imprensa, o autoritarismo, a caretice de setores conservadores da sociedade, cada tema contemplado nas tirinhas de Quino encontra eco no momento atual. E reagimos - quando reagimos - com o mesmo espanto, a mesma incompreensão e, não raro, o mesmo desalento verificado nas reações de Mafalda.

Talvez Mafalda não seja nosso alterego, mas nosso inconsciente coletivo. Ela diz o que teríamos dito, ou o que gostaríamos de dizer, com uma capacidade de síntese e uma empatia similares às observadas, no Brasil, nas obras de Henfil e Laerte. Ou, para não deixar de lado a turma mais nova, as tirinhas do menino Armandinho, assinadas por Alexandre Beck.

Armandinho, Graúna e Mafalda, principalmente Mafalda, são oráculos em quadrinhos, mensageiros que cumprem a missão de expor "a real" quando muitos preferem desviar o olhar.

A morte de Quino, no último dia 30 de setembro, fez com que o rosto de Mafalda pipocasse nas redes sociais. Falou-se mais de Mafalda do que de Trump ou Bolsonaro. Ainda bem. Desempenho admirável para uma personagem que foi publicada na imprensa argentina entre 1964 e 1973. Nesse mesmo período, entre 1966 e 1973, a Argentina viveu as agruras de uma tenebrosa ditadura militar. A última tirinha da Mafalda saiu em 25 de julho, dois meses após a posse do primeiro presidente civil após os anos de chumbo.

Por que Mafalda permanece atual?

É difícil explicar. Uma explicação está no fato de a personagem ser universal, como os romances de Machado de Assis e as tragédias gregas. Outra hipótese abarca a qualidade do traço e o discurso espirituoso da moça, que fazem de Mafalda uma personagem tão atemporal quanto a Mônica, o Asterix ou o Menino Maluquinho. Mas podemos também admitir que Mafalda se mostra excepcionalmente atual em tempos de ódio, polarização, crimes ambientais, aumento da desigualdade, truculência e, é claro, autoritarismo.

Pode parecer óbvio - e é - mas o Brasil de 2020 nos remete a Mafalda. O Brasil de 2020 nos reporta aos anos de chumbo, à perseguição política e cultural, à perda de direitos. Quando nos damos conta, estamos assobiando uma canção de Belchior, de Gonzaguinha, João Bosco ou Taiguara. Boquiabertos diante de uma palestra de Ailton Krenak ou de uma live de Caetano. A qualquer momento, ao abrir o jornal, vamos dar de cara com versos de Camões, receitas de bolo ou crônicas de um novo Febeapá, o Festival de Besteiras que Assola o País. Quem lembra?

Mafalda é um elemento entre tantos outros. No festival de Veneza, Caetano narra sua prisão e seu exílio em Londres. Eu não sou daqui, marinheiro só. Na Netflix, fazem sucesso uma série sobre Sherlock Holmes e outra que se propõe continuar a saga de Daniel San e Senhor Miyagi. Nas redes sociais, essas tribunas diabólicas que há muito substituíram os botecos e os fóruns universitários, socialistas empoeirados se dividem entre stalinistas e trotskistas, o que basta para trollarem uns aos outros. Nossos ídolos ainda são os mesmos, será?

No mesmo dia em que nos despedimos de Quino, estreou no Festival É Tudo Verdade o documentário "Libelu: Abaixo a ditadura", dirigido por Diógenes Muniz. Libelu é a forma carinhosa (e sincopada) de se referir a Liberdade e Luta, uma corrente atuante no movimento estudantil no final dos anos 1970, que teve como epicentro o campus da USP, em São Paulo. Na teoria política, eram internacionalistas, ou trotskistas, numa época em que os textos de Trotsky "viralizavam" nos grupos de esquerda mais do que os tuítes do Felipe Neto, os vídeos do Gregorio Duvivier e os artigos da Eliane Brum.

A fórmula vestiu feito luva a juventude da época. Socialismo com liberdade, sem o ranço do stalinismo e outras ditaduras sanguinárias. Permitia-se vestir jeans, ouvir rock, dançar até o sol nascer. Repudiava-se a burocracia e, de certa forma, a realpolitik. Segundo os testemunhos da época, a Libelu reunia os rapazes mais interessantes e as garotas mais bonitas da época. Sobrava em charme o que faltava em disciplina.

Ver o filme é também uma forma de vislumbrar as transformações que o tempo é capaz de operar. Demétrio Magnoli e Laura Capriglione foram da Libelu. Eugênio Bucci e Paulo Moreira Leite também. Reinaldo Azevedo, Cleusa Turra, José Arbex Jr., Caio Túlio Costa e Matinas Suzuki, só pra citar alguns dos muitos jornalistas que emergiram das hostes da Libelu. Antonio Palocci também foi um de seus apóstolos, assim como Clara Ant, Tita Dias, Geraldinho Siqueira, José Américo, Luís Favre e Luiz Gushiken.

Mafalda, se frequentasse a cena estudantil paulistana no final dos 1970, provavelmente seria da Libelu.

Num momento em que projetos autoritários como os de Trump e Bolsonaro parecem tão invencíveis quanto o Império Romano e Daniel San, é oportuno mirarmos a disposição de Mafalda e da Libelu para o enfrentamento do autoritarismo e também do status quo. Um enfrentamento que pode ser feito com arte, afeto, alegria e criatividade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.