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Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dia de luta contra a tortura no Brasil de Bolsonaro

Desaparecido em 2013, o pedreiro Amarildo de Souza foi torturado até a morte por policiais do Rio de Janeiro, segundo investigação da Polícia Civil - Fernando Frazão/Agência Brasil
Desaparecido em 2013, o pedreiro Amarildo de Souza foi torturado até a morte por policiais do Rio de Janeiro, segundo investigação da Polícia Civil Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil
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Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

26/06/2021 15h36

Este sábado, 26 de junho, é o Dia Internacional de Apoio às Vítimas da Tortura. Neste ano, a data é celebrada apenas cinco dias após a primeira condenação de um torturador na esfera criminal no Brasil. Carlinhos Metralha, delegado do DOPS, foi condenado na Primeira Instância, em São Paulo, a (ridículos) dois anos e onze meses em regime semiaberto. Cabe recurso.

Enquanto isso, vivemos num país em que o STF ratificou a interpretação (absurda) de que a lei da Anistia serviu para anistiar também torturadores - uma decisão que não encontra respaldo no direito internacional nem na experiência recente de países vizinhos, como Chile, Argentina e Uruguai, todos eles com diversos casos de torturadores condenados.

Um país em que o pedreiro Amarildo continua desaparecido.

Um país em que o presidente da República se orgulha de ter como livro de cabeceira as memórias de um notório torturador, Carlos Alberto Brilhante Ustra, e que, cinco anos atrás, não hesitou em homenagear o chefe do DOI-Codi no plenário da Câmara.

Um país em que o presidente da República não esperou nem seis meses de mandato para exonerar todos os peritos do Mecanismo Nacional de Combate à Tortura, esvaziando o órgão.

Um país em que o presidente da República afirmou em entrevistas que o erro da ditadura foi ter torturado e não matado, e que deveria ter matado mais, pelo menos uns 30 mil, começando com o sociólogo (e ex-presidente) Fernando Henrique Cardoso.

Um país em que o presidente da República debochou, em mais de uma ocasião, as torturas sofridas por brasileiros e brasileiras como Dilma Rousseff e Mirian Leitão.

Um país em que o presidente da República foi eleito após afirmar que, em seu governo, a "petralhada" seria mandada para "a ponta da Praia", apelido pelo qual os militares se referiam a uma base da Marinha na Restinga de Marambaia, no Rio de Janeiro, usada para a execução de presos políticos durante os anos de chumbo.

Um país em que, um ano atrás, o Major Curió, denunciado pelos crimes de tortura e assassinato na região do Araguaia, foi recebido pelo presidente da República em audiência oficial no Palácio do Planalto.

Um país em que o presidente da República tem o desplante de ridicularizar a dor de quem está com Covid, sem ar e sem oxigênio, faz troça do distanciamento social e de outros cuidados preventivos, e se julga no direito de baixar a máscara de uma criança em meio a uma aglomeração.

Por incrível que pareça, repudiar a tortura é bandeira atual, urgente, necessária no Brasil de 2021.