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Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro não deve ser candidato no ano que vem

2.jul.2021 - Presidente Jair Bolsonaro é investigado por não ter comunicado irregularidades na compra da vacina - REUTERS
2.jul.2021 - Presidente Jair Bolsonaro é investigado por não ter comunicado irregularidades na compra da vacina Imagem: REUTERS
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Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

19/08/2021 00h33

Jair Bolsonaro está mais perdido que pitanga em pé de amora. Foram tantas bordoadas nos últimos dias, nele e no governo, que seu séquito de seguidores está dando bug atrás de bug. O mais recente é ter que explicar nos grupos que a turma do Centrão agora é gente de bem - e que esse tal Ciro Nogueira é patriota, Brasil acima de tudo, coisa e tal.

Para o que ainda resta do bolsonarismo, agosto tem honrado a tradição e se revelado, de fato, o mês do desgosto. É desgosto que não acaba mais. Só nos últimos dez dias, foram pelo menos dez, uma média de um por dia.

Inaugurando a sucessão de derrotas, o Senado enterrou no dia 10 a Lei de Segurança Nacional, um dos mais abjetos e anacrônicos entulhos da ditadura militar, combatido pelos democratas desde 1967. No mesmo dia, uma terça-feira, as Forças Armadas ousaram desfilar seu arsenal bélico pela Esplanada dos Ministérios a fim de medir forças com o Congresso Nacional. Acabaram produzindo um dos espetáculos mais constrangedores já noticiados neste país desde o início do atual governo. O episódio repercutiu na imprensa internacional: "Desfile militar de 'república das bananas'", classificou o jornal inglês The Guardian. "Uma tentativa de demonstração de força", anotou o francês Le Monde. Sucateados, os blindados produziram mais fumaça do que a cortina de fumaça idealizada pelos estrategistas do Planalto. Em resumo: não funcionou.

Poucas horas depois, a Câmara dos Deputados rejeitou o voto impresso e impôs uma ruidosa derrota ao capitão fake news. Eduardo Bolsonaro, o recruta Zero-3, não votou. Ele estava em Sioux Fall, nos Estados Unidos, participando de um encontro dos republicanos de extrema direita junto com o marqueteiro Steve Bannon, consultor de Trump. Na sexta-feira, em visita ao Ceará, seu pai foi flagrado acenando para ruas vazias em Juazeiro do Norte. No mesmo dia, foi vaiado num evento ao registrar a presença de um político local, seu aliado no Estado. As coisas não devem estar nada fáceis para ele, tadinho.

Bolsonaro ainda esperneava - e afrontava o STF - quando o cantor Sérgio Reis resolveu espernear também, desta vez por áudio, conclamando os caminhoneiros a acampar em Brasília a fim de levar duas exigências à Suprema Corte: o voto impresso e a renúncia dos onze ministros. Tudo indica que o sertanejo, aos 81 anos, se encheu de tanto cantar a música Rei do Gado e decidiu se autoproclamar.

Quando tudo parecia voltar aos eixos na república das bananas, eis que o general Braga Netto, indefensável ministro da Defesa, deu as caras na Câmara dos Deputados na última terça-feira (17). Ele fora convocado pelos membros de três diferentes comissões para se explicar depois que as Forças Armadas divulgaram uma nota ameaçando o senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI da Covid-19, e após ter supostamente afirmado a um interlocutor que "sem voto impresso não haverá eleição". Era ou não era o caso de conferir com o VAR e apitar penalidade máxima? Ameaça de golpe, na cara dura, é tipo mão na bola na pequena área, Arnaldo Cézar Coelho. Como não houve qualquer sanção, coube a um deputado federal de São Paulo dar um mata-leão no ministro. "Quem decide sobre voto impresso é o Congresso Nacional", afirmou Paulo Teixeira (PT-SP), explicando didaticamente as regras da democracia para o eminente general. "À vossa excelência caberá obedecer. E, se não obedecer, será preso."

O resultado de tanta groselha e tamanha petulância de Bolsonaro e seu grupelho não podia ser outro que não a queda vertiginosa da popularidade. Não sou eu quem está dizendo, é a XP. Segundo a mais recente pesquisa do instituto, 61% dos eleitores não votariam no capitão "de jeito nenhum" se a eleição fosse hoje. O que isso significa na prática? Que Bolsonaro perderia no segundo turno para Lula, Ciro Gomes, Sérgio Moro, João Doria, Eduardo Leite e até para o ex-ministro Mandetta.

Por essas e outras, Bolsonaro está repleto de razão quando ameaça não participar da eleição do ano que vem. Meses atrás, ele havia afirmado publicamente que, sem voto impresso, não haveria eleição em 2022. Agora, deu uma fraquejada e calibrou o discurso. Sem provas, como é de seu feitio, relatou que há fortes indícios de que a eleição de 2018 teria sido fraudada, motivo pelo qual a disputa não foi liquidada no primeiro turno. E reconheceu que, sem o voto impresso, pode optar por ficar fora da campanha.

Sua postura tem sido interpretada por alguns analistas como a gestação de um golpe. Para esses, Bolsonaro atiçaria seus apoiadores a fim de tentar o bote em momento oportuno. Sem maioria no legislativo, sem apoio da imprensa, assistindo à debandada do empresariado, com o universo de eleitores reduzido a menos de 25% do total, despencando nas pesquisas e passando vergonha por onde passa (o que nem a claque habitual de cinquenta apoiadores tem conseguido evitar), especula-se que seu movimento seja outro: não em favor de um golpe, mas em busca de uma forma de justificar o próprio fracasso. O que o move é a necessidade de preservar algum capital político na derrota, tida como inevitável.

É com esse horizonte que Bolsonaro tem investido cada vez mais no discurso da vitimização. Incapaz de governar e, atualmente, de conduzir o próprio rebanho, o Messias busca recursos para sair de cena sem repetir o papelão que foi a derrota do amigo Trump na eleição do ano passado. Não poupará esforços para bagunçar o meio de campo e deixar o gramado sob escolta. Atirando e esperneando, como fez a vida toda.

Vale lembrar, ainda, que Bolsonaro continua sem partido. Ele ainda não se filiou a nenhuma legenda nem tem aliados importantes nos Estados. "Bolsonaro não está montando nenhum palanque regional, não está se preparando. Se bobear, nem disputa", afirmou Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD - partido que deve receber, nas próximas semanas, o deputado Rodrigo Maia e o senador Rodrigo Pacheco, ambos potenciais candidatos à Presidência. Em entrevista recente a Pedro Bial, Ciro Gomes também comentou a provável ausência de Bolsonaro na disputa de 2022: "Acho que ele não estará nas eleições. É um palpite. Não estará nas eleições e, estando, provavelmente não estará no segundo turno".

O namoro com o Centrão talvez seja sua única tábua de salvação. Mas mesmo esse romance parece fogo de palha. Na hora que o bicho pegar, as candidaturas forem oficializadas e os prognósticos de campanha ficarem mais claros, dificilmente os políticos do Centrão estarão dispostos a se afogar abraçados em Bolsonaro. "Estou cansado de ver candidatos a presidente da República serem rifados", ironizou Lula nesta quarta-feira (18), em Teresina. É esperar para ver.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL