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Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Do regabofe de Temer à pizza de Bolsonaro: escárnio

Bolsonaro come pizza com comitiva durante viagem à Nova York, onde participa de Assembleia Geral da ONU - @gilsonmachadoneto no Instagram
Bolsonaro come pizza com comitiva durante viagem à Nova York, onde participa de Assembleia Geral da ONU Imagem: @gilsonmachadoneto no Instagram
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Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

23/09/2021 00h30

Meu avô dizia que a hora da refeição é sagrada. Não no sentido santo ou miraculoso, daquilo que é afeito a divindades, mas algo digno de veneração ou respeito: um momento privilegiado que não deve ser violado ou sujeito a profanações. O nonno não tinha nada de ranzinza, veja bem. Ao contrário. Na hora da refeição, podia-se conversar, contar causos, até gargalhar. O que ele não achava agradável era deixar a TV ligada, por exemplo, turvando com sua estridência a prosa fiada dos comensais. Tampouco brigar, discutir, ofender. E olha que ele era filho de italianos, hein? Gostava de "potchar" a fatia de pão no prato de capeletti. E de beber chianti no copo de cerveja. Mas as implicâncias, melhor deixá-las para depois, de preferência para o dia seguinte. Porque a hora da refeição, bem, é uma hora sagrada.

Para certos políticos, a hora da refeição também é sagrada. Não no sentido santo ou miraculoso, daquilo que é afeito a divindades, mas como instrumento imprescindível de conchavos, acordos, rapapés e maracutaias. Um momento privilegiado que não se pode dispensar ou suprimir. Como faço, por exemplo, para descolar minha imagem do desmandatário geral da nação, quatro dias depois de ter ido a Brasília para encontrá-lo - e, segundo os jornais, ter me prontificado a salvar sua pele? Vou a um jantar com oponentes dele e seus prepostos, ora. E como faço para deixar claro para o brasileiro médio, que não sabe exatamente quem é fulano ou beltrano na fila do pão? Fácil: é só me flagrarem ridicularizando o presida, rindo-me dele. Mas isso de trollar alguém ao redor de uma mesa não pode parecer demasiadamente mundano, chinfrim, coisa de quem toma cerveja em boteco compartilhando amendoim e vendo jogo do Timão? Não se for na mansão de um famoso (e controverso) "player do mercado", rodeado por gente da mais alta extirpe, como o dono de um disputado partido de aluguel, o presidente (e herdeiro) de uma emissora de TV quatrocentona até no nome, um influente apresentador chapa-branca (de outro canal), e o mandachuva emérito da editoria de opinião do mais conservador dos diários paulistas.

Na cena que correu o país, refestelam-se todos. Mais de quinze homens brancos, ricos, engravatados, estranhamente apertados para caberem na sala e no vídeo. Onde comem dois, comem três; onde comem três, comem quatro. Juntinhos, unidos em torno da mesa e também de um plano infalível, de alguma estratégia, que talvez eles chamem de meta ou de missão: há sempre algo em vista, um movimento no radar. Sobretudo, riem-se. Riem-se de um humorista, craque na arte da imitação, contraparte direitosa de Marcelo Adnet. Mas não se riem apenas dele. Riem-se da bizarra anomalia que ajudaram a eleger. Riem-se do golpe semeado por um, cevado por outro, mergulhado no poço sem fundo em que muitos se afogam enquanto eles ceiam. Riem-se da imagem grotesca, inaceitável, de submeter um ministro ou quem quer que seja a pau-de-arara e chibatadas, instrumentos de tortura enaltecidos pela mente perversa do capitão ignaro e reproduzidas como se nada fossem pelo comediante boçal. Riem-se dos vinte e tantos milhões de infectados e das quase seiscentas mil mortes. Riem-se de uma nação desmatada, desempregada e faminta. Riem-se de um país ridicularizado mundo a fora - exatamente como fazem eles, ao redor da mesa, remedando Bolsonaro. Um escárnio desmesurado, fora do tempo e do espaço, que somente o patriarcado mais abjeto poderia exibir.

O escárnio daqueles senhores pouco difere do exibido por outra patota de homens, igualmente brancos e sorridentes, registrado em fotografia no último domingo. Na imagem, Bolsonaro e outros membros da comitiva brasileira a Nova York comem pizza, em pé, na calçada em frente à Slice, uma pizzaria fast-food na Terceira Avenida, a 500 metros do hotel InterContinental Barclay, em que estavam hospedados. Integram o convescote o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, e os ministros do Turismo, Gilson Machado Neto, da Justiça, Delegado Anderson Torres, do Gabinete de Segurança Institucional, General Augusto Heleno, e da Secretaria Geral da Presidência, General Luiz Eduardo Ramos. "Jantar de luxo em NYC", publicou Ramos no Twitter. O motivo para o lanche apressado foi exatamente este: o populismo rasteiro de quem depende de bravata para alimentar seus 25% de popularidade. Até a posição antivacina do presidente e sua fixação em fazer proselitismo de tratamentos ineficazes é justificada com populismo. "Só vou me vacinar quando todos os brasileiros estiverem imunizados", chegou a discursar, não exatamente com essas palavras. Ei, ei, ei, o Mito é nosso rei.

Muitos jornalistas e analistas políticos de redes sociais afirmaram que Bolsonaro precisou recorrer à pizza na calçada por não estar vacinado, uma vez que a vacina contra a Covid é exigida pela legislação municipal para frequentar locais públicos como lojas e restaurantes. Ocorre que a regra vale apenas para os salões fechados, e não para as áreas externas - e são muitos os restaurantes com mesas ao ar livre naquela área da cidade. Em resumo, Bolsonaro quer mostrar que é um cara simples, gente como a gente, e por isso segue à risca a cartilha do eterno candidato: um pastel de feira aqui, um pão com leite-condensado ali, uma fatia de pizza acolá. Sorrindo sempre. Porque, em seu universo particular, está sempre tudo lindo, tudo maravilhoso. E o resto que se dane. Sou o único presidente do G-20 que ainda não tomou vacina, e daí? Deveria aproveitar a viagem a Nova York para engatar diálogos importantes com líderes de diferentes países, mas, como não sou político profissional, vou ficar na minha, talquei? Máscara? Não serve para nada essa bobagem. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.

O escárnio de Nova York foi dirigido, em parte, aos protagonistas do escárnio de São Paulo. Quase como uma resposta da trupe de Bolsonaro à patota do Temer. Aqui, ninguém precisa de prato de porcelana nem de serviço à francesa, eles parecem dizer. Nóis é jeca, mas é jóia. Não é isso que vocês quiseram eleger? Não era uma escolha muito difícil? Quem pariu Jair que o embale. Enquanto isso, na planície, longe dos salões, dos regabofes e das assembleias da ONU, faltam alimentos e motivos para galhofa. Aqui embaixo, o que tem de sobra é ânsia e indigestão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL