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Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nada a comemorar neste Dia do Jornalista

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Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

07/04/2022 00h23

O mês começou como de costume para os jornalistas do Brasil. Na última sexta-feira (1º), uma equipe da ONG Repórter Brasil revelou ter sido intimidada por policiais com metralhadoras enquanto apurava suspeitas de infrações trabalhistas e ambientais na mineradora Brazil Iron, no interior da Bahia. Ainda nos recuperávamos da tentativa inaceitável e anacrônica de calar artistas na edição brasileira do Lollapalooza quando o jornalista Luís Nassif, diretor do GGN, tornou pública, no sábado (2), a ordem judicial, expedida pelo juiz Paulo Roberto Sampaio Jangutta, para que fossem excluídas três reportagens publicadas no site, todas elas referentes à atuação do desembargador Luiz Zveiter, influente magistrado do Rio de Janeiro de quem Jangutta foi juiz auxiliar quando aquele presidiu o Tribunal de Justiça do Estado. Na tarde de domingo (3), por fim, um deputado federal - com cara de Bolsonaro, jeito de Bolsonaro, ego de Bolsonaro e nome de Bolsonaro - usou uma rede social para zombar, mais uma vez, das sessões de tortura sofridas pela jornalista Miriam Leitão quando tinha 19 anos e estava grávida do primeiro filho: um entre tantos ataques autoritários e misóginos à liberdade de expressão, à história e, principalmente, à humanidade.

Não há um dia de sossego neste país para quem dedica sua vida ao ofício de informar. Nem poderia, numa época e num lugar em que o maior agressor de jornalistas é o próprio presidente da República. Não sou eu quem está dizendo. O tento de Bolsonaro - ele deve se sentir orgulho, imagino - está no relatório Violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil, publicado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) em 27 de janeiro. Segundo a pesquisa, o ex-capitão foi responsável por uma em cada três violações à liberdade de imprensa ocorridas em 2021. Dos 430 ataques - número recorde de casos desde o início da série histórica, em 1990 -, Bolsonaro perpetrou 147, somando episódios de descredibilização da imprensa e agressões verbais a jornalistas.

É o terceiro ano consecutivo que o chefe de Estado desponta como o maior violador (saiba mais). Sua postura funciona como incentivo e salvo-conduto para que outros agressores saiam do armário. Segundo a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert), o número de comunicadores que foram vítimas (não-fatais) de violência no Brasil subiu de 189 em 2020 para 230 em 2021, um aumento de 21%. Foram registrados no ano passado oito atentados com arma de fogo contra jornalistas, o dobro do número registrado em 2020. Outro levantamento, desta vez da Agência Lupa, mostrou que o presidente atacou jornalistas em 42 das 49 lives que realizou ao longo do ano passado.

Useiro e vezeiro no ofício de ofender e caluniar comunicadores, Bolsonaro, se pudesse, nomearia um interventor em cada redação e botaria a polícia política no encalço de cada jornalista. Na ditadura é que era bom, talkey? Bons tempos de AI-5, censura, veraneios do DOPS e atestados de óbito falsificados, ele deve pensar. Bons tempos em que Chico Buarque vivia em Roma e nenhuma Pabllo Vittar ousaria se manifestar politicamente em favor de um candidato de esquerda. Bons tempos em que nem sequer havia candidatos, quiçá de esquerda. Se pudesse, Bolsonaro faria tudo de novo. Prenderia geral, como fizeram com Hermínio Sacchetta, Roberto Freire, Hélio Fernandes, Rose Nogueira, Alípio Freire e tantos outros. Mandaria muitos para o exílio ou para o autoexílio, como Flávio Tavares e Bernardo Kucinski. Talvez matasse alguns, ou uma porção, como fizeram com Vladimir Herzog e Luiz Eduardo Merlino. Como foi feito, também, com Libero Badaró, jornalista que defendia o fim da monarquia e que foi assassinado, no final de 1830, por correligionários de D. Pedro I, agravando uma crise que já era insustentável e que culminaria, em 7 de abril de 1831, na abdicação do imperador em favor de seu filho, o príncipe, então com apenas 5 anos. É em reconhecimento à defesa da liberdade de expressão e de imprensa, na figura do mártir republicano Libero Badaró, que o 7 de abril é considerado, desde 1931, o Dia do Jornalista.

Neste 7 de abril, vivemos em permanente posição de alerta. As agressões se avolumam, as ofensas saltam aos olhos, as tentativas de intimidação não cessam. Somos governados por uma seita que tem entre seus dogmas o antijornalismo explícito, aliado do obscurantismo, da anticiência, da desinformação, as muitas faces de autoritarismo promovidas por quem foge ao debate, despreza as instituições, ofende o judiciário, sonha em fechar o parlamento e boicota os instrumentos de transparência. Nada a comemorar.