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Carlos Madeiro

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Com fila parada, famílias em pobreza extrema superam as do Auxílio Brasil

30.set.21 - Manifestantes usam ossos em protesto contra o aumento da miséria no Brasil - Lucas Valença/UOL
30.set.21 - Manifestantes usam ossos em protesto contra o aumento da miséria no Brasil Imagem: Lucas Valença/UOL
Carlos Madeiro

Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas e com especialização em gestão de conteúdo em jornalismo pela Universidade Mackenzie, Carlos Madeiro atua há 20 anos e escreve para o UOL desde 2009, participando de grandes coberturas e fazendo reportagens e análises sobre o Nordeste e o Norte do Brasil.

Colunista do UOL

26/06/2022 04h00

O número de pessoas em extrema pobreza disparou no país este ano, e o total de famílias nessa faixa de renda já ultrapassou o número de beneficiárias do programa Auxílio Brasil, o antigo Bolsa Família.

Em maio, segundo dados do Cadastro Único do Ministério da Cidadania, o número de famílias na faixa de renda mensal de até R$ 105 por pessoa alcançou 18,4 milhões, 300 mil acima do total de famílias que receberam o benefício (18,1 milhões).

Nas famílias em pobreza extrema, ainda segundo dados do Cadastro Único, vivem hoje 47 milhões de pessoas.

Desde janeiro, quando houve aumento no número de beneficiários do Auxílio Brasil, a quantidade de famílias atendidas era maior do que as em extrema pobreza. Em abril, esse quadro se inverteu pela primeira vez no ano e a diferença cresceu em maio (veja o gráfico abaixo).

No mês passado, ainda segundo dados do Ministério da Cidadania, do total de famílias em extrema pobreza, havia 2,2 milhões que não recebiam o Auxílio Brasil. A fila de espera do programa atingiu 2,7 milhões de famílias considerando todas as faixas de renda. Os dados de maio, nesse caso, ainda não foram informados.

Importante frisar que, além de famílias na extrema pobreza, aquelas em situação de pobreza (com renda per capita de R$ 105,01 até R$ 210) também podem receber o auxílio, desde que tenham crianças, adolescentes ou grávidas em casa.

O número de famílias que recebem o Auxílio Brasil vem se mantendo estável desde fevereiro deste ano, com pagamento entre 18 e 18,1 milhões de beneficiários. De lá para cá, porém, o número de famílias em extrema pobreza saltou de 17 para 18,4 milhões, segundo a pasta.

Pela lei que criou o programa, que substituiu o Bolsa Família, toda família em extrema pobreza deveria ser incluída automaticamente. Entretanto, para isso, seria necessário aumentar a dotação orçamentária, o que não vem ocorrendo.

Pagamentos do Auxílio Brasil por região em maio:

  • Nordeste - 8,5 milhões de famílias
  • Sudeste - 5,2 milhões
  • Norte - 2,1 milhões
  • Sul - 1,2 milhão
  • Centro-Oeste - 937 mil

Famílias na extrema pobreza em maio:

  • Nordeste - 8,9 milhões de famílias
  • Sudeste - 5,3 milhões
  • Norte - 2,1 milhões
  • Sul - 1,1 milhão
  • Centro-Oeste - 827 mil

A coluna procurou o Ministério da Cidadania para saber se há previsão orçamentária para incluir nova famílias em extrema pobreza nos próximos meses, mas não houve retorno.

Segundo informa o ministério, para serem habilitadas no programa, as famílias precisam, além de atender os critérios de elegibilidade, ter os dados atualizados no Cadastro Único nos últimos 24 meses e sem informações divergentes das de outras bases do governo federal.

"A seleção é feita de forma automática, considerando a estimativa de pobreza, a quantidade de famílias atendidas em cada município e o limite orçamentário anual do Auxílio Brasil, por meio do Sistema de Benefícios ao Cidadão (Sibec)", diz a pasta.

Pedinte que diz ter fome em Ribeirão Preto (SP)  - Getty Images - Getty Images
Pedinte que diz ter fome em Ribeirão Preto (SP)
Imagem: Getty Images

Busca por ossos e pele

Na sede da ONG Amigos da Periferia, quinta-feira foi dia de entregar osso e pele doados por supermercados da região para pessoas em vulnerabilidade cadastradas no bairro do Benedito Bentes 2, em Maceió.

"Cresceu muito a procura [de famílias] após o fim do Auxílio Emergencial [benefício dado pelo governo no auge da pandemia]. Tem famílias que nos procuram para arrumar para eles peles de carne que são doadas para os cachorros para que possam se alimentar. É muito complicado a situação aqui", diz Vânia Gato, fundadora da entidade.

Josete Dias Martins, 46, é uma das moradoras que sempre busca ajuda. Sem renda e sem Auxílio Brasil, ela diz que tem tido muita dificuldade para conseguir se alimentar, já que o único recurso que tem é uma pequena pensão que a filha de 15 anos recebe do pai.

"São muitas dificuldades. Estou no Cadastro Único, mas falta me atualizar para receber o Auxílio, mas nem sei fazer isso. Por isso vivo aqui na instituição; com as doações consigo me alimentar", conta.

Famílias pegam ossos e pele para se alimentar em Maceió - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Famílias pegam ossos e pele para se alimentar em Maceió
Imagem: Arquivo pessoal

"Tormenta perfeita" levou à alta, diz pesquisadora

Nathalie Beghin, coordenadora da assessoria política do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos), afirma que não há um motivo único que explique o crescimento da miséria nos últimos meses no Brasil. "A gente esta vivendo de tormenta perfeita", diz.

Ela cita que o desemprego elevado, a queda da renda, a inflação e o modelo de produção de alimentos são os principais fatores que levaram a uma escalada da extrema pobreza no país.

"Nosso modelo de produção é essencialmente centrado do agronegócio, que resulta na expulsão do campo dos trabalhadores rurais. E no meio disse tem a guerra [Rússia contra a Ucrânia] que está afetando insumos para agricultura. Mas todo drama não seria problema se o estado tivesse atuante", afirma a coordenadora do Inesc, organização que liderou o grupo de trabalho de pobreza, fome e desigualdades da Agenda 227.

Para ela, o foco central é que o governo federal, nos últimos anos, desmontou as estrutura e políticas públicas que poderiam ser úteis para fazer frente a uma crise desse porte após o pico da pandemia.

"Houve o desmonte da agricultura familiar, do Plano Safra, do seguro ao produtor, do crédito com subsídio, do estoque de alimentos —que poderiam, na falta de um produto, por exemplo, permitir que o governo colocasse no mercado e segurasse os preços", finaliza.