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Chico Alves


"Se estamos numa democracia, charge deve voltar para o lugar", diz Latuff

Carlos Latuff, chargista - Divulgação
Carlos Latuff, chargista Imagem: Divulgação
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

20/11/2019 04h03

O chargista Carlos Latuff é conhecido por usar o traço para denunciar situações de opressão vividas pelas populações mais pobres de todo o mundo. Em quase 30 anos de trabalho, enfrentou várias tentativas de censura, mas nenhuma com a repercussão causada pelo chilique do deputado Coronel Tadeu (PSL-SP), que ontem rasgou e tirou uma de suas obras da exposição que está sendo realizada no Congresso para marcar o Mês da Consciência Negra.

No desenho, um jovem negro, vítima de extermínio, jaz no chão, algemado e vestindo a camisa com a bandeira brasileira estampada, enquanto um policial militar se afasta, com arma na mão.

Para o deputado, a charge exposta desrespeitava a categoria dos policiais. Por isso resolveu o problema na marra. "Ele pode achar o que quiser", disse Latuff, em entrevista à coluna. "O que não se pode é impedir que as pessoas tirem as suas conclusões, retirando a charge da exposição".

Para o chargista, o desenho deve voltar o mais rápido possível para o seu lugar na exposição do Congresso e apela ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para que interceda. "Se estamos mesmo em uma democracia, que isso não seja admitido".

Depois do episódio, vários internautas solidários a Latuff passaram a postar nas redes sociais a imagem que o deputado paulista quis censurar. "Toda vez que alguém tenta censurar uma charge, está dizendo: esse desenho vocês não podem ver. Aí mesmo é que elas vão querer ver", acredita o artista.

UOL - Como você recebeu a atitude do deputado Coronel Tadeu?

Carlos Latuff - A atitude não me surpreendeu, até porque denuncio a violência policial desde 1997. Nesse período já sofri diversas tentativas de censura, já fui detido três vezes por fazer grafites contra a violência policial, já tive um outdoor censurado em 2008 no Rio de Janeiro que tratava do mesmo tema. Essa atitude de um policial tentando impedir que as pessoas vejam uma imagem alusiva à violência policial não é novidade para mim.

A diferença é que Coronel Tadeu hoje é um deputado e fez esse ataque no Congresso.

Sim, isso torna tudo pior. O Congresso Nacional é uma Casa dedicada à dialética, às opiniões diversas, ao debate, à crítica. Quando ele tem uma atitude típica de um policial militar truculento nos faz pensar qual era a atitude deles nas ruas enquanto policial. Se é capaz de reagir com violência contra uma charge, imagine o que poderia fazer nas ruas. Acho que quando um parlamentar dentro de uma Casa que deveria ser de debate impede o debate através da censura violenta, bruta, isso é muito grave.

Com essa atitude, o coronel-parlamentar passou recibo. A charge trata da violência policial, mostra um jovem negro caído e um policial, por conta das tantas mortes que já foram e são registradas de jovens negros e pobres pela polícia. Isso lançado na semana da consciência negra. Aí vem um policial militar branco que vai lá e quebra. Ele comprovou o ponto de vista expresso na charge. Podemos classificar o ato do coronel-deputado como violência policial, sem dúvida nenhuma.

O segundo ponto é saber se o Congresso Nacional vai se dobrar diante dessa truculência e vai impedir que a charge retorne ao corredor onde acontecia a exposição artística sobre o Mês da Consciência Negra. É preciso saber se o deputado Rodrigo Maia vai se dobrar a essa tentativa de censura truculenta ou vai retornar a charge à exposição do Congresso, que deve ser o palco de debates. Não se pode admitir que uma atitude violenta e arbitrária dessa intimide os parlamentares e a Casa. A charge tem que retornar e ficar lá o tempo que for necessário.

O deputado justificou a ação dizendo que a charge era antipolícia. O que acha desse argumento?

Ele pode justificar o que quiser, cada um tem a sua opinião. Essa é a questão. A charge vai suscitar diversas opiniões contra e a favor. O que não se pode é impedir que as pessoas tirem as suas conclusões, retirando a charge da exposição. O problema da censura é esse, não é opinião contrária ou a favor. O problema da censura é nenhuma opinião. Se você destrói a charge, destrói a possibilidade do debate, da liberdade de expressão e por conseguinte a democracia. O atentado desse parlamentar contra aquele painel não é só o atentado contra o desenho, mas um atentado contra a liberdade de expressão dentro de uma Casa Legislativa e um atentado contra a democracia.

Essa atitude do coronel-deputado mostrou três coisas básicas. Primeiro, a polícia é realmente truculenta. Segundo, há um genocídio contra os pretos e os pobres. Terceiro, o Brasil é um país racista.

Pensa em tomar alguma medida judicial?

O mais importante é que a charge volte ao seu lugar de origem, isso é o mais importante. Esse tipo de censura não se pode ser tolerado em uma democracia. A não ser que não estejamos mais em uma democracia. Então, vamos deixar isso claro: não estamos mais numa democracia. Aí a gente atesta para todos os fins que estamos vivendo numa ditadura e que um policial qualquer chega no Congresso e, se não gostar de determinada charge, quebra, joga fora e está tudo certo. Se estamos mesmo em uma democracia, que isso não seja admitido.

Estou vindo de uma situação de censura. Em setembro, em Porto Alegre, foi realizada uma exposição de charges sobre a ameaça que a democracia do Brasil está sofrendo. Foi organizada para ser exposta na Câmara de Vereadores e a presidente da Casa, Monica Leal, do PP, mandou proibir e retirar as charges. Por força de uma ação na Justiça, a exposição voltou.

Ou seja, por causa da conjuntura, por termos um presidente que compartilha dos mesmos ideais fascistóides, aparecem pessoas que se sentem empoderadas para tomar esse tipo de atitude, que nada tem a ver com sistema democrático. Minhas charges são censuradas em lugares como a Turquia ou o Egito, onde as pessoas podem ser presas por levar um desenho meu a uma manifestação ou publicar nas redes sociais. Tanto a Turquia quanto o Egito não são regimes que podemos considerar como democráticos.

Pode parecer infantil a questão da charge, mas ela é um termômetro que indica que grau de democracia pensamos ter. Se é que temos, de fato.

Viu que nas redes sociais muita gente de postou a charge? O que acha disso?

Acho ótimo. É um resultado natural de toda a tentativa de censura. Nelson Rodrigues costumava dizer que toda a unanimidade é burra, digo que toda a censura é burra, todo o censor é estúpido. Se essa exposição não tivesse sofrido esse ataque, teria pouca ou nenhuma repercussão, seria mais uma mostra de artes. No momento que ocorre essa manifestação violenta, só serviu para pautar a imprensa e os debates a nível nacional sobre censura e sobre racismo, justamente no Mês da Consciência Negra. Toda vez que alguém tenta censurar uma charge, está dizendo: esse desenho vocês não podem ver. Aí mesmo é que elas vão querer ver.

Infelizmente, desde a ascensão de Bolsonaro à presidência temos observado a multiplicação das tentativas de censura. Cada vez mais, pessoas truculentas, sem compromisso com a democracia e com a liberdade de expressão vão botar as manguinhas de fora. Ai, é preciso que nós, como artistas, ou você, como jornalista, enfrentemos e não aceitemos esse tipo de atitude. Por parte de ninguém.

Chico Alves