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Chico Alves


Bebianno: "Represália do presidente à Folha permite pedido de impeachment"

Filiação de Gustavo Bebianno ao PSDB - Divulgação
Filiação de Gustavo Bebianno ao PSDB Imagem: Divulgação
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

02/12/2019 04h00

Ex-ministro do governo de Jair Bolsonaro e hoje desafeto do presidente, Gustavo Bebianno se filiou ontem ao PSDB e assumiu a presidência do diretório municipal do Rio de Janeiro. A cerimônia de filiação contou com a presença do governador tucano João Doria. Bebianno aproveitou a oportunidade para repetir um alerta que vem fazendo há tempos. "O momento político que nós atravessamos hoje é grave, gravíssimo, nossa democracia está em risco", disse. "Tudo que o presidente quer é um pretexto para a adoção de medidas autoritárias".

Depois da solenidade, o ex-ministro concedeu entrevista à coluna em que detalhou os motivos da preocupação. Para Bebianno, o fato de o presidente não ter incluído o jornal Folha de S. Paulo na licitação dos veículos de comunicação que serão comprados pelo governo e as ameaças feitas a seus anunciantes são o suficiente para iniciar um processo de impedimento de Bolsonaro.

UOL - Ao assumir o PSDB do Rio, o sr. tem planos de escala local ou nacional?

Apesar de ter assumido a presidência municipal do partido, meu objetivo é muito mais amplo, é nacional. Acho que hoje, infelizmente, o Brasil vive um momento crítico de risco à democracia. O país passou quase 14 anos gerido pelo PT e em alguns momentos o partido teve um discurso muito duro no sentido de flertar com uma permanência eterna no poder, tanto quanto permitiu falas desastrosas sob o ponto de vista democrático.

Por outro lado, agora a gente tem o mesmo tipo de postura patrocinada pelo próprio presidente da República. Com sinal invertido, Lula e Bolsonaro são exatamente a mesma coisa, e eu acredito que o Brasil seja muito mais do que isso. O Brasil é muito mais amplo, capaz de abraçar todos os seus filhos, com diferentes posicionamentos e ideais políticos.

O país deveria ter no presidente o principal patrocinador dessa harmonia, mas encontra uma pessoa com fala incendiária. Acredito que haja uma avenida entre esses dois extremos, Jair Bolsonaro e Lula, que representa paz, tranquilidade, serenidade, respeito às instituições, para que o Brasil possa caminhar de maneira pacífica e, acima de tudo, democrática.

Nesse contexto, como viu o boicote determinado pelo presidente ao jornal Folha de S. Paulo e as ameaças a seus anunciantes?

Vejo isso como um ato de retrocesso, um absurdo, que, na minha opinião, abre uma porta até para um pedido de impeachment do presidente, uma vez que ele afronta a liberdade de imprensa defendida pela Constituição. Por consequência, afronta a própria democracia, uma vez que sem imprensa livre não há democracia. Mais que uma retórica da minha parte em relação a isso, eu falo como alguém que ama imprensa.

Eu passei os melhores anos da minha vida profissional dentro do Jornal do Brasil, em sua época áurea. Ali, amadureci muito e aprendi o quanto é importante a liberdade de imprensa.

O presidente tem todo o direito de não morrer de amores pela Folha, assim como a Folha não morre de amores por ele. Até acredito que em alguns momentos haja exageros ou equívocos, como pode haver em qualquer veículo de imprensa. Mas o presidente não pode achar que ele é o imperador do Brasil e querer pessoalizar esse tipo de relação. A Folha de S. Paulo, pelo tempo de existência que tem e pela representatividade que tem, não pode ser discriminada dessa forma por uma questão pessoal do presidente. Se for assim, daqui a pouco só haverá veículos de comunicação chapa branca.

O sr. avalia que nesse episódio o presidente recebeu resposta à altura?

Destaco o artigo da Vera Magalhães, no Estado de S. Paulo, em que ela chama a atenção de todas as pessoas de todos os segmentos para esse tipo de absurdo. Ela fala para a classe política, para classe empresarial e fala também para os veículos de imprensa, que até aqui me parece que estão se manifestando de uma forma muito tímida. Assim como houve uma reação imediata à fala absurda do filho do presidente sobre AI-5, a mesma reação é necessária contra esse tipo de atitude, que, além de tudo, revela um nível de mesquinhez inimaginável.

Não acha que com esse tipo de ameaça o governo passa a representar para a liberdade de imprensa algo muito mais grave do que o PT já foi?

O PT falava sobre o controle social da imprensa, pressionou muitas vezes veículos de imprensa contra seus jornalistas e cronistas. Isso tem acontecido também atualmente. Temos notícias da Secom agindo como agia o PT. Mas agora me parece que o presidente foi além do próprio PT ao fazer ameaças veladas não só diretamente aos veículos de comunicação, quanto a seus anunciantes. É um absurdo, inaceitável. Merece uma reação à altura.

O sr. acredita que o temor expressado pelo presidente contra manifestações violentas tem sentido?

Eu não vejo isso em lugar algum, não vejo indício de uma só manifestação nesse sentido. Agora, quero lembrar o seguinte: em 2013, o Brasil testemunhou manifestações muito contundentes e muito violentas em alguns momentos. Quebradeira de bancos, concessionárias de automóveis... e o país superou aquele momento de inflamação política, passou por cima, os ânimos se arrefeceram, manifestações gigantescas ocorreram depois desse momento mais crítico e tudo ocorreu de forma democrática, dentro dos limites e da lei.

Me parece que hoje, se houver dez por cento do que houve em 2013, será pretexto para o governo adotar medidas autoritárias, e isso é muito preocupante. Lembro que naquela época o próprio deputado Jair Bolsonaro se manifestava contrariamente ao governo e incentivava as manifestações de rua. Agora ele não pode mudar de opinião, não pode achar que vai ser diferente só porque ele está no governo. Mas a situação é preocupante porque parece que tudo o que ele quer é um pretexto.

E quanto o ministro Paulo Guedes, que voltou a falar de AI-5?:

A impressão que eu tenho é que foi uma derrapada, um equívoco, um erro, que qualquer pessoa pode cometer. Uma infelicidade essa manifestação dele. Acho que Paulo Guedes representa hoje o principal segmento do governo, o único que tem funcionado, que tem um norte, e prefiro não acreditar que o Paulo Guedes tenha se deixado influenciar por esse tipo de pensamento.

A outra hipótese é que esse assunto esteja sendo tão ventilado no palácio que de alguma forma está sendo banalizado e entrando no inconsciente das pessoas. Talvez num ato falho ele tenhas deixado escapar o que costuma ouvir no palácio.

O sr. tem ótima desenvoltura na cúpula dos oficiais das Forças Armadas. Como acha que eles recebem essas falas sobre AI-5?

Tenho impressão de que não encontra eco, acho que existe uma reação negativa diante desse tipo de hipótese. Até porque esse núcleo militar já não confia mais no presidente da República. Esse cristal foi rachado por conta de atitudes do próprio presidente desde o início desse ano. A credibilidade dele está um pouco comprometida perante os militares. Eu espero que eles sejam muito firmes e não participem de qualquer tipo de aventura.

Chico Alves