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Chico Alves


Jornalista assassinado previu a morte e "pediu" poucos tiros

Jornalista assassinado prevê a própria morte

Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

13/02/2020 16h24

Assassinado com 12 tiros na noite de ontem, na cidade de Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, o jornalista Leonardo Veras anteviu que teria um fim trágico. Em depoimento dado aos jornalistas Bob Fernandes e João Wainer há dois anos, para um documentário patrocinado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), ele falou sobre o assunto com ar de naturalidade.

"Eu sempre peço que não seja tão violenta a minha morte", disse. "Que não seja com tantos disparos de fuzil". Veras acabou morto com 12 tiros, depois de ter a casa invadida por dois homens armados.

"Aqui, quando um pistoleiro quer te matar, ele vem na tua porta, manda você abrir e vai te dar os disparos. Espero que seja só de um disparo pra não estragar tanto a peça (referindo-se a si próprio)".

O jornalista era dono de um site que publicava notícias sobre segurança pública. Ele próprio investigava ações do tráfico na fronteira entre Pedro Juan Caballero, no Paraguai, e Ponta Porã. Ignacio Villalba, chefe de polícia de Amambay, cidade paraguaia, disse que tem muitas informações obre os assassinos e que o ataque foi provocado pelas matérias que o jornalista fazia sobre o crime organizado.

Um dos autores do documentário, o jornalista Bob Fernandes explica que a tensão naquela região é constante, mas depois da fuga de 76 detentos da prisão paraguaia, em janeiro, explodiu uma nova escalada de confrontos entre CV e PCC. "O Leo Veras é o 19º jornalista assinado naquela área. Fazer esse trabalho ali, entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, é uma coisa muito perigosa", diz o jornalista, que apresenta o canal Bob Fernandes, no YouTube.

Fernandes conta que a rotina no lugar é de terror. "Onze da noite some todo mundo, porque começa o desfile das SUVs do pessoal do narcotráfico que vão paras as casas noturnas... Agora, depois dessa fuga de janeiro, as coisas pioraram. O Veras estava muito tenso".

Chico Alves