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Chico Alves


No Rio, PM youtuber faz politica acusando coronel sem provas

Gabriel Monteiro, PM youtuber - reprodução Instagram
Gabriel Monteiro, PM youtuber Imagem: reprodução Instagram
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

07/03/2020 13h33

Depois do motim do Ceará, a perigosa onda de politização das polícias militares gera mais um episódio lamentável. Dessa vez, no Rio de Janeiro, onde um soldado mais conhecido por sua militância no MBL e em seu canal no YouTube do que por qualquer ação de segurança acusa sem provas o coronel Ibis Pereira, ex-comandante da PM fluminense, de conivência com o tráfico.

Por causa da acusação, o comando da corporação tirou de Monteiro a posse de arma e iniciou processo que pode levá-lo a ser expulso da corporação. Ele diz correr perigo, pois estaria sendo ameaçado por criminosos. A versão do PM youtuber é apoiada por parlamentares bolsonaristas e suas respectivas claques nas redes sociais. Outros policiais, no entanto, o acusam de mentir.

Vítima da "denúncia" sem provas de Monteiro, o coronel Ibis é reformado e conhecido por sua ligação com o PSOL. Já fez parte da equipe de Marcelo Freixo em campanhas eleitorais e é um defensor dos direitos humanos reconhecido por especialistas em segurança pública de todo o Brasil. Um de seus trabalhos sociais é feito em parceria com várias ONGs da Favela da Maré.

O simples fato de o oficial transitar livremente pela Maré sem ser incomodado por traficantes seria para Monteiro indício de parceria com o crime. O youtuber finge não saber a diferença entre o trabalho comunitário e uma operação policial.

Em um de seus inúmeros vídeos, Monteiro pergunta ao coronel como ele conseguia entrar na favela sem ser atacado por criminosos. Ibis, então, tenta argumentar e explica que ia conversar com jovens na sala de aula. Nesse momento, o PM youtuber rebate: "Coronel, vagabundo não fica na sala de aula". É isso: Monteiro acha impossível que haja alunos em uma sala de aula da Maré, pois ali todos seriam "vagabundos".

O roteiro da polêmica está claro: baseado no sucesso de seu canal, o soldado ativista de direita (sim, isso existe) cria uma marola para tentar comover parte de seus 2 milhões de seguidores e criar condições para uma candidatura nas próximas eleições. Escolheu como alvo um oficial identificado com a esquerda, ideal para animar seu público.

Em um dos vídeos mais recentes, Monteiro repete que está sob ameaça e que sem a farda e a arma ficará indefeso. Recebeu apoio de vários deputados do PSL, inclusive de Eduardo Bolsonaro. Parlamentares tentam marcar um encontro de Monteiro com o presidente. O apresentador de um programa sensacionalista de TV, Sikera Junior, identificado com os ideais bolsonaristas, abriu espaço para a defesa do PM youtuber.

O soldado está cedido ao gabinete do deputado estadual Filipe Poubel (PSL). Usa boa parte seu tempo para gravar vídeos no estilo do antigo Pânico na TV, em que faz abordagens constrangedoras para tentar colocar "esquerdistas" em contradição.

Por causa dessa atuação, em setembro passado teve seu desligamento da PM pedido pelo corregedor da corporação, que acabou entregando o cargo depois que o próprio secretário da PM, Rogério Figueiredo, intercedeu por ele.

Antes de pedir o boné, o corregedor opinou que Monteiro "ostenta uma ficha disciplinar extensa, demonstrando ineficiência no exercício da função e descompromisso com o serviço militar". Foi acusado de "desobediência hierárquica", com uso de palavras ofensivas contra a instituição em redes sociais, conduta irregular, ineficiência no cumprimento da função, além de faltas ao serviço para envolvimento em manifestações políticas do MBL. Apesar disso, foi mantido na corporação.

A acusação contra Ibis sobre a qual Monteiro não apresentou qualquer prova transformou-se em memes, que circulam nas redes sociais bolsonaristas, impulsionados por robôs. Quem não conhece os bons serviços prestados por Ibis à polícia e à defesa dos direitos humanos, não tem como diferenciar verdade de fake news.

Enquanto isso, Monteiro se mostra como policial heroico, que estaria sendo exposto ao risco por denunciar seus superiores. Chega a dizer que é o PM mais ameaçado do Rio de Janeiro. Entre os colegas de farda, porém, muitos dizem que a história não passa de farsa.

"Quanto às ameaças do Comando Vermelho, Soldado Gabriel, você representa tanto perigo para o crime organizado, quanto uma criança para um urso de pelúcia, ou menos", escreveu em sua página no Facebook o capitão reformado Ítalo do Couto Ferreira, que o desafiou a apresentar qualquer elemento para comprovar o que diz.

Nos últimos tempos, aprendemos que as fake news provocaram uma grave deformação na vida política brasileira. Quando a essa distorção se mistura a politização das polícias, o resultado não pode ser positivo. Se é que realmente funcionam, as instituições (nesse caso a PM do Rio de Janeiro), devem dar ao episódio uma resposta à altura.

Chico Alves