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Chico Alves


Em favela da zona Oeste do Rio, PM mata mais que coronavírus

Carro perfurado por tiros, na favela Vila Kennedy (RJ) - Reprodução de vídeo
Carro perfurado por tiros, na favela Vila Kennedy (RJ) Imagem: Reprodução de vídeo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

29/04/2020 12h05

O mundo inteiro está aterrorizado com o coronavirus, mas para moradores de alguns recantos do Rio de Janeiro a pandemia é mais um dos muitos perigos mortais que enfrentam no cotidiano. A tática implantada pelo governador Wilson Witzel (PSC), de operações de guerra contra o tráfico nas regiões pobres, resulta em muitas mortes. A ameaça continua mesmo durante o período de isolamento social.

Uma dessas comunidades é a Vila Kennedy, favela de 150 mil habitantes, localizada na zona Oeste da capital. Ali, duas incursões da PM realizadas nos últimos 15 dias deixaram oito mortos. Na relação oficial de vítimas fatais de covid-19 na mesma favela, atualizada há dois dias, consta uma morte pela doença.

Na Vila Kennedy, portanto, os moradores têm motivos para temer tanto o coronavirus quanto os confrontos provocados pelas ações descoordenadas da polícia, baseadas no confronto, sem o auxílio da inteligência.

O último banho de sangue ocorreu na madrugada de domingo, 26, quando a Polícia Militar fez incursão que deixou cinco mortos, entre eles um adolescente de 17 anos. As outras vítimas tinham entre 22 e 28 anos.

A alegação do comando da corporação, como sempre, é de que os soldados responderam à ofensiva de traficantes. "As equipes foram recebidas a tiros, gerando confrontos (sic)", diz a nota da PM. Se antes da pandemia já era difícil esclarecer homicídios ocorridos nessas circunstâncias, no atual momento ainda mais.

Na mesma Vila Kennedy, há 15 dias, uma outra ação da polícia deixou três mortos.

As duas operações foram feitas pelo 14° batalhão (Bangu). Segundo dados do próprio Instituto de Segurança Pública, do governo estadual, essa mesma unidade foi responsável por 40% dos homicídios ocorridos na sua área de atuação em 2020.

Uma taxa absurda, mesmo para os bárbaros índices de letalidade da PM no Rio: de acordo com o mesmo instituto, a policia causou 34% das mortes ocorridas este ano em toda a cidade.

Ao ser questionado, o comando da policia que mais mata no Brasil — no ano passado foram 1.810 vitimas no estado, um recorde — responde sempre alegando a ocorrência de confronto com o tráfico. No entanto, são muitos os moradores que garantem a inocência de seus familiares fuzilados.

O tráfico deve ser combatido com todo rigor, mas ao mesmo tempo com todos os recursos de inteligência para que a vida dos moradores não seja colocada em risco.

"Mesmo quando age num contexto de disputa de facções, a PM tem que contribuir para diminuir a matança", alerta em nota o Observatório da Segurança Pública, uma organização não-governamental que estuda o assunto. "Não podemos naturalizar ações do Estado que privilegiam a morte quando deveriam salvar vidas".

Enquanto boa parte dos brasileiros se fecha em casa para tentar manter-se vivo em meio à pandemia, moradores das 763 favelas cariocas, como a Vila Kennedy, sabem que nem em suas residências estão a salvo. Com todos os cuidados, o coronavirus fica do lado de fora, mas nada impede que uma bala de fuzil quebre o vidro da janela a qualquer momento

Chico Alves