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Chico Alves


Felipe Neto pede união contra fascismo, mas alguns "canceladores" resistem

O youtuber Felipe Neto em entrevista ao Roda Viva de 18 de maio de 2020 - Reprodução/TV Cultura
O youtuber Felipe Neto em entrevista ao Roda Viva de 18 de maio de 2020 Imagem: Reprodução/TV Cultura
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

19/05/2020 17h18

Para além do sucesso de audiência, a entrevista do youtuber Felipe Neto ao programa Roda Viva, ontem, teve o mérito de tratar de política de forma acessível a um público que normalmente não dá a mínima para o assunto. Não se trata apenas da linguagem usada pelo entrevistado, mas da raríssima disposição de exibir os próprios erros, reconhecê-los publicamente e mostrar como tenta evitá-los. Essa coragem de se mostrar sem se passar por infalível cativa adolescentes que normalmente estariam alheios ao tema da noite.

Por atrair a atenção dessa parcela do público, Neto já mereceria elogios. Mas ele ainda acrescentou a isso a defesa da democracia, o discurso contra a homofobia, o repúdio ao machismo.

Achincalhado pela direita desde que começou a rever sua posição política, o youtuber passou a receber elogios de pessoas que identificam o presidente Jair Bolsonaro como ameaça antidemocrática. Mesmo essa turma, porém, não fecha completamente com ele.

Nos comentários sobre o programa, dividiram-se em dois grupos: de um lado, os que ficaram irritados por ele classificar o impeachment de Dilma Rousseff como golpe, de outro os que detestaram que tenha se definido politicamente num espectro entre Ciro Gomes e João Amoêdo.

Para esses dois núcleos, a convocação de Felipe Neto pela união contra o fascismo e o autoritarismo ficou em segundo plano. Parece que só admitem fazer política ao lado de quem preencha todos os requisitos estabelecidos por eles em uma extensa lista. Não atendeu a uma das exigências, está fora.

Ninguém é obrigado a gostar do youtuber ou concordar com ele completamente. Divergências e críticas são saudáveis. Para os que acreditam em ameaça autoritária, porém, descartar nesse momento o convite à união porque ele deixou de cumprir uma ou duas condições é insensatez.

Perdem a oportunidade de trazer para a política 38 milhões de seguidores do YouTube ou 11 milhões de seguidores do Twitter que se não fosse por Felipe Neto nunca teriam parado para pensar no significado da palavra "fascismo".

Há quem observe que levar neófitos à arena política não é, por si só, algo salutar, já que o bolsonarismo atraiu vários deles com as visões mais disparatadas e sem qualquer embasamento teórico. Deu no que deu. Quem diz isso teria razão, se na entrevista Felipe Neto não tivesse deixado claro que para exercer a cidadania é preciso estudar, se preparar, ouvir os mais experientes, como ele fez.

O fato do youtuber ter sido alçado ao posto de "comentarista político" foi encarado por alguns como termômetro do quanto está desvalorizada a atividade partidária. O próprio Neto admitiu isso com todas as letras. Mas numa época em que os campeões de audiência das redes sociais se omitem ou fazem eco à barbárie, é bom ter um peso pesado do meio que fale algo diferente. Desde que tomados os cuidados para que ele não se transforme em oráculo, está valendo.

Afinal, a política não deveria ser terreno somente dos políticos ou dos chamados especialistas, mas de todos.

Chico Alves