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Chico Alves

Um vídeo mais comprometedor para Bolsonaro que o da reunião ministerial

22.mai.2020 - Aos gritos e palavrões, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) concede entrevista em frente ao Palácio da Alvorada - Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
22.mai.2020 - Aos gritos e palavrões, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) concede entrevista em frente ao Palácio da Alvorada Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

23/05/2020 09h36

O vídeo da reunião ministerial realizada em 22 de abril realmente não trouxe a prova final de interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal, mas serviu para derrubar o álibi de que ele reclamava do aparato de segurança do Gabinete de Segurança Institucional. A confirmação da acusação de Sergio Moro acabou aparecendo em outro vídeo. À noite, no cercadinho do Alvorada, Bolsonaro admitiu com todas as letras que fez o pedido de interferência na PF ao então ministro da Justiça.

Com expressão tensa, o presidente deixou escapar aos jornalistas que estava preocupado com as investigações contra seus filhos, não com a segurança deles: "O tempo todo vivendo sob tensão, com a possibilidade de busca e apreensão na casa de filho meu onde provas seriam plantadas. Levantei... Graças a Deus tenho amigos policiais civis, policiais militares do Rio de Janeiro... Que estava sendo armado pra cima de mim".

Se todo investigado ou parente de investigado puder interferir na polícia por estar com medo de "armação", a punição de criminosos ficará inviabilizada.

Outro ponto grave é que o presidente admite ter usado informações privilegiadas repassadas por policiais civis e militares do Rio de Janeiro.

Em seguida relata o pedido feito ao então ministro da Justiça:"Moro, eu não quero que me blinde, mas você tem a missão de não deixar eu ser chantageado. Nunca tive sucesso pra nada. É obrigação dele me defender. Não é me defender de corrupção, de dinheiro encontrado no exterior, não. É defender o presidente para que possa trabalhar, possa ter paz".

Sergio Moro postou no Twitter o vídeo da "confissão" feita por Bolsonaro com o seguinte comentário: "Não cabe também ao Ministro da Justiça obstruir investigações da Justiça Estadual, ainda que envolvam supostos crimes dos filhos do Presidente. As únicas buscas da Justiça Estadual que conheço deram-se sobre um filho e um amigo em dezembro de 2019 e não cabia a mim impedir".

Resta saber quem são os policiais que repassaram informações sigilosas a Bolsonaro. Isso deveria ser objeto de nova investigação.

Além disso, a essa altura alguém já deve estar alertando o presidente que ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.