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Chico Alves


Os trapalhões do Ministério da Saúde bagunçam as estatísticas da covid-19

Renato Aragão, Dedé Santana  e Roberto Guilherme, em cena de Os Trapalhões - Reprodução YouTube
Renato Aragão, Dedé Santana e Roberto Guilherme, em cena de Os Trapalhões Imagem: Reprodução YouTube
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

08/06/2020 09h00

Nos tempos jurássicos da TV brasileira, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, que formavam Os Trapalhões, volta e meia protagonizavam cenas cômicas em algum quartel fictício do Exército. O Sargento Pincel, de fisionomia séria, fazia o possível para manter a ordem. Diante da indisciplina de seus comandados, acabava sucumbindo à esculhambação. Frequentemente, Pincel chegava ao fim do quadro com a cara lambuzada de torta ou com o corpo coberto de farinha de trigo.

A tropa cômica de Renato Aragão parece ser a grande inspiração para o grupo de militares que ocupa atualmente o Ministério da Saúde.

É inacreditável a barafunda que Eduardo Pazuello e seus colegas de farda estão aprontando na pasta. Em poucos dias conseguiram fazer com que os dados epidemiológicos do Brasil, cuja qualidade sempre teve reconhecimento internacional, caíssem no descrédito.

A grande diferença destes trapalhões para os comandados do Sargento Pincel é que os atuais não têm a mínima graça. Pelo contrário.

Além de não fazer praticamente nada para ajudar estados e municípios na luta contra o coronavírus, os "interventores" do Ministério da Saúde conseguem ainda desarrumar o que estava funcionando. O desencontro no número de mortos na pandemia, ocorrido na noite de ontem, faz o Brasil descer vários degraus no monitoramento da doença, tão necessário para guiar as decisões dos epidemiologistas.

Primeiro, informaram a totalização de 1.382 mortes e depois mudaram para 525. Uma incrível diferença de 857 vítimas, sem uma explicação plausível para a discrepância.

De sexta-feira para cá, Pazuello virou o ministério de ponta-cabeça. Convidou para auxiliá-lo um empresário do ramo de cursos de inglês e lojas de produtos naturais. Carlos Wizard deu duas ou três declarações amalucadas que atraíram a ira dos secretários de saúde de todo país. Disse que iria recontar os mortos por covid-19 por suspeitar que autoridades estaduais estavam inflando os números, anunciou que ampliaria o uso da cloroquina e deu pitacos sobre confrontamento ideológico.

Pegou tão mal que, ante a chiadeira de governadores e a ameaça de boicote a seus negócios, Wizard anunciou ontem a desistência do cargo na equipe de Pazuello.

Na mesma sexta-feira em que o empresário falou tais besteiras, os militares do Ministério da Saúde empenhavam-se não em aperfeiçoar o apoio aos médicos e enfermeiros que encaram a pandemia, mas estavam preocupados em evitar que as estatísticas atualizadas fossem apresentadas no Jornal Nacional. Fizeram sair do ar por algumas horas o site que contabiliza infectados e mortos, o que resultou na exclusão temporária do banco de dados da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos, que centraliza as informações mundiais.

A situação toda é vexaminosa. Porém, mais grave que o vexame é constatar que os trapalhões de Pazuello abrem ainda mais espaço para o avanço do coronavírus, que a cada dia multiplica exponencialmente as vítimas no país. Nem Sargento Pincel faria pior.

Chico Alves