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Ricardo Salles é o homem certo no lugar certo

Retrato do Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles - Lucas Seixas/UOL
Retrato do Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles Imagem: Lucas Seixas/UOL
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

13/10/2020 17h36

Seja no meio da floresta amazônica, com um uniforme fake, ou em uma sessão virtual do Senado, a face de pedra do ministro Ricardo Salles não muda. O sorriso é nulo, o cabelo é meticulosamente esculpido, a voz é monótona. Nenhum ataque à política ambiental do país faz o chefão da pasta do Meio Ambiente mudar seu padrão.

Investido dessa armadura, Salles joga afirmações ao vento, sem dar a mínima se vai ser contestado por ambientalistas ou cientistas.

Renega dados do Inpe, instituto reconhecido internacionalmente por sua eficiência; induz a redução drástica da defesa de manguezais e restingas; faz praticamente desaparecer a cobrança de multas ambientais.

Defende garimpo em terra indígena, exalta acusados de grilagem, quer "bois bombeiros" no Pantanal contra os incêndios, como sua colega de governo, Tereza Cristina.

Fala e faz tudo isso sem demonstrar qualquer emoção. Resiste impávido às críticas por ter pregado "passar a boiada" da desregulamentação enquanto a imprensa estivesse preocupada com a covid-19. A péssima repercussão da fala infeliz na reunião ministerial parece não ter surtido qualquer efeito sobre ele.

Não é afetado pelas reclamações de chefes de Estado ou de investidores de fundos trilionários internacionais, preocupados com as florestas brasileiras. Segue em frente, com seus óculos de aros grossos, a desempenhar a missão a que se propôs.

Na última intervenção, foi à Chapada dos Veadeiros para olhar de perto o incêndio que por vários dias consumiu o bioma local. Acabou sendo alvo de protestos dos moradores por recomendar usar retardante, um tipo de composto químico prejudicial à natureza. Fugindo ao seu estilo impessoal, Salles respondeu que não iria se preocupar com as críticas de "maconheiros".

Apoiado por homens poderosos, para quem a fauna e a flora são apenas empecilhos para aumentarem seus lucros, o ministro do Meio Ambiente continua a todo vapor, sem hesitar um instante. Não houve até hoje organização da sociedade civil que o fizesse parar.

Ricardo Salles é o homem certo para dar conta da depredação ambiental do país. Enquanto as matas são queimadas e derrubadas, ele não move um músculo da face para expressar consternação.

Pelo que se sabe, inclusive, acende um charuto ao fim de cada dia, para saborear melhor a sensação do dever cumprido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.