PUBLICIDADE
Topo

Chico Alves

Festival de besteiras assola o Brasil de Jair Bolsonaro

Jair Bolsonaro e o general Eduardo Pazuello - Reprodução/Youtube
Jair Bolsonaro e o general Eduardo Pazuello Imagem: Reprodução/Youtube
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

23/10/2020 09h32

Como se sabe, obras imortais são raridade. Uma dessas preciosidades, nascida sem a pretensão de ficar para a posteridade, é o Febeapá - Festival de Besteiras que Assola o País. A trilogia escrita na década de 1960 pelo cronista carioca Sérgio Porto, encarnado no heterônimo de Stanislaw Ponte Preta, até hoje é citada em momentos cruciais da história brasileira.

Os textos de Sérgio abordam as baboseiras produzidas no mundo político de quase 60 anos atrás. Poderiam, portanto, ser desinteressantes para leitores de hoje. Porém, o talento do cronista, que maneja o humor com rara inteligência, transmite a seus leitores um tipo de ironia que mantém a leitura saborosa.

Além disso, os temas abordados nos livros voltaram com tudo à rotina do país. As besteiras a que Sérgio Porto se referia eram principalmente as motivadas pelo raciocínio tacanho das mentes reacionárias de então. Exatamente como acontece agora.

Logo no início do primeiro livro, o autor relata que passou a prestar mais atenção ao Febeapá depois que uma inspetora de ensino do interior de São Paulo, ao saber que o filho tirou zero em uma prova de matemática, embora reconhecendo que o rebento era um "debilóide", "não vacilou em apontar às autoridades o professor da criança como perigoso comunista". Como se vê, tema atualíssimo.

Em outro trecho, conta que na cidade mineira de Mariana "um delegado de polícia proibiu casais de sentarem juntos na única praça namorável da cidade e baixou portaria dizendo que moça só poderia ir ao cinema com atestado dos pais". O Brasil da época da Ditadura Militar era cheio de personagens assim. O de hoje também.

A sequência de bobagens é fenomenal. Tem o prefeito de uma cidade paraibana que nomeou o cavalo como funcionário público, o projeto do deputado que queria espalhar um milhão de portugueses na selva amazônica e a ação da polícia que apreendeu na feira do livro um exemplar da encíclica do Papa João XXIII por considerá-la subversiva.

Um dos pontos altos do Febeapá é a seleção de frases das autoridades. Todas reais, mas tão absurdas que custa-se a acreditar que foram ditas.

Há muitas pérolas, como a fala do ministro da Saúde, dr. Raimundo de Brito: "Para aliviar a despesa do Tesouro Nacional devem morrer de fome dez por cento dos funcionários públicos, nem que para isso se inclua meu filho".

Ou a explicação do deputado Arnaldo Cerdeira para os constantes aumentos na remuneração dos parlamentares: "Quando eu entrei para a política, meus charutos custavam trezentos réis, agora estão custando mil e duzentos cruzeiros cada um".

Quanto à produção de frases bizarras, o país está especialmente fértil nas últimas semanas. Por isso a coluna invoca o Febeapá de Stanislaw Ponte Preta.

Para provar a imortalidade da obra e também da matéria-prima que serviu de base ao autor, aí vai uma pequena amostra das besteiras desses tempos bolsonarianos. Se estivesse vivo, Sérgio Porto iria se fartar:

- "É bom ser pária" (Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores, ao falar sobre o isolamento do Brasil no cenário mundial, em mensagem aos novos diplomatas)

- "Não acredito que a vacina chinesa transmita segurança para a população pela sua origem" (Presidente Jair Bolsonaro, ao comentar o motivo pelo qual o Ministério da Saúde não deve comprar a CoronaVac, sem saber que a vacina de Oxford, já comprada pelo governo federal, tem componentes vindos da China)

- "A população já está por demais inalada por discursos de terrorismo" (Presidente Bolsonaro, referindo-se ao clima de apreensão por causa da pandemia de coronavírus)

- "Senhores, é simples assim: um manda e o outro obedece" (Ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, que foi desautorizado de forma humilhante pelo presidente, explicando sua posição e esquecendo-se da regra militar de que ordem absurda não se cumpre)

- "Enquanto não vierem com solução melhor, prefiro esse imposto de merda" (Paulo Guedes, ministro da Economia, sobre a nova versão da CPMF, sem se dar conta que o principal responsável por soluções para a crise econômica deveria ser ele próprio)

- "Num ato de impulso, protegi o dinheiro do pagamento das pessoas que trabalham comigo" (Senador Chico Rodrigues (DEM-RR), alvo de operação da Polícia Federal contra desvio de recursos da Saúde, tentando explicar por qual motivo enfiou R$ 35 mil na cueca).

- "Talvez eles sejam mais resistentes do que a gente porque eles...eles convivem o tempo todo nas ruas, não têm como tomar banho todos os dias etc. e tal" (Celso Russomano, candidato do Republicanos a prefeito de São Paulo, tentando explicar porque não houve número expressivo de casos de covid-19 entre moradores de rua)

- "O gráfico da apresentação de hoje era meramente ilustrativo" (Marcos Pontes, ministro da Ciência e Tecnologia, tentando explicar o uso de um gráfico que não ilustrava nada, em apresentação de remédio sem comprovação científica para tratamento do coronavírus).

Como se vê, o momento atual tem muitas semelhanças com o tempo do Febeapá original, seja pelo lado dramático, seja pelo ridículo.

Mas o cenário em que Sérgio Porto escreveu suas crônicas tem uma vantagem indiscutível: já ficou no passado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.