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Chico Alves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Mario Frias é inculto e dedo-duro de Bolsonaro, diz primo de secretário

Mário Frias e Raul Milliet - reprodução do YouTube e divulgação
Mário Frias e Raul Milliet Imagem: reprodução do YouTube e divulgação
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

20/04/2021 04h00

Entre os vários críticos da gestão de Mario Frias à frente da Secretaria Especial de Cultura do governo federal, um dos mais contundentes é alguém do mesmo sangue. O historiador Raul Milliet, de 69 anos, é primo em segundo grau do secretário e desde o início da gestão de Frias não tem palavras agradáveis para se referir ao parente. "Inculto", "folgado" e "bajulador" são algumas delas.

Depois da notícia divulgada há dias na coluna Painel, da Folha de S. Paulo, de que radicais de direita estão municiando o secretário com dossiês que identificam funcionários ligados à esquerda para que sejam afastados, Milliet disse à coluna que acrescentou um adjetivo à lista: "dedo-duro".

As críticas ao primo começaram em maio de 2020, quando ele enviou uma carta ao secretário em que o chama de "cúmplice de um psicopata com perfil genocida". Segundo Milliet, Frias respondeu com uma mensagem em tom cordial.

O historiador foi militante de esquerda contra a ditadura militar. Nessa entrevista, cita um motivo especial para lamentar o papel do primo.

"Uma coisa que o tio-avô dele, João Saldanha, criticava muito: o dedo-duro, o alcaguete. É justamente o papel que ele está fazendo agora", define Milliet, citando o memorável jornalista, militante comunista e treinador de futebol.

UOL - O que acha da circulação de dossiês que "denunciam" funcionários ligados ao PT na Secretaria Especial de Cultura? Como avalia a responsabilidade de Mario Frias nesse caso?

Raul Milliet - Ele recebe esse tipo de dossiê e o acolhe. Absorve as informações e isso passa a fazer parte dos objetivos imediatos, de médio e longo prazo da gestão. Isso é absurdo.

Ele é um pau mandado de primeira ordem. Foi lá para ganhar salário, faz o que puder para bajular Bolsonaro e o filho, Eduardo.

É folgado, mau ator. Tão incompetente que não sabe o que está censurando. É inculto, folgado, ficou bajulando a todos para ter esse cargo.

Qual a gravidade desse episódio?

A gravidade é enorme. Uma coisa que o tio-avô dele, João Saldanha, criticava: o dedo-duro, o alcaguete. É justamente o papel que ele está fazendo agora, mesmo sendo sobrinho-neto de João Saldanha.

Está se transformando em um dedo-duro, mas um dedo-duro tão idiota que não percebe que está sendo reiteradas vezes usado pela ideologia que domina esse governo

O sr. acredita que ele não compartilha das mesmas ideias?

Ele não tem capacidade, não consegue entender o que foi o golpe de 64, não sabe o que foi o nazifascismo, ele tem uma visão acrítica disso tudo.

Pior ainda para uma pessoa que está à frente de um órgão ligado à cultura.

Como militante de esquerda que atuou contra a ditadura militar, como vê um primo envolvido em notícias de patrulhamento a funcionários de esquerda, como aconteceu no período de exceção?

Fico enojado vendo o papel dele. Procuro nem acompanhar, para evitar torrar minha paciência. Essas notícias revelam uma característica deletéria.

Ele vem de um lado da família que majoritariamente, ou boa parte, votou sempre em centro-direita e direita. Isso é da vida. Mas aí vem um cidadão que se diz a favor da tortura, fala que a ditadura tinha que ter matado 30 mil e aí esse rapaz passa a apoiar tudo dele.

No início da pandemia, esse Mario Frias chegou a mandar as pessoas filmarem os hospitais para provar que não havia ninguém lá dentro. O que posso dizer de uma pessoa assim?

Como analisa a gestão dele na Secretaria Especial de Cultura?

Ele tranca a Lei Rouanet, impede o fluxo da Ancine. O clima na Casa de Rui Barbosa está horroroso. Está segurando a Lei Aldir Blanc. Talvez por pressão do Paulo Guedes, não está abrindo os recursos mínimos que a lei possibilita.

Recebi reclamações de artistas sobre a Lei Rouanet. Se compararmos as gestões anteriores com a atual veremos a diferença de projetos concedidos.

É preciso também ver como está a Cinemateca de São Paulo. É a base de apoio de todo acervo do país, 200 mil rolos de filmes guardados desde a década de 20, que já utilizei para fazer pesquisas. Aquilo não se sabe como está sendo gerido. Ele não sabe o que está fazendo.

Acha que as críticas podem fazer Mario Frias mudar os caminhos de sua gestão?

Não muda. Ele ficou sem profissão. Tentou ser ator, não conseguiu. Só conseguiu ser ator de terceiro plano. A Regina Duarte jogou na lata de lixo uma biografia (ao aceitar o cargo de secretária de Cultura), porque ela tinha uma biografia. Atriz de peso. Ele não tem o que jogar fora.

Não conseguiu ser ator, tentou fazer uma banda de rock que eu nem me lembro o nome.