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Chico Alves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Alessandro Vieira sobre negacionistas: 'Podem ser doidos, mas não bestas'

7.fev.2019 - Senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) durante sessão no plenário - Pedro França/Agência Senado
7.fev.2019 - Senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) durante sessão no plenário Imagem: Pedro França/Agência Senado
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

31/05/2021 04h00

Com intervenções objetivas e sempre baseadas em especialistas, o senador Alessandro Vieira (Cidadania - SE) tem se destacado na CPI da Covid. Ele confronta os dados amalucados de depoentes com as constatações científicas que reúne a cada sessão. Quase sempre, Vieira consegue revelar as mentiras ditas na comissão.

O problema é que as teses sem base científica são defendidas não apenas por representantes do Executivo, que estão ali na condição de testemunha, mas também pelos senadores governistas que integram a CPI. "Tem alguns que vou preferir não citar nomes, mas eles são óbvios, que fazem uso da desinformação de uma forma intencional, deliberada", disse Vieira à coluna.

Amanhã, a comissão terá pela frente a médica Nise Yamaguchi, que, segundo depoentes anteriores, teria sugerido ao governo mudar a bula da hidroxicloroquina para incluir a indicação para tratamento da covid-19. Nise é defensora do chamado tratamento precoce, que cientistas renomados já disseram que não existe.

"Talvez a gente esteja lidando com gente doida, mas besta, não", define o senador. "Eles tentam a todo custo tirar o foco e arregimentar um apoio grande na classe médica, misturando o desvio de uma política pública sem base na ciência com a autonomia profissional do médico".

Nessa entrevista, ele diz o que se pode esperar de resultados efetivos da CPI, que virou programa obrigatório nas tardes de muitos brasileiros.

UOL - O sr. fica surpreso ao ver senadores a seu lado defendendo remédio ineficaz para a covid-19?

Alessandro Vieira - Talvez tenha sido o momento mais claro de ver a sociedade representada no Senado. Tem ali aquela fração da sociedade que efetivamente acredita naquelas loucuras de WhatsApp.

O senador Heinze faz esse papel de uma forma muito evidente, ele insiste em estudos e casos que a ciência já avaliou e descartou, mas ele persiste baseado sempre nas mesmas narrativas das bolhas de desinformação da internet.

Tem alguns outros que vou preferir não citar nomes, mas eles são óbvios, que fazem uso da desinformação de uma forma intencional, deliberada. São pessoas que sabem que estão apresentando vídeos fora de contexto ou dados que não correspondem à verdade, isso para tentar confundir o jogo e proteger o presidente da República.

As duas condutas são deploráveis. A gente temque criar algum mecanismo na CPI que a gente não conseguiu ainda para que esse confronto não fique a cargo de um ou outro senador, mas que seja institucional. É muito importante para o Brasil.

O fato de o negacionismo e a desinformação serem compartilhados por senadores o surpreendeu?

Nunca fui político, tenho apenas dois anos nisso. Mas dentro do que eu vejo na política, a má qualidade não me surpreende. Eu fico um pouco surpreso quando eu vejo uma médica como a doutora Mayra (Pinheiro), com trinta e tantos anos de carreira, persistindo na desinformação e que quando é confrontada reconhece que sabe que existem estudos científicos de alto nível que comprovam que a hidroxicloroquina não é efetiva, mas continua mantendo a tese conspiratória e a mentira.

Ali me preocupa até mais. A gente sabe que a fala do político, ainda que tenha um alcance gigantesco, não tem lá essa credibilidade todas. Mas um médico, eu ainda não consegui encontrar a explicação sobre o que leva uma pessoa a fazer isso.

A convocação de Nise Yamaguchi não representa dar palanque para defensores de tratamentos já negados pelas entidades internacionais?

A gente não tem como fugir desse tipo de fala. Não seria um processo transparente e democrático se a gente simplesmente desse voz apenas àqueles que defendem a ciência estabelecida. Literalmente, essas pessoas representam determinados setores da sociedade. Eu acho estrategicamente mais oportuno abrir o espaço de fala, para que seja confrontada e esmiuçada.

Ao mesmo tempo é importante saber quem é que paga o deslocamento dessas pessoas, as reuniões, as hospedagens, quem ordena, quantas vezes e de que forma isso chegou ao presidente da República. Mas em paralelo, o discurso maluco, que é mesmo o que aconteceu com a Mayra, vai ser confrontado com a realidade.

Estrategicamente, a gente chama logo em seguida especialistas que trazem uma visão mais normal da ciência. Acho que não dar voz ia amplificar mais ainda o espaço dela.

Os parâmetros para avaliar a cloroquina e outros medicamentos são os estudos de excelência, e nenhum deles diz que essas substâncias podem ser usadas para esse fim. Qual a dificuldade de entender isso?

Talvez a gente esteja lidando com gente doida, mas besta, não. Eles tentam a todo custo tirar o foco e arregimentar um apoio grande na classe médica, misturando o desvio de uma política pública sem base na ciência com a autonomia profissional do médico.

E é uma categoria extremamente corporativa, então eles reagem dizendo que o médico tem a autonomia de receitar. Mas ninguém está discutindo isso. Eu estou discutindo o cara gastar milhões em sentido contrário ao consenso científico, retardar ou não realizar ações que o consenso científico indica. Porque comprar vacina para um vírus é consenso há uns cem anos, desde que inventaram vacina. Não é uma novidade.

A gente viu claramente o Bolsonaro e seus serviçais mais fiéis boicotando, retardando uma contratação de vacinas que garantiria o dobro de pessoas vacinadas no final do primeiro trimestre de 2021. A quantidade de vacinas da CoronaVac, mais as doses da Pfizer dariam 64,5 milhões de doses. E a gente não teve. Porque ele não quis. É surreal.

Diante de tanta expectativa, o que se pode esperar como resultado da CPI?

Eu brinco que essa é uma pergunta que eu recebo dos melhores jornalistas e também em casa, dos meus filhos. A resposta é sempre a mesma, para os dois públicos: depende da expectativa.

O que a CPI vai gerar de resultado é um relatório. E esse relatório, se for robusto o suficiente, vai permitir coisas concretas. Como, por exemplo, preparar uma legislação que impossibilite que haja gestão pública sem ser baseada em evidências. Não dá para ter gestão pública na base do achismo, da corrente de WhatsApp. Dá para subsidiar algumas ações.

Mas não dá para imaginar que a CPI vai resultar em impeachment, por exemplo. Porque isso passa pelo crivo político do Arthur Lira. Enquanto ele estiver dentro do cofre não vai nem pensar no assunto.

Se for uma denúncia por crime comum tem que passar pelo crivo do Augusto Aras, que enquanto estiver pendente de uma vaga no Supremo ou sua recondução também não fará nada.

Mas, certamente, a parcela da população brasileira que não está contaminada por esse vírus ideológico, radical, vai estar sendo informada do que aconteceu. São dezenas de milhares de vidas perdidas, em cálculos bastante conservadores.