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Bolsonaro testa limites de Teich

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Nelson Teich - DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO
O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Nelson Teich Imagem: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO
Constança Rezende

É colunista do UOL em Brasília. Passou pelas redações do Estadão no Rio de Janeiro, O DIA e Jornal do Commercio.

Colunista do UOL

14/05/2020 02h00

Funcionários do Ministério da Saúde avaliam que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem submetido Nelson Teich a constantes 'testes' na pasta. Nestas situações, são analisadas sua capacidade no órgão e o seu alinhamento ao governo.

Um destes desafios, segundo um auxiliar de Teich, foi quando Bolsonaro decretou salões de beleza, barbearias a academias esportivas como atividades essenciais em meio à pandemia, sem comunicá-lo.

O ministro foi avisado da medida por jornalistas, durante uma coletiva de imprensa, no Palácio do Planalto. Além disso, Bolsonaro publicou o decreto com a nova norma no mesmo horário em que acontecia a entrevista de Teich.

Como resposta, o médico disse que cabia ao presidente decidir sobre as atividades essenciais e que o Ministério da Saúde deveria ajudar na implementação da medida, com menos riscos à saúde das pessoas.

A avaliação nos corredores do ministério foi a de que Teich se saiu bem da situação. Mesmo surpreso e sem ter elementos do decreto que flexibilizava o distanciamento social, ele não falou mal da medida, nem demonstrou insatisfação por não ter sido comunicado.

"Se isso acontecesse com o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, ele teria partido para o confronto", disse um auxiliar de Teich.

Aliados do ministro também consideraram que o presidente ficou satisfeito com a resposta. No dia seguinte, Bolsonaro minimizou a falta de interlocução com Teich para baixar o decreto.

"Quantas vezes você chega em casa com um colega para almoçar e não avisa a sua esposa? Vai acabar o casamento por causa disso?", justificou o presidente.

Teich passou por um segundo teste nesta semana, quando foi atacado por simpatizantes de Bolsonaro nas redes sociais. A 'fritura' aconteceu depois que Teich falou sobre os efeitos colaterais do uso da cloroquina no tratamento da Covid-19.

O ministro não respondeu aos ataques nas redes, apesar de ter sido surpreendido com o movimento. Ele não teria levado "as ofensas dos robôs" para o lado pessoal, segundo um assessor.

"Ele sabia o que iria enfrentar neste governo e também passou por algo parecido, quando foi atacado e rebateu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas redes", lembrou um auxiliar.

Após o ataque promovido por seus simpatizantes, Bolsonaro saiu novamente em defesa do ministro.

"Se coloca no lugar dele. É uma situação complicada. O ministério em si já é um problema, tendo visto os vícios que tínhamos aí. Ainda pega com a crise da pandemia. Não é fácil, não posso cobrar dele muita coisa", disse o presidente.

O comportamento conciliador de Teich, oposto ao temperamento combativo de Mandetta, também tem sido usado a favor do ministro. Ele considera a tarefa de enfrentar a pandemia frente à pasta como uma "missão de vida", que é apoiada também por seus familiares.

Ontem, Bolsonaro disse que pretende conversar com Teich sobre o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina em pacientes com covid-19. A reunião pode ser mais teste para o ministro.

Na última segunda-feira, Teich escreveu em seu perfil no twitter, como um "alerta importante", de que a cloroquina "é um medicamento com efeitos colaterais".

"Então, qualquer prescrição deve ser feita com base em avaliação médica. O paciente deve entender os riscos e assinar o "Termo de Consentimento" antes de iniciar o uso da cloroquina", frisou.