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Crise Climática

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

NYT mostra como o crime organizado controla o espaço aéreo na Amazônia

Garimpo ocorre ao lado de posto de saúde e pista de pouso - Condisi Yanomami
Garimpo ocorre ao lado de posto de saúde e pista de pouso Imagem: Condisi Yanomami
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Cínthia Leone

Cínthia Leone é ambientalista e divulgadora científica, formada em jornalismo pela Unesp e doutora em Ciência Ambiental pelo PROCAM-USP.

Colaboração para o UOL, em São Paulo

04/08/2022 11h00

Esta é parte da versão online da edição desta quinta (4) da newsletter Crise Climática. A versão completa, apenas para assinantes, também mostra como um modelo agroflorestal está ajudando a garantir segurança alimentar na Tailândia em meio à crise global de alimentos; dados do desmatamento na Amazônia; e um mapeamento da atuação de organizações criminosas na região. Para assinar o boletim, clique aqui.

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O New York Times revelou na terça-feira (2) a perda do controle do espaço aéreo e das fronteiras na Amazônia brasileira para o crime organizado. A investigação do jornal —que já é uma das mais importantes do ano sobre a região— identificou 1.269 pistas de pouso clandestinas, número superior ao de pistas regulares (1260). 60% dos aeródromos ilegais estão dentro de Terras Indígenas, um quarto (362) a menos de 20 quilômetros de uma zona de garimpo. A edição impressa desta quarta (3) traz longa reportagem, com mapas das pistas e imagens aéreas e de satélite.

"O exército brasileiro não teve tanto poder em décadas. E ainda assim não pode fazer o trabalho básico de monitorar as fronteiras e o espaço aéreo do país. O resultado é uma atividade criminosa desenfreada que está pondo vidas em perigo e destruindo a Amazônia", tuitou a jornalista Manuela Andreoni, uma das autoras da reportagem.

A investigação é fruto de uma parceria entre o New York Time, Pulitzer Center e The Intercept Brasil, que publicou a história em português. Hyury Potter, autor da matéria brasileira, também registrou o dia a dia dos pilotos dessas aeronaves. Além do garimpo de ouro, outras atividades de mineração ilegal, contrabando de madeira e tráfico internacional de drogas se beneficiam da localização estratégicas das pistas.

"Desde que tomou posse em 2019, o Sr. Bolsonaro tem defendido as indústrias que impulsionam a destruição da floresta tropical, levando a níveis recordes de desmatamento. Ele tem flexibilizado as regras para expandir a exploração madeireira e mineradora na Amazônia e diminuir as proteções. Ele também cortou fundos e pessoal federal, enfraquecendo as agências que fazem cumprir as leis indígenas e ambientais", escreve a reportagem do NYT.

"Ele até visitou uma mina de ouro ilegal no que deveria ser território protegido, sinalizando publicamente seu apoio a atividades ilícitas na Amazônia brasileira", destaca o texto.

Em maio de 2022, o governo federal retirou indefinidamente as restrições de pouso e decolagem em pistas clandestinas na Amazônia. Uma medida provisória editada em dezembro de 2021 e transformada em lei pelo Congresso este ano também eliminou a exigência de autorização da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) para a construção de pistas de pouso em todo o país. Sem fiscalização, não há controle sobre a carga e os ocupantes dos milhares de aeronaves circulando na região.

Não é só a criminalidade que utiliza as pistas clandestinas. Boa parte do atendimento de saúde das populações indígenas amazônicas também depende dessas estruturas precárias para o transporte de profissionais, pacientes e insumos, inclusive as vacinas de covid-19. Segundo as reportagens, mais da metade das quase 200 pistas usadas por Funai e Ministério da Saúde na região são clandestinas, e a falta de regularização impede que este trabalho seja feito de forma segura.

Os mais diretamente afetados pela perda de controle do Estado brasileiro sobre a Amazônia Legal são os indígenas. Somente na Terra Yanomami, uma das mais devastadas pelo avanço recente do garimpo de ouro, a reportagem identificou ao menos 60 pistas clandestinas, com mais de 30 mil garimpeiros atuando de maneira ilegal no território. Um laudo da Polícia Federal revelou que quatros rios da região têm alta contaminação por mercúrio, substância usada na garimpagem de ouro —o nível verificado é 8.600% superior ao que é considerado o máximo tolerável em águas para consumo humano.

Indiretamente, toda a humanidade é vítima da destruição da floresta. Somente o rio Amazonas despeja cerca de 20% de toda a água doce que chega aos oceanos em seu conjunto, enquanto a floresta tem papel central na produção de chuvas em toda a América do Sul.

"A Amazônia atua como uma esponja gigante, mantendo dezenas de bilhões de toneladas de dióxido de carbono fora da atmosfera", explica o principal jornal dos EUA. "Pesquisas recentes mostram que a mudança climática e o desmatamento generalizado estão empurrando a floresta tropical para um ponto de ruptura que poderia destruir sua capacidade de se recuperar de tais danos. Isto poderia, em última análise, enviar anos de emissões globais para a atmosfera, e tornar mais difícil o combate ao aquecimento global", diz o NYT.

E o que mais você precisa saber

baia de sepetiba - Dado Galdieri/The New York Times - Dado Galdieri/The New York Times
Pescadores trabalham perto de complexo industrial na baía de Sepetiba
Imagem: Dado Galdieri/The New York Times

CARA E SUJA

A justiça do Rio de Janeiro suspendeu o projeto de quatro termelétricas flutuantes na Baía de Sepetiba, um santuário ecológico na região metropolitana. Segundo o site Ecodebate, a empresa turca Karpowership está ignorando a decisão, e as obras e seus impactos ambientais seguem progredindo. A decisão judicial se deve ao fato do governo fluminense ter eximido de maneira ilegal a apresentação de EIA-RIMA (estudo e relatório de impactos ambientais). Uma decisão anterior já tinha proibido o estado de realizar este tipo de dispensa. As usinas correspondem a quase metade do que foi contratado no leilão emergencial de outubro de 2021, que se destacou pelo preço exorbitante da energia.

protesto contra mineração chile - Mario Ruiz/EFE - Mario Ruiz/EFE
protesto contra a mineração em 2015 nas principais avenidas de Santiago, no Chile
Imagem: Mario Ruiz/EFE

NENHUM MISTÉRIO

Um buraco de 32 metros de diâmetro e 64 de profundidade e que segue crescendo apareceu na cidade de Tierra Amarilla, no Deserto do Atacama, Chile. No local há uma operação de extração de cobre que já havia provocado um impacto semelhante em 1993. A mineradora que atua na região não apresentou às autoridades locais estudos técnicos sobre suas atividades subterrâneas e segue negando que tenha qualquer relação com a cratera, distante apenas 600 do pequeno conjunto de habitações da cidade. A economia chilena é refém da mineração.

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