PUBLICIDADE
Topo

Cristina Tardáguila

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Serão independentes e apartidários os 'checadores do Senado'?

13.mai.2021 - O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), suplente da CPI da Covid - Pedro França/Agência Senado
13.mai.2021 - O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), suplente da CPI da Covid Imagem: Pedro França/Agência Senado
Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

27/05/2021 16h20

O senador Renan Calheiros (MDB-AL) informou nesta quinta-feira (27) que a CPI da Pandemia requisitou à agência de notícias do Senado que designe um grupo de "consultores e assessores" para fazer checagens ao vivo do que é dito durante as sessões da comissão. Desde a semana passada, a CPI debate a necessidade de contar com checadores capazes de pontuar o que é verdadeiro e falso nas falas ouvidas no Senado

É importante que a CPI da Pandemia saiba que, hoje em dia, o Brasil dispõe de pelo menos oito iniciativas que se dedicam à checagem de fatos de forma profissional. Quatro delas - Agência Lupa, Aos Fatos, AFP Checamos e Estadão Verifica - já foram inclusive certificadas pela International Fact-Checking Network, rede que reúne checadores de fato de todo o mundo, e vêm oferecendo conteúdo verificado sobre falas ocorridas na CPI há diversas semanas.

Causa estranheza, portanto, que o Senado desloque pessoal próprio para fazer um trabalho que exige metodologia, transparência e, sobretudo, apartidarismo.

O anúncio dos 'checadores do Senado' foi feito por Renan logo depois da intervenção do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) na audiência que ouve Dimas Covas, presidente do Instituto Butantã. Segundo Vieira, são diversos os dados falsos e sem contextualização ouvidos nas sessões da CPI.

"Estão sendo exibidos vídeos sem data, fora de contexto. Estão fazendo conexão entre casos de aborto e vacina. Estão falando de montantes destinados a estados e municípios como se o total fosse todo para Covid-19", pontuou Vieira. "As pessoas estão reproduzindo discursos que partem daqui. Se, no Senado, se sentem no direito de mentir, de reproduzir falas que não condizem com a verdade, o que vai acontecer no bar ou no WhatsApp da família?"

Desde a manhã, quando o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) informou os membros da CPI sobre a morte do sambista Nelson Sargento por Covid-19, parlamentares governistas fizeram diversas insinuações sobre a falta de eficácia das vacinas aplicadas em Sargento.

"As vacinas mudaram a história da humanidade", defendeu Dimas Covas, presidente do Instituto Butantã, na oportunidade que teve para comentar o impacto da desinformação na CPI. "(As vacinas) Mudaram a perspectiva de vida do ser humano. É uma conquista inestimável. Vacina, alimentação saudável e água limpa permitiram que a humanidade vivesse 75-80 anos. Vacinas têm importância fundamental".

A reação dos checadores

Natália Leal, diretora de Conteúdo da Agência Lupa, demonstrou receio frente ao anúncio de Renan. Teme que o trabalho da assessoria parlamentar - necessária à preparação dos parlamentares que integram a CPI - se confunda com o trabalho jornalístico profissional.

"O fact-checking é um gênero jornalístico que demanda independência, transparência, objetividade e apartidarismo. Não é um instrumento de assessoria de qualquer natureza e não deve ser usado com outro objetivo que não seja o da qualificação do debate público", afirmou.

Edgard Matsuki, fundador do site Boatos.org, aponta que a possível presença de assessores diretos de senadores no grupo de checagem do Senado pode "causar desconfiança no viés das checagens".

Além disso, Matsuki levanta duas questões: a capacitação do grupo e a metodologia que pretendem adotar.

"A priori, sempre é louvável iniciativas que visam verificar informações, principalmente, com o volume de desinformação (inclusive já checada) que está sendo espalhada na CPI. Porém, é preciso que se entenda como será formada essa agência", pontuou.

Sergio Lüdtke, editor chefe da iniciativa colaborativa de checagem Comprova, avalia que a CPI da Covid tem sido uma caixa de ressonância para conteúdos enganosos", razão pela qual diz que o fact-checking "faria muito bem ao ambiente da comissão".

Assim como os demais checadores, Ludkte aponta que, apesar disso, "a checagem é uma especialidade que requer metodologia, apartidarismo, conhecimento e um compromisso com erro zero".

E questiona a proposta de fazer essa avaliação em tempo real - como sugere Renan:

"Checagem em tempo real é uma especialidade é rara até nas agências de fact-checking mais experientes", destacou.

Marco Faustino, repórter do site Aos Fatos, ve com bons olhos que o Senado busque fazer uma checagem em tempo real do que está sendo dito na CPI e que esse conteúdo se propague por um veículo oficial, mas pondera a necessidade de independêcia.

"Essa checagem deve ser feita por verificadores independentes, não associados a entidades governamentais. Também deve haver transparência na metodologia adotada", afirmou.

Gilmar Lopes, criador do e-Farsas, faz coro ao receio dos demais checadores. Diz que a verificação de fatos "não pode ser algo personificado" e pergunta quem assinaria essas checagens.

"Acredito que checagens independentes e fora do Senado são mais eficientes, confiáveis e sem viés", concluiu.

Cristina Tardáguila é fundadora da Agência Lupa e colunista do UOL, Fundação Gabo e Univision

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL