PUBLICIDADE
Topo

Cristina Tardáguila

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Fake news' no Enem: 5 dicas de fact-checker para estudante

Enem 2021 já é considerado o mais excludente e desafiador para estudantes pobres e vulneráveis - Gabriel Moreira/UOL
Enem 2021 já é considerado o mais excludente e desafiador para estudantes pobres e vulneráveis Imagem: Gabriel Moreira/UOL
Conteúdo exclusivo para assinantes
Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

16/11/2021 12h51

Você que vai fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste ano sabe que há uma enorme chance de a prova trazer questões relacionadas à desinformação. O vestibular da Unesp saiu na frente e colocou as notícias falsas como tema de redação. Então, aqui vão, de checador para estudante, cinco pontos que podem ajudá-lo a entender - ou a explicar - esse assunto tão complexo. Atenção aos links incluídos a seguir - eles valem ouro.

Afinal o que é 'fake news'?

Ninguém sabe definir ao certo. E todos aqueles que tentaram redigir uma definição que poderia ser mundialmente aceita (como é o meu caso) se frustraram. Na ponta do lápis, os conceitos ou ficam curtos demais, deixando de fora diversos casos explícitos de desinformação, ou ficam muito amplos, ameaçando humoristas e artistas. Assim sendo, evite usar esse anglicismo no Enem. Se o tema aparecer na prova, faça como os fact-checkers: dê nomes aos bois. Fale de dado falso, imagem manipulada, vídeo editado, foto com legenda fora de contexto, ironia mal entendida e assim por diante. Sua resposta ficará muito mais precisa e conceitualmente correta. Se tiver alguns minutos, passe o olho nas páginas 12 e 13 deste estudo publicado pelo First Draft. Ele destrincha falsidades de alto e baixo risco.

Uma lei pode resolver o problema da desinformação?

Vários países tomaram esse caminho. Na Ásia, por exemplo, há leis contra notícias falsas na Tailândia, na Indonésia, em Cingapura, na Índia e muito mais. Não há, no entanto, nenhuma comprovação estatística ou numérica de que esses países conseguiram diminuir o volume de dados falsos após a aprovação dessas leis. O que se vê, na realidade, é o surgimento de novos problemas. Na Tailândia e em Cingapura, é o governo quem checa as redes sociais hoje em dia. Na Indonésia, mães já foram presas por "espalhar notícias falsas em grupos de WhatsApp". Na Malásia também já teve gente sendo presa.

De qualquer forma, o Congresso brasileiro analisa diversos projetos de lei que têm por objetivo enfrentar a desinformação. O mais famoso deles é o PL 2630. Batizado como PL das Fake News, o texto foi aprovado no Senado em 2020 e está sendo analisado na Câmara. Alvo de grande atenção (e contribuição) dos especialistas em direito digital, esse projeto de lei surgiu durante a pandemia e pouco depois de o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia ter sido alvo de diversas notícias falsas. Não deixe de ler um pouco mais sobre o que está proposto na última versão do texto.

Que outras estratégias existem para enfrentar esse problema?

Ideias não faltam, mas os fact-checkers profissionais costumam apostar em dois caminhos. O primeiro, a curto prazo, é a colaboração entre jornalistas e demais membros da sociedade civil. Enquanto diversos jornais e revistas competirem entre si, ou gastarem recursos para checar conteúdos idênticos, quem vence é a desinformação. Assim sendo, um dos grandes avanços na luta contra as notícias falsas é fazer alianças capazes de dar velocidade de apuração aos jornalistas e amplitude ao material que por eles for verificado. Podem fazer parte dessa aliança empresas, organizações governamentais, ONGs, influenciadores e até mesmo você.

O segundo passo, com efeito em médio e longo prazo, é a educação. Atualmente, a Base Nacional Curricular já permite que professores discutam em sala de aula assuntos relacionados ao consumo de notícias (e de notícias falsas). Seria impactante, por exemplo, ver escolas de segundo grau com aulas de "educação midiática". Países como Finlândia e Reino Unido já tomaram esse rumo e também investem na geração de professores capacitados a ensinar essa habilidade em sala de aula. Que tal se as faculdades de pedagogia trouxessem em seu currículo uma disciplina sobre desinformação? E se as escolas de onde vocês - participantes do Enem - saíram tivessem oferecido essa matéria? Leia aqui cinco propostas concretas sobre esse assunto.

Como foi a desinformação sobre a covid-19?

Convenhamos que este é um excelente tema de prova - e que você precisa saber que, aos olhos da comunidade internacional de checadores, houve ao menos nove ondas de desinformação sobre a covid-19. Mentiras sobre a origem do novo coronavírus foram mundiais, assim como fotografias manipuladas, dados sobre falsas curas e falsos métodos de prevenção e rios de ataques aos chineses (sinofobia). Também houve desinformação que relacionava a covid-19 com questões de supremacia racial e religiosa. Houve mau-uso de estatísticas sobre reabertura/fechamento e, agora, vivemos todo o auê sobre vacinas - que são comprovadamente seguras. Vale a pena lembrar alguns casos específicos e tê-los na ponta da língua para a prova. Aqui você lê todas as checagens da Agência Lupa sobre covid-19.

Por que as notícias falsas são perigosas para as eleições?

A resposta rende uma (ou duas) teses de mestrado, mas você pode arrasar na prova do Enem se ressaltar dois pontos bem evidentes. Mentiras em campanha dividem a sociedade e interditam o debate político. Os eleitores perdem mais tempo para combater a desinformação do que para entender propostas de governo e ideias concretas de futuro. Em 2018, por exemplo, das 50 fotografias mais difundidas em quase 350 grupos públicos de WhatsApp, apenas quatro eram verdadeiras e nenhuma delas versava sobre os candidatos em campanha. Apenas reproduziam (e alimentavam) ideias falaciosas de dois mundos que estavam em choque, mas que não existiam realmente. O estudo sobre as fotografias falsas de 2018 segue disponível aqui.

Outro impacto negativo da desinformação eleitoral tem a ver com as dúvidas - infundadas - sobre a lisura do processo eleitoral. Ataques às urnas e a processos de votação não são um privilégio do Brasil. Foram vistos, recentemente, nos Estados Unidos, na Espanha e na Argentina. Em todos os casos, há uma tsunami de teorias da conspiração que, em última instância, podem colocar em xeque até mesmo a democracia. Aqueles que farão o Enem neste ano, não podem deixar de dar uma olhada no que ocorreu em Washington, D.C, no último 6 de janeiro. Dúvidas sobre a contagem de votos na eleição presidencial levaram centenas de indivíduos a invadir o Capitólio, bradando palavras de ordem contra o Legislativo americano. A polícia e a inteligência dos Estados Unidos conseguiram deter vários desses indivíduos e contaram com o apoio das redes sociais, que derrubaram posts que incitavam a violência. Será que no Brasil ocorreria da mesma forma? As plataformas de tecnologia vão (ou não) aplicar por aqui o que se viu em solo americano - se algo semelhante se der?

Outro excelente tema para o Enem. Você é contra ou a favor da retirada de conteúdos falsos das redes sociais? Exercite sua argumentação e pense sobre o Brasil ao mesmo tempo. Boa prova!

Cristina Tardáguila é diretora sênior de programas do ICFJ e fundadora da Agência Lupa

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL