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Cristina Tardáguila

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Batalha sobre Lula na 'Time' prova que fakes querem poder da imprensa

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é capa da revista norte-americana Time nesta semana - Reprodução
Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é capa da revista norte-americana Time nesta semana Imagem: Reprodução
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Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

26/05/2022 04h00

Eis uma dicotomia que merece atenção. Enquanto alguns números indicam que a credibilidade da imprensa padece de uma vertiginosa queda, chama atenção a quantidade de notícias falsas que (veja só) usam o logotipo e a identidade visual de revistas e jornais para justamente chamar a atenção. Nesta semana, essa modalidade desinformativa visual ficou tão em evidência que duas forças politicamente antagônicas, ambas envolvidas de corpo e alma nas eleições de outubro, foram às redes sociais para falar dela.

Na terça-feira (24), ao responder um perfil de Twitter que classificava como "engana trouxa" a capa da Time que trazia o resultado de uma entrevista da publicação com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, foi taxativo: "é a milícia digital organizada (do PT) desmascarada mais uma vez".

Ao que tudo indica, Carlos e muitos dos que interagiram naquela conversa (fio) acreditam e/ou oxigenam a narrativa (falsa) de que Lula jamais falou à revista americana ou que aquela edição não foi verdadeiramente distribuída.

Lula não gostou da insinuação.

No dia seguinte (25), o petista postou uma checagem da Lupa como forma de rebater a mentira e, ao fazê-lo, alfinetou os bolsonaristas: "Tem gente que precisa fazer capa fake pra aparecer na revista Time, enquanto a capa com Lula é real e circulou pelo mundo".

Semanas atrás, os fact-checkers do Brasil precisaram dizer que Bolsonaro não tinha sido eleito prêmio Nobel da Paz e que não tinha seu rosto estampado na primeira página de nenhuma revista internacional. A desinformação tinha sido compartilhada por dois ministros e uma série de influenciadores.

A troca de farpas relacionada a capas de revista - verdadeiras ou falsas - tem razão de ser. Monitoramento feito no Youtube, mostra que a entrevista de Lula à Time foi debatida em 27 canais governistas e em 36 de oposição, gerando mais de 2,5 milhões de visualizações nos vídeos. No Facebook, o assunto também levantou poeira. Quase mil postagens tiveram juntas mais de 700 mil interações. Ou seja: usar a credibilidade da imprensa ainda vale a pena.

E o que é mais grave de tudo isso? É que é extremamente fácil e rápido gerar conteúdos falsos que são visualmente idênticos às mais renomadas marcas da comunicação mundial. "Geradores de fake news" são sistemas assustadoramente simples e perigosos que não consomem nem dois minutos da vida de quem pretende desinformar.

Basta que o indivíduo encontre um site que oferece esse serviço (não insiro aqui o link propositalmente), que digite a frase que quer ver na manchete e que escolha o meio de comunicação pelo qual se deseja passar. Em instantes, a identidade visual da tela se adapta, incorporando a fonte, as cores, e o logotipo do veículo de informação a servir de cavalo de Tróia. Com mais um ou dois cliques, a notícia falsa deságua no Facebook, no Twitter ou no Instagram. E a mentira corre solta.

É bem verdade que muitos desses "geradores de fake news" parecer ter surgido para divertir ou entreter. Muitos se vendem como "geradores de memes". Mas é inegável que alimentam uma série de narrativas falsas que - sim - são capazes de enganar milhões Brasil afora.

Na campanha eleitoral de 2018, os fact-checkers profissionais identificaram ao menos nove falsas capas. Veja, The Economist e até o semanário francês Charlie Hebdo foram usados para desinformar os eleitores. E houve montagens com Bolsonaro e seus filhos, com Lula, com o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro, com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e com o ex-ministro Joaquim Barbosa.

Naquele ano, as falsas capas não foram tema de disputa online entre candidatos ou políticos em geral. Neste ano, o cenário mudou. Se Lula e Carlos Bolsonaro se preocupam com a Time, é sinal de que bem mais "notícias falsas" - no sentido literal - virão por aí.

Cristina Tardáguila é diretora sênior do ICFJ e fundadora da Lupa