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Cristina Tardáguila

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro faz malabarismo para se distanciar do 'fuzilar a petralhada'

Em ato de campanha em 2018, Bolsonaro defendeu fuzilar a "petralhada" - Reprodução / Youtube
Em ato de campanha em 2018, Bolsonaro defendeu fuzilar a 'petralhada' Imagem: Reprodução / Youtube
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Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

13/07/2022 04h00

A tentativa do presidente Jair Bolsonaro de se distanciar do terrível assassinato cometido por um de seus seguidores no fim de semana na cidade de Foz do Iguaçu (PR) deve entrar para a lista dos maiores malabarismos linguísticos e desinformativos já vistos na história recente deste país. Faz lembrar Emílio Médici, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Lula, em outros momentos da mais pura cara de pau.

Como já é do conhecimento de parte da população, em 1 de setembro de 2018, ainda como candidato do PSL à Presidência da República, Bolsonaro subiu num palco montado no Acre, empunhou o tripé de uma câmera (como se de uma metralhadora se tratasse) e, simulando disparos para o céu, disse: "Vamos fuzilar a petralhada", em referência pejorativa a afiliados e apoiadores do Partido dos Trabalhadores. No último sábado (9), um bolsonarista armado invadiu uma festa de aniversário e cumpriu a ordem. Matou a tiros Marcelo Arruda, um petista que celebrava seus 50 anos ao lado de familiares e amigos. Mas Bolsonaro insiste em negar qualquer relação entre os dois episódios.

Questionado sobre uma conexão entre os fatos, Bolsonaro vem se esforçando para minimizar o óbvio. Já disse que a fala feita em 2018 estava "em sentido figurativo", já afirmou que se tratava de "uma briga de dois" e já escreveu em redes sociais que dispensa o apoio de qualquer indivíduo que pregue a violência. Vai ser difícil, no entanto, convencer o brasileiro — esse povo que tanta mentira já escutou.

Mergulhemos um pouco na história nacional.

Em 9 de maio de 1970, o Palácio do Planalto regido pelo então general-presidente Emílio Médici emitiu uma nota oficial em que atestava publicamente que não havia tortura nas prisões brasileiras e que o país não tinha presos políticos. O posicionamento, feito em resposta a um questionamento levantado pelo líder da oposição na Câmara, o deputado Humberto Lucena, virou chacota histórica.

Além de todos os relatos da época, em 2014, a CNV (Comissão Nacional da Verdade) concluiu, em seu relatório final, o que a imensa maioria do país já sabia: que a ditadura militar brasileira deixou 434 vítimas (entre mortos e desaparecidos) e que qualquer tentativa de negar o óbvio não fica de pé. Médici, que jamais reconheceria tortura ou prisão política, poderia ter passado a história em silêncio, mas preferiu apelar para a desinformação.

Em dezembro de 1989, o Brasil assistiu ao início de outro episódio assustador. O então candidato à Presidência da República pelo PRN, Fernando Collor de Melo, foi participar do "Programa Ferreira Neto", um dos mais populares da TV Record na época, e, ao ser questionado sobre seus planos econômicos, manteve o seguinte diálogo com o entrevistador:

— O senhor garante aos poupadores que não tocaria jamais na poupança?

— Sem dúvida.

Quem estava vivo em 16 de março de 1990 (ou quem já estudou esse momento) sabe que a fala não fica de pé. O nefasto Plano Collor levou ao bloqueio das poupanças, à falência de negócios e, inclusive, a uma série de suicídios (pessimamente cobertos pela imprensa nacional). Collor poderia ter ficado em silêncio, mas também preferiu mentir.

Veio então Fernando Henrique Cardoso. Em junho de 1998, o tucano repetia exaustivamente que "não desvalorizaria moeda nenhuma", em referência a um aguardado (talvez desejado) fim da paridade cambial entre o dólar e o real. Por onde quer que fosse, FHC repetia que "não tinham apreço pelo trabalhador" aqueles que "cacarejavam" sobre encerrar a paridade.

Em 13 de janeiro de 1999, quase duas semanas depois de sua segunda posse presidencial, FHC encerrou o período de câmbio controlado, jogando o país numa crise igualmente inesquecível. Dívidas feitas em dólar com cartão de crédito explodiram na cara das classes média e alta. Para os cidadãos mais pobres, o impacto imediato foi sentido na alimentação. O café, por exemplo, subiu 40% em pouquíssimos dias.

E é claro que nessa mesma linha de frases desconectadas com o óbvio também está uma de Luiz Inácio Lula da Silva. Em julho de 2002, concorrendo ao Planalto, Lula disse que se ganhasse a eleição, "parte da corrupção neste país desapareceria no primeiro semestre". Quando veio o mensalão, poderia ter dito que a promessa fora "em sentido figurativo", mas não o fez. Disse que não sabia de nada que ocorria a seu redor. E o país tomou mais uma lição. Aprendeu que o indivíduo candidato pode dizer o que bem entender, mas que, quando chega ao poder, pode e costuma se distanciar daquilo que dizia crer ou prometer.

Então melhor avisar a Bolsonaro que as cenas gravadas no Acre em 2018 não serão reinterpretadas. Suas instruções (verbais e não verbais) foram claras e objetivas. Não há espaço para "sentido figurativo", para "briga entre dois" ou para acusações à imprensa. O melhor (e, inclusive, mais alinhado à sua proposta de cidadão de bem) é se desculpar em alto e bom tom, assumir uma campanha não-violenta e apoiar os familiares da vítima.

Que a possível coletiva em Brasília — citada pelo presidente em telefonema feito à família de Marcelo Arruda — aconteça em breve que Bolsonaro possa se distanciar dos demais políticos aqui citados. Aguardemos.

Cristina Tardáguila é diretora sênior do ICFJ e fundadora da Lupa