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Cristina Tardáguila

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sem debate, eleitor vira presa fácil para mentiras de Lula e Bolsonaro

Lula (PT) e Bolsonaro (PL) - Ricardo Stuckert e Clauber Cleber Caetano/PR
Lula (PT) e Bolsonaro (PL) Imagem: Ricardo Stuckert e Clauber Cleber Caetano/PR
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Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

28/07/2022 10h14Atualizada em 28/07/2022 17h38

Nem Luiz Inácio Lula da Silva nem Jair Bolsonaro estão disponíveis para debates. Nesta semana, levaram a CNN a cancelar o evento que o canal havia agendado para o dia 6 e também não deram (nem darão) as caras no programa Central das Eleições, da GloboNews. Devemos saber que, por trás desse posicionamento, há uma mesmíssima intenção: a tentativa de controlar narrativas e de viver em bolhas, falando apenas para convertidos. Quem perde é o eleitor, largado às cegas, num mar de informações falsas.

Um breve levantamento feito com base nas checagens publicadas pelas iniciativas de fact-checking do Brasil mostra que, só neste mês de julho, Lula disse ao menos três conteúdos falsos e três exagerados. Bolsonaro, por sua vez, foi flagrado com pelo menos nove conteúdos falsos e três exagerados.

Lula errou ao comentar o lucro da Petrobras, a demarcação de terras indígenas, o PIB durante seus anos de governo, o desmatamento da Amazônia, a atuação da Eletrobras e o TRF4, tribunal que o condenou por unanimidade em 2019. Bolsonaro desinformou sobre o sistema eleitoral brasileiro em diversas ocasiões e errou ao falar sobre as dívidas da Petrobras, do BNDES e da capacidade de a floresta amazônica pegar fogo.

Tudo isso aconteceu em eventos em que falavam quase sozinhos, livres do contraditório vindo do principal rival eleitoral. Resultado: os dados equivocados que disseminaram ficam diluídos. São quase invisíveis à população.

Debates entre presidenciáveis são indispensáveis à boa saúde de um processo eleitoral. Pergunto-me se não seria bacana legislar sobre o assunto na próxima (e sempre inevitável) reforma eleitoral.

Debates são eventos em que a disparidade de tempo nos horários eleitorais desaparece e em que todos os candidatos têm o mesmo grau de exposição. São nesses eventos em que fica claro quem é o político que domina mais um determinado assunto e ainda quem tem um programa de governo bem definido para outro. São para esses eventos que os checadores de fato passam meses se estruturando, coletando informações, montando bases de dados e estudando formas de reduzir o impacto das mentiras ditas ao vivo, em horário de pico de audiência. É nesses eventos que se ativa um dos mais saudáveis ciclos de informação.

Debates servem como registros históricos de possíveis promessas de governo. Nesta semana, lemos, por exemplo, que, como presidente, Bolsonaro cumpriu 36% do que disse que faria se eleito em 2018. Naquele ano, participou de debates e sabatinas.

Por fim, debates ainda servem para que o eleitor ouça da boca dos próprios candidatos respostas claras sobre assuntos delicados, seja sobre administrações passadas, aliados controversos ou mesmo familiares e amigos envolvidos em escândalos. É do jogo. Um jogo necessário.

Mas, apesar disso tudo, Lula e Bolsonaro preferem se fingir de cegos. Criam listas de exigências que beiram ao ridículo (há quem diga que só vão se os jornalistas-entrevistadores forem "amigos") e começam a jogar um jogo infantil, do "só vou se ele também for".

É bem verdade que o Brasil padece da polarização política e do avanço do ódio, mas vale lembrar que esse não é um fenômeno exclusivo daqui.

Donald Trump e Joe Biden eram (e ainda são) rivais até os dentes na campanha presidencial americana em 2020. Mesmo assim, encontraram-se diante de um pool de jornalistas experientes para responder perguntas ao vivo em duas ocasiões (a outra foi cancelada devido ao quadro de covid-19 do candidato republicano).

Emmanuel Macron e Marine Le Pen não se negaram a ficar cara a cara poucos dias antes do segundo turno das eleições deste ano na França. Como bons adultos que são, se sentaram à mesa e se expuseram. A conversa pegou fogo, mas aconteceu.

Ao evitar o chamado confronto de ideias em cadeia nacional, Lula e Bolsonaro dão mau exemplo. Indicam a seus seguidores que não há conversa possível e apontam para um 2023 no caminho errado. Independentemente de quem ganhe, o Brasil seguirá rachado no ano que vem.

Cristina Tardáguila é diretora de programas do ICFJ e fundadora da Lupa