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Diogo Schelp


Pandemia dá vazão a preconceito represado contra idosos

Coronavírus: Pessoa se protege com máscara na Avenida Paulista, região central de São Paulo - Bruno Rocha: Fotoarena/Estadão Conteúdo
Coronavírus: Pessoa se protege com máscara na Avenida Paulista, região central de São Paulo Imagem: Bruno Rocha: Fotoarena/Estadão Conteúdo
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

02/04/2020 10h26

"Meu medo de não sair na rua nem é o vírus... meu medo é passar alguém gritando: 'vai pra casa, véia!'" Esse é o conteúdo de um dos inúmeros memes sobre a pandemia do coronavírus que estão circulando nas redes sociais. A imagem que o ilustra é uma foto da atriz americana Meryl Streep, com toda a sua elegância aos 70 anos. Apesar do tom jocoso, a mensagem reflete a realidade. Muitos idosos, especialmente nas grandes cidades brasileiras, que precisam sair às ruas estão tendo que enfrentar olhares enviesados, quando não comentários indignados, de outros cidadãos mais jovens que acreditam que eles não deveriam estar ali.

Seria essa atitude de indignação diante da presença de idosos na ruas, nos transportes públicos ou nos supermercados uma reação paternalista em relação a eles, um desejo de protegê-los de uma doença que se manifesta de maneira mais grave em quem tem mais de 60 anos? Nem sempre. Pelos relatos que tenho recebido, muitos dos olhares tortos e os comentários inconformados são a expressão de um sentimento que nossa sociedade, em tempos normais, procura abafar: a repulsa aos idosos.

Não vivemos tempos normais. A pandemia da Covid-19 está legitimando um desejo enraizado: o de que o lugar dos velhos é em casa. Não nas calçadas, "obstruindo" o caminho, não nos caixas de supermercado, desfrutando de uma fila exclusiva, não no ambiente de trabalho, ocupando funções que poderiam estar sendo desempenhadas por alguém mais jovem (ainda que mais inexperiente).

Quando alguém diz a um passageiro da terceira idade em um transporte público, "o que o senhor/a senhora está fazendo aqui?", pode até, em alguns casos, ter uma intenção genuinamente positiva. Muitas vezes, porém, está, implicitamente, passando duas mensagens: a primeira é de que o idoso não tem discernimento para decidir o que pode ou não fazer (ou seja, não é capaz); a segunda é que ele não tem autonomia para tomar a decisão de interromper o isolamento social para fazer algo fora de casa (ou seja, não tem direito).

Além de preconceito, há também uma boa dose de ignorância nessa atitude. Da mesma forma como profissionais de saúde têm sido tratados com desconfiança quando estão a caminho do trabalho, como se fossem o vírus da Convid-19 em si, os idosos, por serem constantemente citados como grupo de risco, também são vistos, irracionalmente, como potenciais transmissores da doença.

"O que o senhor/a senhora está fazendo aqui?" Ao tutelar uma pessoa idosa com essa frase, não se está defendendo uma medida de saúde pública. A recomendação para que os idosos fiquem em casa não tem por objetivo proteger outras pessoas da contaminação, mas de proteger eles próprios, por serem estatisticamente mais vulneráveis. Mas o fato de a frase, ou suas variantes, ser normalmente dita em tom de irritação ou indignação e de, na maioria das vezes, ser substituída por olhares enviesados demonstra, além do preconceito, também a ignorância que pânico causado pela pandemia alimenta.

Entre as pessoas com mais de 60 anos que precisam sair de casa e pegar transporte público estão aquelas que trabalham no setor de saúde. De maneira surreal, elas acabam sofrendo um duplo preconceito. Disse-me uma delas: "Quando estou a caminho do trabalho, sinto, pela atitude das outras pessoas, como se eu fosse radioativa. Outro dia, passei por policiais e fiquei com medo que, por ter mais de 60, eles iam me mandar voltar para casa."

Em seu livro "Diário da Guerra do Porco", o escritor argentino Adolfo Bioy Casares (1914-1999), que foi parceiro de escrita de Jorge Luis Borges, descreve uma Buenos Aires distópica em que os idosos são perseguidos e espancados nas ruas da cidade por bandos de jovens. A certa altura, um dos personagens diz:

- Alguns velhos não se cuidam nem um pouco. Eu quase diria que provocam.

A pandemia está fazendo aflorar um perigoso e irracional sentimento contra pessoas da terceira idade que, por um motivo ou outro, precisam sair de casa em meio à recomendação de se manter em isolamento. Como existe uma percepção — fortemente amparada no que não se cansa de dizer o presidente Jair Bolsonaro — de que os idosos é que deveriam estar trancafiados e não o resto da população, "que precisa trabalhar", criou-se um clima de hostilidade absolutamente irracional. É como se os idosos nas ruas estivessem provocando o resto da sociedade, por "não se cuidar nem um pouco". Como se eles fossem os culpados pelo que está acontecendo. Não são, é claro.

Diogo Schelp