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Diogo Schelp

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Defensores de 'kit covid' usam anticorpos monoclonais para salvar narrativa

Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

12/10/2021 11h53

Depois que um relatório elaborado por um painel de especialistas a serviço de um órgão consultivo do Ministério da Saúde concluiu que os medicamentos do chamado 'kit covid' são ineficazes e, portanto, não devem ser prescritos para pacientes com covid-19, conforme noticiou esta coluna na semana passada, médicos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro e integrantes do governo passaram a apelar para os anticorpos monoclonais na vã tentativa de provar que estavam certos ao defender a existência de "tratamento precoce" ou "inicial" contra covid-19.

Os anticorpos monoclonais são cópias sintéticas de anticorpos específicos produzidos naturalmente pelo organismo humano. Existem diversas combinações de anticorpos monoclonais sendo estudadas como terapia contra a covid-19 em estágios pré-hospitalares, algumas das quais já aprovadas para uso emergencial pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O documento com as diretrizes para tratamento ambulatorial encomendado pelo ministro da Saúde Marcelo Queiroga analisou estudos com uma dezena de tratamentos medicamentosos, inclusive estrelas do kit covid como hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina, mas concluiu que apenas os anticorpos monoclonais mostraram-se promissores na redução de hospitalização, ou seja, da progressão para a doença grave, especialmente em pacientes de alto risco.

Ainda assim, o relatório não recomendava a prescrição dos anticorpos monoclonais no sistema de saúde por seu alto custo (o tratamento para uma única pessoa pode ultrapassar o valor de 10.000 reais) e por sua baixa experiência de uso.

A Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde), do Ministério da Saúde, havia agendado a apreciação do relatório para a semana passada, mas, numa reviravolta que levou muitos dos cientistas que ajudaram a elaborar o documento e também senadores que integram a CPI da Covid-19 a suspeitar de interferência política, o tema foi retirado da pauta na véspera da reunião.

O pneumologista Carlos Carvalho, coordenador do painel de especialista que produziu o relatório, afirma ter partido dele a decisão de adiar a votação das diretrizes que colocam uma pedra sobre a prescrição do kit covid. Ele nega interferência política.

Carvalho disse que sentiu necessidade de incluir na análise um novo estudo que mostra evidências ainda mais robustas dos benefícios dos anticorpos monoclonais, especificamente do REGEN-COV, composto por casirivimab e indevimab.

Com isso, criou-se a expectativa de que a nova versão do relatório mudará a recomendação a respeito dos anticorpos monoclonais, passando a considerá-los aptos a serem prescritos para pacientes em estágio inicial ou leve da covid-19.

Nada deve mudar, porém, em relação aos medicamentos que de fato sempre foram incentivados por Bolsonaro e por médicos que o influenciam, como a hidroxicloroquina e a invermectina. O relatório deve manter essas drogas na classificação de "não recomendadas" para tratamento pré-hospitalar.

Médicos cloroquiners e ivermectiners agora citam os anticorpos monoclonais como prova de que existe tratamento precoce contra covid-19, apesar de essa alternativa terapêutica nunca ter estado sob os seus holofotes.

"Mais um estudo demonstrando grande eficácia com tratamento precoce, neste caso, anticorpos monoclonais", tuitou na semana passada Ricardo Zimerman, um dos médicos mais citados por influenciadores bolsonaristas e que esteve em Manaus (AM) em janeiro, a convite do Ministério da Saúde, para difundir remédios sem eficácia enquanto o colapso no atendimento à covid-19 no estado se avizinhava. Zimerman depôs na CPI da Covid em junho e mais uma vez defendeu o "tratamento precoce".

Nos últimos dias, o próprio ministro Queiroga passou a dar declarações que servem à construção da narrativa de que o governo estava certo ao defender o tratamento precoce.

Nesta segunda-feira (11), ele aproveitou uma pergunta de um jornalista sobre os anticorpos monoclonais para lembrar que o governo sempre foi a favor de um tratamento para a fase inicial da doença — omitindo que os medicamentos defendidos com insistência por Bolsonaro, como hidroxicloroquina e ivermectina, deixaram de serem considerados promissores pela comunidade científica mais de um ano atrás.

Queiroga afirmou também que há tratativas entre a Fundação Oswaldo Cruz, ligada ao governo federal, para produzir anticorpos monoclonais no Brasil e não descartou a incorporação do tratamento ao SUS (Sistema Único de Saúde).

Se a questão do alto custo puder ser solucionada, é evidente que a disponibilização de um tratamento que se prove eficaz nos estágios iniciais da doença seria uma ótima notícia.

Mas é falso equiparar os anticorpos monoclonais ao "tratamento precoce" que o governo Bolsonaro transformou em uma política pública custosa e inútil no combate à pandemia.

Os anticorpos monoclonais nunca fizeram parte do ineficaz kit covid distribuído por prefeituras, enaltecido pelo presidente, receitado em hospitais da Prevent Senior e incentivado por influenciadores e políticos bolsonaristas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL