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Diogo Schelp

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Caso Baduel: a ditadura chavista está matando seus presos políticos

 O general da reserva venezuelano Raul Baduel em abril de 2009 - Juan Barreto/AFP
O general da reserva venezuelano Raul Baduel em abril de 2009 Imagem: Juan Barreto/AFP
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

16/10/2021 04h00

"Em um evento com a presença do mandatário, me fizeram um juízo sumaríssimo, no qual os presentes fizeram coro, com a anuência tácita do senhor presidente: 'Baduel, traidor, vai para o paredão!'", contou-me o general venezuelano Raúl Baduel em abril de 2008, quando me recebeu para uma entrevista em seu escritório em Caracas. "Isso é preocupante", continuou Baduel, que morreu esta semana nas masmorras do regime chavista.

Por tudo o que ocorreu nos treze anos seguintes, ele tinha mesmo motivos para se preocupar. No ano seguinte à entrevista, em 2009, o militar, que havia sido comandante do exército da Venezuela entre 2004 e 2006 e depois ministro da Defesa do governo de Hugo Chávez até 2007, foi preso sob a acusação de desvio de dinheiro público.

Mas a verdadeira razão para a primeira detenção de Baduel, que durou seis anos, foi a vingança por ele ter "traído" Chávez em 2007, ao se declarar contrário à reforma constitucional que daria amplos poderes ao presidente e embutiria na carta magna do país a definição da Venezuela como um Estado socialista.

Graças em grande parte a Baduel, que havia acabado de ir para a reserva e deixar o ministério, a cúpula militar venezuelana se sentiu respaldada para não permitir, naquele momento, uma fraude na contagem do resultado do referendo constitucional realizado no final de 2007. Chávez foi derrotado, pelo menos temporariamente.

Libertado em 2015, Baduel continuou sendo uma pedra no sapato da ditadura chavista, pela influência que ainda exercia nas fileiras militares.

O respeito que ele desfrutava junto às forças armadas, apesar de defenestrado pelo governo, era justificável: foi Baduel quem, em abril de 2002, reconduziu Chávez ao poder depois de um golpe de estado fracassado que colocou um líder empresarial na presidência.

Com esse ato, o general garantiu a legalidade em um momento em que Chávez ainda não havia colocado de pé o seu próprio projeto ditatorial.

Em 2017, um ano de intensos protestos contra o presidente Nicolás Maduro, sucessor de Chávez (morto em 2013 de câncer), Baduel foi novamente encarcerado sob a acusação de conspirar contra o governo.

Desde então, ele era um dos principais presos políticos da ditadura chavista, justamente por ter sido um aliado de Chávez que rompeu com o regime e caiu em desgraça.

Estima-se em mais 250 o número de venezuelanos que estão detidos por se oporem ao governo. Dez já morreram sob a tutela do Estado venezuelano, muitos em condições suspeitas, possivelmente por maus tratos, tortura ou por terem tido assistência médica negada.

O vereador de oposição Fernando Albán, por exemplo, apareceu morto no pátio da sede da Sebin, a polícia política do regime venezuelano, três anos atrás. O militar Rafael Acosta Arévalo, outro preso de consciência, morreu na prisão por politraumatismo, em condições inexplicadas.

As circunstâncias da morte de Raúl Baduel também são contestadas.

O anúncio do seu falecimento foi feito pelo procurador geral da Venezuela, Tarek William Saab, em uma postagem no Twitter, supostamente em consequência de uma infecção por covid-19.

Foi pelas redes sociais que os familiares de Baduel ficaram sabendo da morte. Prontamente, eles foram ao necrotério para se assegurar de que seu corpo não fosse cremado, pois exigem uma autópsia independente.

Os filhos de Baduel negam que ele estivesse com covid-19. A filha Andreína afirmou que ele havia recebido visita da família poucos dias antes e não apresentava sintomas da doença, mas sim dores abdominais fortes, que já vêm de meses, desde quando foi submetido a uma cirurgia de hérnia inguinal, no final do ano passado. Na ocasião, ele mal teve tempo de se recuperar da cirurgia, sendo levado de volta para a cela na prisão poucas horas depois, ainda no pós-operatório.

Além disso, outro de seus filhos, Josnar, que nos últimos tempos dividia cela com o pai por ter supostamente participado no ano passado de um levante armado contra Maduro, afirmou ao advogado da família que os agentes da Sebin tentaram obrigá-lo, sob ameaça de tortura, a gravar um vídeo confirmando que o pai havia morrido de covid-19.

(Josnar não é o único filho de Baduel que também se tornou preso político. Raúl Emilio Baduel também esteve preso com o pai, entre 2017 e 2018, sob a acusação de perturbação da ordem pública.)

A família de Baduel e líderes da oposição venezuelana estão convencidos de que o governo de Nicolás Maduro matou o general aos poucos, por meio de modernas táticas de tortura e pela recusa sistemática de lhe dar atenção médica adequada ao longo dos anos.

Baduel, assim como outros presos políticos do chavismo que passaram pela Tumba (como é chamado o calabouço do regime instalado no subsolo de um prédio no centro de Caracas), chegou a passar meses em uma solitária, com luz branca acesa 24 horas, sem conseguir discernir dia de noite, sem comunicação externa, com pouca comida e submetido a temperaturas gélidas de um ar condicionado constantemente ligado.

Esse é apenas um exemplo do tipo de tortura a que os presos políticos do regime Maduro são submetidos. E de como eles são paulatinamente assassinados.

A ONU (Organização das Nações Unidas), a OEA (Organização dos Estados Americanos) e o governo americano exigem uma investigação independente da causa da morte de Baduel, se necessário for por meio da exumação do seu corpo. É também o que quer a família do general.

"Se você dá caráter constitucional a uma ideologia particular, como ficam os outros cidadãos que não compartem dessa ideologia? Excluídos", disse-me Baduel em 2008. Seu próprio destino demonstra que ele estava certo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL